AS FALCATRUAS DE AMOR
Arredem-se assuntos bíblicos!
Meu Castilho, isto é mania,
Que me aquece a fantasia,
E me exaspera o furor;
Canto em estilo de fábula
As falcatruas de amor.
O tal rapazinho trêfego,
Que tem a venda nos olhos,
Despede frechas a molhos,
Que certeiras vão ferir,
E pesca em rede de astúcias
O insensato que o seguir.
Tem odorífera lógica,
Silogismo saboroso,
Produz inefável gozo
Um seu ditinho de mel;
Porém depois o malévolo
Nos enche a boca de fel.
Rolam cascatas de lágrimas
Por virgíneas lindas faces,
Quais por canteiros de alfaces
Do regador águas mil.
Quem fez correr tanto líquido,
Que pode encher um barril?
Foi golpe do sagitário,
Que não o dá que não toque,
Pois até mesmo o bodoque,
Ele o sabe manejar:
Ou pelota ou seta alígera
Nunca desvaira no ar.
— Eco — certa Ninfa chama-se,
Que, por desdém de Narciso,
De todo perdendo o siso
No retiro feneceu.
Farpada seta letífera
Do alvo peito lhe pendeu.
Devorada pelo incêndio
Foi no tempo antigo Troia!
Quem engenhou a tramoia
Que teve o desfecho mau?
Amou um filho de Príamo
A mulher de Menelau.
o exímio vate de Mântua
Conta o caso acontecido
À infeliz Sidônia Dido,
A viúva de Siqueu!
Cupido fingido Ascânio
Todo esse enredo teceu.
Que foi fazer a Colácia
De Tarquínio o filho jovem?
Que justas razões o movem,
E o conduzem para ali?
Os encantos de Lucrécia
O tomam fora de si.
As choradeiras, a lábia
Do poeta de Pelignos
Não sabem fazer benignos,
Os Deuses em prol do réu.
Quem foi que ao sonoro Ovídio
Em calças pardas meteu?
Mão de Mestre agora trança-lhe
A mais brilhante grinalda
De preciosa esmeralda,
Do fulgurante rubim;
Mas nem por isso entre os bárbaros
Deixou de ter triste fim.
Transparentes ares toldam-se,
E murcham viçosas flores,
Porque da morte os horrores
Padece a cândida Inês!
De tão inocente vítima
Quem o carrasco se fez?
Os exemplos são inúmeros,
E grande a soma de fatos,
Para prova dos maus tratos
Que amor quase sempre dá.
Seu bodoque tão maléfico
Que destroços não fará!