APÓLOGO, O JOÃO-DE-BARROS E O BEM-TE-VI

By José Joaquim Correia de Almeida

João-de-Barros incansável,

Com sacrifício e trabalho,

Engenhoso construía

Sua casa sobre um galho.

Era de terra amassada

Com o suor de seu rosto,

Sem remissão nem descanso

Do nascido até sol-posto.

A construção ressalvava

As regras de arquitetura;

O edifício era robusto,

A morada era segura.

O passarinho arquiteto

Na educação dos filhinhos

Pudera dar sãos conselhos

A qualquer dos passarinhos.

Só entregue a tais cuidados

Não vai a bailes ou festa;

Serve de modelo e norma

De uma família modesta.

Ninguém dê crédito firme

Da fortuna aos bons afagos;

Há seus anos climatéricos,

Há seus dias aziagos.

Quando menos esperava

O inocente passarinho,

Num abrir e fechar d’olhos

Vê-se esbulhado do ninho.

Padece guerra de morte

Na rua ou dentro de casa;

Invejoso Bem-te-vi

Não lhe deixa fazer vaza.

Feias calúnias inventa,

Tece embaraçado enredo

Contra o pobre João-de-Barros,

Que pelos filhos tem medo.

Conhece o triste perigo

Se fica mais tempo ali;

’Stá bem farto de aturar

Candongas do Bem-te-vi.

Despreza tudo, retira-se

Para remoto arvoredo,

Do mau Bem-te-vi fugindo

Às candongas e ao enredo.

O João-de-Barros nos dá

Grande exemplo de prudência;

Aos enredos fazer frente

É rematada demência.