AS UVAS DE S. MACARÁRIO

By José Joaquim Correia de Almeida

São Macário, no deserto

suportando sóis e chuvas,

em dia de jejum certo

recebeu um cacho de uvas.

Por não quebrar o preceito,

não leva aos dentes um bago,

e a outro ermitão perfeito

as remete sem estrago.

Este segundo a terceiro

oferece o belo cacho,

que viaja intacto e inteiro,

sem passaporte ou despacho.

Do terceiro vai ao quarto,

que, solitário abstinente,

apesar de menos farto,

a quinto envia o presente.

Dirige o cacho este quinto

para Macário a seu turno,

e só assim fica extinto

esse giro diuturno.

Lei diversa nos regula

neste tempo derradeiro!

Peca-se tanto na gula,

que este conto verdadeiro

faz que a saliva se engula.