AS INCOMPATIBILIDADES

By José Joaquim Correia de Almeida

Baldo de engenho e d’arte,

sem profundo talento,

Um notável portento

Cantando espalharei por toda a parte.

Verá quem não é cego

Esta contradição:

No médio cidadão

Incompatível é qualquer emprego.

O ser vereador,

E ser juiz de paz,

Que conciliação faz

Excesso é, que se pune com rigor.

É terrível delito

Que, por ordem do dia

Ou grave portaria

Do presidente leva grande pito.

Nas altas regiões

Diverso galo canta,

Ninguém por lá se espanta

De exercer um milhão de ocupações.

Ocupações rendosas,

Que não causam fastios,

Fofos colchões macios,

Ou leito suavíssimo de rosas.

O feito deputado

Na casa toma assento:

Só deixa por momento

A vara de juiz ou magistrado.

Porque encerrada a cuja,

Regressa para a banca,

E de novo desbanca,

Primando na sentença ou garatuja.

E pode o senador

Fazer-se conselheiro,

Ministro financeiro,

E de tudo aceitar paga e valor.

Este, que a pátria cara

Sob a tutela toma,

Para aumentar a soma

Se mais mundos houvera lá chegara.