AO TROVADOR
Trovador, o que tens, o que sofres,
Por que choras com tanta aflição?
O teu pranto assaz me compunge,
Trovador, ah! não chores mais não!
Se acaso a mulher que tu amas
Te tratou com acerbo rigor,
Trovador, ah! por isso não chores,
Oh! não creias, por Deus, em amor.
O amor da mulher é a nuvem
Quando o vento a impele no ar...
O amor da mulher é volúvel,
É tão vário qual onda do mar.
O amor da mulher é um frágil
Pequenino, adoidado batel,
Que vagueia sem norte, sem rumo,
Té quebrar-se em ignoto parcel.
O amor da mulher é luzerna
Numa noite de inverno a luzir;
É estrela do céu entre nuvens
Que a furto se vê reluzir.
A mulher tem o dom da beleza
Tem maneiras que sabem levar...
Mas no meio de seus atrativos
A mulher tem o dom de enganar.
Um exemplo tu tens em Helena
Que os muros de Tróia abateu,
Que infida, deixando o consorte,
Para os braços de Páris correu.
A mulher tem feitiço nos olhos
E nos lábios veneno letal;
A mulher nos ilude chorando
E sorrindo nos crava o punhal.
O amor da mulher, como a rosa
Desabrocha, mas logo fenece;
A quem hoje a mulher idolatra,
Amanhã menospreza, aborrece.
Trovador, ah! esquece essa ingrata,
Não mendigues a sua afeição;
Oh! despreza a quem te maltrata,
Não suspires por ela mais não!
Eu sinto angústias
Me sufocar;
Não há remédio,
Senão chorar.
Eia, choremos;
Comece o canto;
Também cantando
Se verte o pranto.
O canto às vezes
É brisa d’alma
Que o mal consola
E a dor acalma.
E cada letra
Que o canto diz,
Um ai exprime
Do infeliz!
O canto é prece
Que voa a Deus,
Se um triste canta
Os males seus...
E livre o canto
No ar se isola;
O céu penetra
E Deus consola.
Depois que a ingrata
Feriu-me tanto,
Que de mim fora,
Sem este canto!...
Talvez que as chagas
Fossem mortais,
Se as não curasse
Com estes ais.