APPLICA O POETA O CASO SEGUINTE A IGNACIO PISSARRO SENDO APANHADO COM HUA MOÇA P...

By Gregório de Matos Guerra

Maria mais o Moleiro,

tiveram certas razões,

Maria caiu-lhe a saia,

e ao Moleiro os calções.

Maria todos os dias

levava a moer o trigo:

vem o Moleiro inimigo

rapa-lho todo em maquias.

Tiveram certas porfias

andaram aos empuxões,

Maria caiu-lhe a saia,

e ao Moleiro os calções.

Maria escapou da briga,

mas logo no outro dia,

eis o Moleiro, e Maria

qual de cu, qual de barriga:

qual de baixo, qual de riba

jogaram os repelões,

Maria caiu-lhe a saia,

e ao Moleiro os calções.

Com tão grandes travessuras

Maria tanto esbofou,

que a candeia se apagou,

e ficaram às escuras:

ela cruzou logo as curvas,

e ele deu-lhe uns bofetões;

Maria caiu-lhe a saia

e o Moleiro os calções.

Em aperto tão urgente

tanto o Moleiro suou,

que a fralda em suor molhou,

não sei se é assim, ou se mente:

ela afirma que ele mente,

que era caldo dos culhões:

Maria caiu-lhe a saia,

e ao Moleiro os calções.

Mas por lograr a ocasião

quis o triste do Moleiro

levar a praça a dinheiro,

não à força do canhão:

puxou pelo seu bolsão,

e dando-lhe dous tostões

Maria caiu-lhe a saia

e ao Moleiro os calções.

Maria inda que cansada

gritava com tal pujança,

que acudiu a vizinhança

vendo tanta matinada:

mas vendo a luz apagada

cuidaram, que eram ladrões:

Maria caiu-lhe a saia

e ao Moleiro os calções.

Veio a luz num castiçal,

e sem temer maus agouros,

acham a Maria em couros,

ao Moleiro outro que tal:

ela a contar o seu mal

e ele a dar suas razões,

Maria caiu-lhe a saia

e ao Moleiro os calções.