AOS ANOS DO CONDE DE VILA-VERDE, NA OCASIÃO DO SEU DESPACHO PARA SECRETÁRIO D’ES...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhor, sofrei os louvores;

Hoje não me são vedados:

São estes solenes dias

A elogios consagrados.

Aos homens, que ao bem dos outros

Seus ilustres dias deram,

A pátria assim santílica

Os dias em que nasceram.

E em honra d’um sentimento,

Que honra o humano coração,

A mais austera modéstia

Cede a geral gratidão.

O dia pois me autoriza,

E manda, senhor, que ouçais

Que o trono vos dá favor

Por saber que vós o dais.

Quer que todos os negócios

Ante vós sejam levados,

Pondes na frente de todos

A causa dos desgraçados.

Juntais ao dom de conselho

Ternos dons de sentimentos;

Em vós vai sempre a bondade

Guiando os vastos talentos.

Enxugais alheio pranto,

Sois com todos terno e justo;

Por isso deu a Mecenas

Sua confiança Augusto.

Sei que vindes de dois reis,

Não chamo agora nenhum,

É melhor que vir de dois,

O servir assim a um.

Santo dia, eu te abençoo;

Na frente dos portugueses

Sobre nossos horizontes

Possas tu raiar cem vezes.

Tu nos deste um peito ilustre,

Feito para benfeitor.

Em que os céus foram criando

O válido e o valedor.

Mas, senhor, meu estro fraco

Profana a glória do dia

Com os inúteis esforços’

D’esta cansada poesia.

Já os selados tesouros

D’Apolo me não são francos;

Em vão na doce Hipocrene

Mergulho os cabelos brancos.

Tem a culpa fogo extinto,

Tem a culpa o frio peito,

A diferença em nossos anos

É a causa deste efeito.

Quanto eles são diferentes,

Eu vou facilmente expô-lo:

Os vossos honram a pátria,

Os meus infamam Apolo.