APÓLOGO, A ABOBREIRA

By José Joaquim Correia de Almeida

Quis a lei da natureza

Que a vegetal abobreira,

Qual a serpente abatida,

Fosse uma planta rasteira.

Ela se arrasta, é verdade;

Mas, quando pode arrimar-se,

Abandona o chão que é seu,

Trata logo de elevar-se.

Quebranta da natureza

As invioláveis obras;

Deixa pender lá de cima

Os frutos, que são abobras.

Não se nota isto somente

Nesse reino vegetal;

Há certa classe de gente

Abobreira racional.

Ela se arrasta, é verdade;

Mas, quando pode arrimar-se,

Abandona o chão que é seu,

Trata logo de elevar-se.

Então lá de cima pendem

Os frutos de suas obras;

Porém de gente abobreira

Os frutos são sempre abobras!