AO VISCONDE DE VILA-NOVA-CERVEIRA DEPOIS DE PONTE-DE-LIMA
Doze vezes voltando o ardente estio
C’os férvidos agostos,
Quando o quente suor alaga em fio
Os encalmados rostos,
Me achou sentado em trípode de pinho,
Gritando a um povo bárbaro, e daninho.
Doze chuvosos, rígidos janeiros,
Os tetos destroncando,
Me destruíram penas e tinteiros,
Sobre eles gotejando;
E o rouco sul, que em torno assoviava.
Das frias mãos os temas me levava.
Fortuna inexorável, que envenenas
Douradas esperanças;
Que com cetro de ferro me condenas
A estúpidas crianças,
E que entre carunchosos, coxos bancos,
Me vás fazendo estes cabelos brancos:
Tu carregando a feia catadura,
Que amedronta os humanos,
Queres que eu chegue à triste sepultura
C’os dois Quintilianos?
E que em eterna, póstuma memória,
Me gravem no sepulcro a palmatória?
Que meus órfãos discípulos chorando
A perda que fizeram,
Os livros sobre o féretro rasgando.
Que nunca perceberam.
Digam: “Com pranto nosso mestre honremos,
Quatro soluços a seus ossos demos? “
Que de altos bancos, negra eça armando,
E de batinas velhas,
Vão do mudo auditório atormentando
As atentas orelhas
Com orações, à queima roupa, cheias
De apostrofes, e vãs prosopopéias?
Que n’alta noite tempestuosa e escura,
Em horroroso sonho.
Vejam erguer da fria sepultura
Este espectro medonho
A castigar, como fazia em vivo,
O crime de um errado acusativo?
Sábio e ilustre visconde, que te alçaste
Acima dos destinos;
Que em teu peito o saber entesouraste
De gregos e latinos;
Que em continua lição atento enchias
Teus sossegados, bem vividos dias:
Tu, ilustre senhor, em quem agora
Os olhos fitos tenho,
Estende a mão benigna e benfeitora
A meu humilde engenho;
Que se era só às brandas musas dado.
Mais longe irá, se for por ti levado.
Algum talento, que me deu natura,
Seria a mais alçado.
Se eu tivesse a grandíssima ventura
De ser por ti mandado;
Se do alto engenho, de que não presumes,
As instruções bebesse, e os vivos lumes.
Não me atrevo, senhor, a pedir tanto.
Meus fracos ombros vejo;
A tão altas esp’ranças não levanto
Temerário desejo;
Conheço há muito o meu fatal destino,
Eu não nasci de tal fortuna dino.
Mas não encolhas, ínclito Cerveira,
A mão de que eu me valho;
Converta-se o trabalho da cadeira
N’outro qualquer trabalho;
Longe de escolas, longe de crianças,
Farto com pouco minhas esperanças.
Se em nome de teus reis a mil tiraste
Das mãos da crua morte;
Se as chapeadas portas franqueaste
De soterrado forte;
Ação maior, e inda mais pia fazes,
Tirando-me das garras dos rapazes.
Consente-me depois que a lira tome.
Em que áureas cordas vejo;
E que invocando teu ilustre nome
Sobre as praias do Tejo,
O Lima cante em sonoroso verso,
O Lima, que te deu o nome e o berço.
E em memória do grande beneficio.
Lá nas margens do Lima
Irei cravar a insígnia deste ofício.
Lançando areia em cima;
E em tronco anoso de copado freixo.
Cortada em verso, esta escritura deixo.
“Fugi, rapazes, aqui corre risco
Mocidade atrasada;
Não é leão, ou fero basilisco;
Não é serpe enroscada
O que encobre esta fúnebre memória;
É pior que isso tudo, é palmatória.”