AS DUAS REDENÇÕES

By Laurindo José da Silva Rabelo

Inda uma vez tanjamos

A lira, e mais um hino

Consinta-me o destino

Erguer nos cantos meus;

Que vá, de sons profanos

Despido e desquitado

Em vôo arrebatado,

Voando aos pés de Deus.

Da liberdade a estrela

No berço da inocência

Derrama a providência

De duas redenções;

Mostrando um’alma limpa

Do crime primitivo

No corpo de um cativo

Que quebra os seus grilhões.

Que assunto mais merece

Um hino de poesia?

Que dia tem mais dia?

Que feito tem mais Luz?

Do cativeiro um anjo

Quebrando infames laços,

À cruz estende os braços

E os braços lhe abre a cruz.

Perfilha Deus o anjo

Na filiação da graça,

E o ser que o crime embaça

Puniu a redenção!

E o homem, dissipando

Do berço insano agravo,

Em menos um escravo

Abraça um novo irmão!

Que foras, inocente,

Que foras, nesta vida,

Da escravidão perdida

No bárbaro bazar!?

Pobre rola ferida

Da infâmia pelo espinho,

Em que ramo, em que ninho

Te havias de aninhar?

Infante, sem afagos,

Temendo-te altiveza,

Querendo-te a vileza

Plantar no coração,

Dariam-te nos gestos,

Nas vestes, no aposento,

Na mesa, no alimento,

Somente — escravidão!

Donzela (oh! sacrilégio!)

Amor, qual flor sem viço,

Mil vezes é serviço

Que fero senhor quer!

É dor que o fel requinta,

Que a ímpia sorte agrava

Daquela que é escrava

Depois de ser mulher!

Se mãe (é mãe escrava!)

Quem sabe se verias

Teu filho mãos ímpias

Do seio te arrancar?

E surdos ao teu pranto

Mandarem-te com calma

Do seio da tua alma

A outro alimentar?!

Criança mas sem veres

Da infância as verdes cores,

Donzela sem amores,

Talvez alam sem Deus!

Não foras arrastada

Da vida pelos trilhos,

Nem tu, e nem teus filhos

Seriam filhos teus.

Ó vós que hoje lhe destes

O dom da liberdade,

Que junto à divindade

Matais a escravidão,

Ao trovador propícios

De ação tão excelente

Em culto reverente...

Guardai esta canção.

Eu sei que haveis guardá-la,

Que em tão santa amizade

Não vem a variedade

Deitar veneno atroz.

Sou vosso desde a infância:

Da vida até o fim

Sereis tanto por mim

Como serei por vós!