As lavandeiras

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Tristes dessas mulheres

Que a vida passam junto às fontes cristalinas:

— Umas da cor das lívidas boninas;

Outras da cor dos malmequeres.

São tão tristes que a gente ao vê-las pensa

Não existir no mundo uma dor mais intensa

Do que a que lhes sobe às estranhas pupilas!

No entanto, são tranquilas:

— Almas cheias de claridade,

Almas suaves como se fossem aves,

Ora ao belo esplendor do sol no mês de agosto;

Ora ao vivo faiscar da soalheira de outubro;

Ora ao fogo vermelho, ao forte fogo rubro

De dezembro;

Ora à chuva inclemente, ou às grandes geadas

Que bordam de cristal a fita das estradas.

Eu muito que me lembro

Dessas pobres mulheres

Que passam sem cessar toda a vida ajoelhadas

Junto às pedras da fonte. Ai! delas coitadinhas!

Pois muitas são tristíssimas velhinhas

Cujos cabelos

Parecem feitos dos mais brancos gelos,

Quem nem mesmo o calor dos sóis, por mais vibrante,

Será capaz de derretê-los!

Eu muito que me lembro,

Principalmente de uma... Era, a Laurinda,

Uma alma tão linda

Como nunca encontrei, no tempo de rapaz,

Nem mesmo agora, em que tenho os pés para a cova,

Corpo vergado ao chão, mas alma sempre nova.

Assim que as rosas de cristal do dia

Abriam-se no morro, ei-la na paz

De Jesus e Maria.

— Era o que ela repetia.

Quando se levantava

Dos cheirosos lençóis e travesseiros

Corados ao luar,

Nas ramadas em flor dos jasmineiros.

Ela se levantava,

Quando o seu galo punha-se a cantar,

E cantava três vezes. Que relógio bom!

Nenhum outro havia

Com tão saudoso e cristalino som.

Ao clarear do dia, a velhinha corria

E lavava, na fonte, no gramado:

— Primeiro, o seu rosto enrugado,

E alquebrantado;

Segundo, os braços nus; o pescoço, o cabelo,

Que há muitos anos já era poeirado de gelo.

Ajoelhada, depois, ei-la a lavar p’ra fora,

P’ra casa de um doutor, cuja mulher lhe dava

Quatro mil réis por mês, sem lhe dar o sabão!

E a Laurinda, alma tão linda,

Não se queixava não!

E a mulher do doutor embirrava com ela,

Pois não queria ver a roupa na barrela,

Para não se estragar.

E o rapazio ao vê-la, repetia,

Na mais doida ironia:

— Toca, velhinha, a lavar,

Com as forças que teus... Lava ao sol, lava à chuva,

Lava à geada, e ao vento. É o teu destino, lava...

Lava, viúva!

E ela, de joelhos, lavava e cantava,

Sempre alegre e vivaz, na doce paz

De Jesus e Maria,

Não lhe importando a rústica exigência

E a impertinência,

De quem quatro mil réis só lhe dava por mês,

Nem as blasfêmias dos rapazes,

Incapazes

De atingi-la sequer uma única vez.

Adorável velhinha,

De quem hoje me lembro e hei de me lembrar

Por toda a minha vida, o teu formoso olhar

Fora o encanto do meu, porque eu nele via

A verde cor do mar,

Sempre da cor da esperança indefinida,

Nunca clamaste contra o teu destino;

Nunca choraste pranto a não ser cristalino,

Porque uma alma sã não pode chorar mágoas,

Que sempre são da cor da tinta de escrever,

Com a qual, entretanto, não se escreve,

Nem de leve,

As ânsias de quem vive a padecer.

Mas agora te vejo, entre nimbos, no Espaço,

Na irradiação da prece que te faço.