Aos mortos

By João da Cruz e Sousa

Oh! não é bom rir-se de um morto — brusca

Pois deve ser a sensação que aumenta

Desoladora, vagarosa, lenta

Da negra morte tétrica velhusca...

Tudo que em vida, como um sol, corusca,

Que nos aquece, que nos acalenta,

Tudo que a dor e a lágrima afugenta,

O olhar da morte nos apaga e ofusca...

Nunca se deve desprezar os mortos...

Nos regelados e sombrios portos,

Onde a matéria se transforma e urge

Exuberar na planturosa leiva,

Vivem os mortos no vigor da seiva,

Porque dão vida ao que da vida surge!...