AO TROVADOR

By Laurindo José da Silva Rabelo

Trovador, o que tens, o que sofres,

Por que choras com tanta aflição?

O teu pranto assaz me compunge,

Trovador, ah! não chores mais não!

Se acaso a mulher que tu amas

Te tratou com acerbo rigor,

Trovador, ah! por isso não chores,

Oh! não creias, por Deus, em amor.

O amor da mulher é a nuvem

Quando o vento a impele no ar...

O amor da mulher é volúvel,

É tão vário qual onda do mar.

O amor da mulher é um frágil

Pequenino, adoidado batel,

Que vagueia sem norte, sem rumo,

Té quebrar-se em ignoto parcel.

O amor da mulher é luzerna

Numa noite de inverno a luzir;

É estrela do céu entre nuvens

Que a furto se vê reluzir.

A mulher tem o dom da beleza

Tem maneiras que sabem levar...

Mas no meio de seus atrativos

A mulher tem o dom de enganar.

Um exemplo tu tens em Helena

Que os muros de Tróia abateu,

Que infida, deixando o consorte,

Para os braços de Páris correu.

A mulher tem feitiço nos olhos

E nos lábios veneno letal;

A mulher nos ilude chorando

E sorrindo nos crava o punhal.

O amor da mulher, como a rosa

Desabrocha, mas logo fenece;

A quem hoje a mulher idolatra,

Amanhã menospreza, aborrece.

Trovador, ah! esquece essa ingrata,

Não mendigues a sua afeição;

Oh! despreza a quem te maltrata,

Não suspires por ela mais não!

Eu sinto angústias

Me sufocar;

Não há remédio,

Senão chorar.

Eia, choremos;

Comece o canto;

Também cantando

Se verte o pranto.

O canto às vezes

É brisa d’alma

Que o mal consola

E a dor acalma.

E cada letra

Que o canto diz,

Um ai exprime

Do infeliz!

O canto é prece

Que voa a Deus,

Se um triste canta

Os males seus...

E livre o canto

No ar se isola;

O céu penetra

E Deus consola.

Depois que a ingrata

Feriu-me tanto,

Que de mim fora,

Sem este canto!...

Talvez que as chagas

Fossem mortais,

Se as não curasse

Com estes ais.