AS FALCATRUAS DE AMOR

By José Joaquim Correia de Almeida

Arredem-se assuntos bíblicos!

Meu Castilho, isto é mania,

Que me aquece a fantasia,

E me exaspera o furor;

Canto em estilo de fábula

As falcatruas de amor.

O tal rapazinho trêfego,

Que tem a venda nos olhos,

Despede frechas a molhos,

Que certeiras vão ferir,

E pesca em rede de astúcias

O insensato que o seguir.

Tem odorífera lógica,

Silogismo saboroso,

Produz inefável gozo

Um seu ditinho de mel;

Porém depois o malévolo

Nos enche a boca de fel.

Rolam cascatas de lágrimas

Por virgíneas lindas faces,

Quais por canteiros de alfaces

Do regador águas mil.

Quem fez correr tanto líquido,

Que pode encher um barril?

Foi golpe do sagitário,

Que não o dá que não toque,

Pois até mesmo o bodoque,

Ele o sabe manejar:

Ou pelota ou seta alígera

Nunca desvaira no ar.

— Eco — certa Ninfa chama-se,

Que, por desdém de Narciso,

De todo perdendo o siso

No retiro feneceu.

Farpada seta letífera

Do alvo peito lhe pendeu.

Devorada pelo incêndio

Foi no tempo antigo Troia!

Quem engenhou a tramoia

Que teve o desfecho mau?

Amou um filho de Príamo

A mulher de Menelau.

o exímio vate de Mântua

Conta o caso acontecido

À infeliz Sidônia Dido,

A viúva de Siqueu!

Cupido fingido Ascânio

Todo esse enredo teceu.

Que foi fazer a Colácia

De Tarquínio o filho jovem?

Que justas razões o movem,

E o conduzem para ali?

Os encantos de Lucrécia

O tomam fora de si.

As choradeiras, a lábia

Do poeta de Pelignos

Não sabem fazer benignos,

Os Deuses em prol do réu.

Quem foi que ao sonoro Ovídio

Em calças pardas meteu?

Mão de Mestre agora trança-lhe

A mais brilhante grinalda

De preciosa esmeralda,

Do fulgurante rubim;

Mas nem por isso entre os bárbaros

Deixou de ter triste fim.

Transparentes ares toldam-se,

E murcham viçosas flores,

Porque da morte os horrores

Padece a cândida Inês!

De tão inocente vítima

Quem o carrasco se fez?

Os exemplos são inúmeros,

E grande a soma de fatos,

Para prova dos maus tratos

Que amor quase sempre dá.

Seu bodoque tão maléfico

Que destroços não fará!