AOS ANOS DO CONDE DE VILA-VERDE, NA OCASIÃO DO SEU DESPACHO PARA SECRETÁRIO D’ES...
Senhor, sofrei os louvores;
Hoje não me são vedados:
São estes solenes dias
A elogios consagrados.
Aos homens, que ao bem dos outros
Seus ilustres dias deram,
A pátria assim santílica
Os dias em que nasceram.
E em honra d’um sentimento,
Que honra o humano coração,
A mais austera modéstia
Cede a geral gratidão.
O dia pois me autoriza,
E manda, senhor, que ouçais
Que o trono vos dá favor
Por saber que vós o dais.
Quer que todos os negócios
Ante vós sejam levados,
Pondes na frente de todos
A causa dos desgraçados.
Juntais ao dom de conselho
Ternos dons de sentimentos;
Em vós vai sempre a bondade
Guiando os vastos talentos.
Enxugais alheio pranto,
Sois com todos terno e justo;
Por isso deu a Mecenas
Sua confiança Augusto.
Sei que vindes de dois reis,
Não chamo agora nenhum,
É melhor que vir de dois,
O servir assim a um.
Santo dia, eu te abençoo;
Na frente dos portugueses
Sobre nossos horizontes
Possas tu raiar cem vezes.
Tu nos deste um peito ilustre,
Feito para benfeitor.
Em que os céus foram criando
O válido e o valedor.
Mas, senhor, meu estro fraco
Profana a glória do dia
Com os inúteis esforços’
D’esta cansada poesia.
Já os selados tesouros
D’Apolo me não são francos;
Em vão na doce Hipocrene
Mergulho os cabelos brancos.
Tem a culpa fogo extinto,
Tem a culpa o frio peito,
A diferença em nossos anos
É a causa deste efeito.
Quanto eles são diferentes,
Eu vou facilmente expô-lo:
Os vossos honram a pátria,
Os meus infamam Apolo.