As lavandeiras
Tristes dessas mulheres
Que a vida passam junto às fontes cristalinas:
— Umas da cor das lívidas boninas;
Outras da cor dos malmequeres.
São tão tristes que a gente ao vê-las pensa
Não existir no mundo uma dor mais intensa
Do que a que lhes sobe às estranhas pupilas!
No entanto, são tranquilas:
— Almas cheias de claridade,
Almas suaves como se fossem aves,
Ora ao belo esplendor do sol no mês de agosto;
Ora ao vivo faiscar da soalheira de outubro;
Ora ao fogo vermelho, ao forte fogo rubro
De dezembro;
Ora à chuva inclemente, ou às grandes geadas
Que bordam de cristal a fita das estradas.
Eu muito que me lembro
Dessas pobres mulheres
Que passam sem cessar toda a vida ajoelhadas
Junto às pedras da fonte. Ai! delas coitadinhas!
Pois muitas são tristíssimas velhinhas
Cujos cabelos
Parecem feitos dos mais brancos gelos,
Quem nem mesmo o calor dos sóis, por mais vibrante,
Será capaz de derretê-los!
Eu muito que me lembro,
Principalmente de uma... Era, a Laurinda,
Uma alma tão linda
Como nunca encontrei, no tempo de rapaz,
Nem mesmo agora, em que tenho os pés para a cova,
Corpo vergado ao chão, mas alma sempre nova.
Assim que as rosas de cristal do dia
Abriam-se no morro, ei-la na paz
De Jesus e Maria.
— Era o que ela repetia.
Quando se levantava
Dos cheirosos lençóis e travesseiros
Corados ao luar,
Nas ramadas em flor dos jasmineiros.
Ela se levantava,
Quando o seu galo punha-se a cantar,
E cantava três vezes. Que relógio bom!
Nenhum outro havia
Com tão saudoso e cristalino som.
Ao clarear do dia, a velhinha corria
E lavava, na fonte, no gramado:
— Primeiro, o seu rosto enrugado,
E alquebrantado;
Segundo, os braços nus; o pescoço, o cabelo,
Que há muitos anos já era poeirado de gelo.
Ajoelhada, depois, ei-la a lavar p’ra fora,
P’ra casa de um doutor, cuja mulher lhe dava
Quatro mil réis por mês, sem lhe dar o sabão!
E a Laurinda, alma tão linda,
Não se queixava não!
E a mulher do doutor embirrava com ela,
Pois não queria ver a roupa na barrela,
Para não se estragar.
E o rapazio ao vê-la, repetia,
Na mais doida ironia:
— Toca, velhinha, a lavar,
Com as forças que teus... Lava ao sol, lava à chuva,
Lava à geada, e ao vento. É o teu destino, lava...
Lava, viúva!
E ela, de joelhos, lavava e cantava,
Sempre alegre e vivaz, na doce paz
De Jesus e Maria,
Não lhe importando a rústica exigência
E a impertinência,
De quem quatro mil réis só lhe dava por mês,
Nem as blasfêmias dos rapazes,
Incapazes
De atingi-la sequer uma única vez.
Adorável velhinha,
De quem hoje me lembro e hei de me lembrar
Por toda a minha vida, o teu formoso olhar
Fora o encanto do meu, porque eu nele via
A verde cor do mar,
Sempre da cor da esperança indefinida,
Nunca clamaste contra o teu destino;
Nunca choraste pranto a não ser cristalino,
Porque uma alma sã não pode chorar mágoas,
Que sempre são da cor da tinta de escrever,
Com a qual, entretanto, não se escreve,
Nem de leve,
As ânsias de quem vive a padecer.
Mas agora te vejo, entre nimbos, no Espaço,
Na irradiação da prece que te faço.