AO VISCONDE DE VILA-NOVA-CERVEIRA DEPOIS DE PONTE-DE-LIMA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Doze vezes voltando o ardente estio

C’os férvidos agostos,

Quando o quente suor alaga em fio

Os encalmados rostos,

Me achou sentado em trípode de pinho,

Gritando a um povo bárbaro, e daninho.

Doze chuvosos, rígidos janeiros,

Os tetos destroncando,

Me destruíram penas e tinteiros,

Sobre eles gotejando;

E o rouco sul, que em torno assoviava.

Das frias mãos os temas me levava.

Fortuna inexorável, que envenenas

Douradas esperanças;

Que com cetro de ferro me condenas

A estúpidas crianças,

E que entre carunchosos, coxos bancos,

Me vás fazendo estes cabelos brancos:

Tu carregando a feia catadura,

Que amedronta os humanos,

Queres que eu chegue à triste sepultura

C’os dois Quintilianos?

E que em eterna, póstuma memória,

Me gravem no sepulcro a palmatória?

Que meus órfãos discípulos chorando

A perda que fizeram,

Os livros sobre o féretro rasgando.

Que nunca perceberam.

Digam: “Com pranto nosso mestre honremos,

Quatro soluços a seus ossos demos? “

Que de altos bancos, negra eça armando,

E de batinas velhas,

Vão do mudo auditório atormentando

As atentas orelhas

Com orações, à queima roupa, cheias

De apostrofes, e vãs prosopopéias?

Que n’alta noite tempestuosa e escura,

Em horroroso sonho.

Vejam erguer da fria sepultura

Este espectro medonho

A castigar, como fazia em vivo,

O crime de um errado acusativo?

Sábio e ilustre visconde, que te alçaste

Acima dos destinos;

Que em teu peito o saber entesouraste

De gregos e latinos;

Que em continua lição atento enchias

Teus sossegados, bem vividos dias:

Tu, ilustre senhor, em quem agora

Os olhos fitos tenho,

Estende a mão benigna e benfeitora

A meu humilde engenho;

Que se era só às brandas musas dado.

Mais longe irá, se for por ti levado.

Algum talento, que me deu natura,

Seria a mais alçado.

Se eu tivesse a grandíssima ventura

De ser por ti mandado;

Se do alto engenho, de que não presumes,

As instruções bebesse, e os vivos lumes.

Não me atrevo, senhor, a pedir tanto.

Meus fracos ombros vejo;

A tão altas esp’ranças não levanto

Temerário desejo;

Conheço há muito o meu fatal destino,

Eu não nasci de tal fortuna dino.

Mas não encolhas, ínclito Cerveira,

A mão de que eu me valho;

Converta-se o trabalho da cadeira

N’outro qualquer trabalho;

Longe de escolas, longe de crianças,

Farto com pouco minhas esperanças.

Se em nome de teus reis a mil tiraste

Das mãos da crua morte;

Se as chapeadas portas franqueaste

De soterrado forte;

Ação maior, e inda mais pia fazes,

Tirando-me das garras dos rapazes.

Consente-me depois que a lira tome.

Em que áureas cordas vejo;

E que invocando teu ilustre nome

Sobre as praias do Tejo,

O Lima cante em sonoroso verso,

O Lima, que te deu o nome e o berço.

E em memória do grande beneficio.

Lá nas margens do Lima

Irei cravar a insígnia deste ofício.

Lançando areia em cima;

E em tronco anoso de copado freixo.

Cortada em verso, esta escritura deixo.

“Fugi, rapazes, aqui corre risco

Mocidade atrasada;

Não é leão, ou fero basilisco;

Não é serpe enroscada

O que encobre esta fúnebre memória;

É pior que isso tudo, é palmatória.”