ARÚNCIO

By Cláudio Manuel da Costa

Em vão te estás cansando o dia inteiro,

Alcino, em perguntar, que significa

Este, que vês cortar, triste letreiro:

Ele não é debalde: aqui se explica

Tudo, quanto há de grande, novo, e raro,

Na pobre aldeia, e na cidade rica.

Nada pode escapar do golpe avaro...

(Diz esta cifra breve): agora entende;

Que deste dito o assunto eu não declaro.

Se o meu juízo o caso compreende,

Essa letra, que entalhas, e que admiro,

Com a morte de Arúncio fala, ou prende.

Ah! Que arrancas um mísero suspiro

Do centro de minha alma; o nome amado

Me faz deixar a vida, que respiro.

Eu bem via, que estava o teu cuidado,

Frondoso meu, lembrando a triste morte

Desse caro pastor, tão estimado.

E quando esperas tu, que o fatal corte,

Que de mim separou tão doce amigo,

Possa romper de amor o laço forte!

Primeiro se verá nascer o trigo

No céu; dará primeiro a terra estrelas,

Que tenha esta lembrança algum perigo.

Triste, e funesto caso! As ninfas belas

Do pátrio Ribeirão tanto choraram,

Que inda alívio não há, nem gosto entre elas.

Os gados largos dias não pastaram;

E mugindo à maneira de sentidos,

A pele sobre os ossos encostaram.

Os mochos pelas faias estendidos

Enchendo a terra, e céu de mil agouros,

Espalharam tristíssimos grasnidos.

Os campos, que té ali se viam louros

Com o matiz vistoso das searas,

Perderam de repente seus tesouros.

Esses sinais, Alcino, se reparas,

Dizem cousa maior, que sentimentos

Consagrados da morte sobre as aras.

Quando há mostras no céu, quando há portentos

Na terra, algum segredo há, não sei onde,

Que não é para humanos pensamentos.

Ao meu conhecimento não se esconde

A grandeza do golpe: mas alcanço,

Que a tanta perda a dor não corresponde.

De te buscar exemplos me não canso;

Só te lembro porém, que o tronco duro

Faz mais estrago que o arbusto manso.

O que queres dizer, eu conjeturo:

No vime, e no carvalho há igual ruína:

Igual a consequência eu não seguro.

Aquele cai sem dano, este destina

Fatal estrago a tudo, o que está posto

Debaixo dele. É isto? Ora imagina.

Jove aparte de nós tanto desgosto:

Baste, para avivar nossa saudade,

O ser cortado em flor aquele rosto.

Contente-se da morte a crueldade

Em nos levar com passo tão ligeiro

Uma tão bela, tão mimosa idade.

Roubou-nos um pastor, que era o primeiro

Entre os nossos do monte; ele nos dava

As justas leis no campo, e no terreiro.

Ele as dúvidas nossas concertava;

E sendo maioral, por arte nova,

Com respeito o agrado temperava.

De mil virtudes suas nos deu prova;

Sempre a bem dirigindo os nossos passos.

Oh quanto esta lembrança a dor renova!

Ai! E com quanta mágoa nos teus braços

Eu vi, Frondoso meu, que Arúncio esteve

Desatando da vida os doces laços!

Meu pensamento, Amigo, não se atreve

A lembrar-se (ai de mim!) da mortal hora.

Em que vi acabar vida tão breve.

Quem fora duro seixo, ou bronze fora,

Para animar agora na lembrança

Aquela imagem, com que esta alma chora!

Eu vi, Alcino, eu vi, que na mudança

Que do caduco e eterno bem fazia,

A alma tinha cheia de esperança.

Tudo, o que era mortal, aborrecia:

A cópia dos seus gados, o cajado,

(Bem que era de ouro fino) em nada havia.

Em vão o molestava o doce estado

Da honra, e da grandeza: a Jove entregue

O espírito seguia outro cuidado.

Mas ai, Alcino! A voz já não prossegue;

Que tudo, o que a memória vem trazendo,

Receio, Amigo, que a matar-me chegue.

As ninfas do Mondego estou já vendo

Descerem para nós com triste pranto.

Ou eu me engano, ou elas vêm dizendo:

Se do lírio, da murta, e do amaranto

Cercada deve ser a sepultura

De Arúncio, a nós nos toca ofício tanto.

Nós o criamos, com feliz ternura,

Dando-lhe o mel, e o leite: a nós nos toca

Mandar o corpo belo à terra dura.

De outro lado igualmente se provoca

O Tejo (onde ele viu a luz primeira):

E as ninfas do centro úmido convoca.

A mim só se me deve a glória inteira

(Fala o soberbo Tejo) eu o demando:

Minha há de ser esta honra derradeira.

Aqui lhe estou uma urna preparando,

Coberta de um cipreste; onde a memória

Seu nome viverá sempre guardando.

Por mais que voe a idade transitória,

Nunca se há de apagar aquele afeto,

Que de Arúncio consagro à triste história.

Durarás entre nós, Pastor discreto,

Renovando a lembrança de Corino,

Que da nossa saudade é inda objeto:

Ele te deu o ser; tu peregrino

Retrato de seus dotes, consolavas

Nosso desejo, tão constante, e fino.

Aquele caro irmão, que tanto amavas,

Aônio, digo, aquele, a quem devias

Toda a felicidade, que gozavas,

Hoje lamenta teus saudosos dias;

Hoje chora comigo: eu lhe desejo

Alívio a tão cansadas agonias.

Oh! Contente-se embora o claro Tejo

De haver ao mundo dado, quem lhe ganha

Fama, e nome a seu reino assaz sobejo.

Contente-se o Mondego, que na estranha

Ventura de educá-lo, deu ao mundo,

Quem lhe soube adquirir glória tamanha.

O fado, que conhece inda o mais fundo,

Quer, que guarde seu corpo a turva areia

De outro rio, mais triste, e mais profundo.

Do rio, que seu curso não refreia

Até chegar, onde entra a grande costa,

Que banha do Brasil salgada veia.

Rio das Velhas se chama (se reposta

Buscamos nos antigos, a pintura

Das dórcades na história se vê posta).

Os primeiros, que entraram na espessura

Dos ásperos sertões, dizem, que acharam

Três bárbaras, já velhas, nesta altura.

Das três Parcas melhor eles tomaram

O nome desse rio; se é verdade,

Que elas a vida humana governaram.

Triste sejas, ó rio: a divindade

De Apolo, que em ti cria o amável ouro,

Se aparte do teu seio em toda a idade.

Não sejas da ambição rico tesouro:

Girar se vejam sobre as praias tuas

Os brancos cisnes não, aves d’agouro.

Do inverno as enxurradas levem cruas

As sementeiras, que teus campos criam:

Deixem só sobre a terra as pedras nuas.

Os pobres navegantes, que se fiam

Dessas funestas águas, desde agora

Conheçam a traição, que não temiam.

E contra quem, Frondoso, inda em tal hora

Se armam as pragas tuas! Um delírio

Só para extremo tal desculpa fora.

Se Jove é quem nos manda este martírio,

Soframos o seu golpe: ao pastor belo

Derramemos em cima o goivo, o lírio.

O nosso Ribeirão traz o modelo

Do enterro, que dispõe: nós entretanto

Demos a conhecer nosso desvelo.

Envolto o corpo em um cândido manto,

Que distingue de Deus o brasão nobre,

Aqui se of’rece para o nosso pranto.

Enquanto pois o corpo a terra cobre,

Seguindo o teu princípio deixa, Amigo,

Que um voto lhe consagre um pastor pobre,

Um voto, que se escreva em seu jazigo.