AO VIGARIO DA VILLA DE S. FRANCISCO POR HUMA PENDENCIA, QUE TEVE COM HUM OURIVES...

By Gregório de Matos Guerra

Naquele grande motim,

onde acudiu tanta gente,

a título de valente

também veio valentim:

puxou pelo seu faim,

e tirando-lhe a barriga,

você se quer, que lho diga,

disse ao Ourives da prata,

na obra desta Mulata

mete muita falsa liga:

Briga, briga.

É homem tão desalmado,

que por lhe a prata faltar,

a estar sempre a trabalhar

bate no vaso sagrado:

não vê que está excomungado,

porque com tanta fadiga

a peça da igreja obriga

numa casa excomungada

com censura reservada,

pela qual Deus o castiga:

Briga, briga.

Porque com modos violentos

a um vigário tão capaz

sobre quatro, que já traz,

cornos, lhe põe quatrocentos!

deixe-se desses intentos,

e reponha a rapariga,

pois a repô-la se obriga,

quando afirma, que a possui,

e se a razão não conclui,

vai esta ponta à barriga:

Briga, briga.

Senhor Ourives, você

não é ourives da prata?

pois que quer dessa Mulata,

que cobre, ou tambaca é?

Restitua a Moça, que

é peça da Igreja antiga:

restitua a rapariga,

que se vingará o Vigário

talvez no confessionário,

e talvez na desobriga:

Briga, briga.

A Mulata já lhe pesa

de trocar odre por odre,

pois o leigo é membro podre,

e o Padre membro da igreja:

sempre esta telha goteja,

sempre dá grão esta espiga,

e a bola da rapariga

quer desfazer esta troca,

e deixando a sua toca

quer fazer co Padre liga

Briga, briga.

Largai a Mulata, e seja

logo logo a bom partido,

que como tem delinquido

se quer acolher à igreja:

porque todo o mundo veja,

que quando a carne inimiga

tenta a uma rapariga,

quer no cabo, quer no rabo

a Igreja vence ao diabo

com outra qualquer cantiga.

Briga, briga.