APÓLOGO, O JOÃO-DE-BARROS E O BEM-TE-VI
João-de-Barros incansável,
Com sacrifício e trabalho,
Engenhoso construía
Sua casa sobre um galho.
Era de terra amassada
Com o suor de seu rosto,
Sem remissão nem descanso
Do nascido até sol-posto.
A construção ressalvava
As regras de arquitetura;
O edifício era robusto,
A morada era segura.
O passarinho arquiteto
Na educação dos filhinhos
Pudera dar sãos conselhos
A qualquer dos passarinhos.
Só entregue a tais cuidados
Não vai a bailes ou festa;
Serve de modelo e norma
De uma família modesta.
Ninguém dê crédito firme
Da fortuna aos bons afagos;
Há seus anos climatéricos,
Há seus dias aziagos.
Quando menos esperava
O inocente passarinho,
Num abrir e fechar d’olhos
Vê-se esbulhado do ninho.
Padece guerra de morte
Na rua ou dentro de casa;
Invejoso Bem-te-vi
Não lhe deixa fazer vaza.
Feias calúnias inventa,
Tece embaraçado enredo
Contra o pobre João-de-Barros,
Que pelos filhos tem medo.
Conhece o triste perigo
Se fica mais tempo ali;
’Stá bem farto de aturar
Candongas do Bem-te-vi.
Despreza tudo, retira-se
Para remoto arvoredo,
Do mau Bem-te-vi fugindo
Às candongas e ao enredo.
O João-de-Barros nos dá
Grande exemplo de prudência;
Aos enredos fazer frente
É rematada demência.