Asa guiadora

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Maria, em troca dos meus tormentos

Que são tão frios, que são tão frios,

Iguais aos ventos em rodopios

No mar do sul,

Dize, Maria, se eu nesse Azul

Terei a graça de me encontrar

Contigo, no mesmo Abrigo,

Na do luar.

E se eu entrar no teu Abrigo,

Na do luar,

Terei a imensa felicidade

De te beijar as mãos piedosas,

As mãos formosas, miraculosas,

Muito mais plenas de castidade

Do que as rosas?

E se eu beijá-las

Encontrarei alívio a todos os meus prantos,

E aos meus ais, que são tantos

Como os grãos do areal da praia nua

Por onde correm os vendavais?

Dizes que eu suba ao Bergantim da lua,

Que é o teu bergantim de marfim,

E não tema viajar por entre os sóis,

E as formosas estrelas diamantinas,

Nas regiões divinas

Onde existem milhares de faróis...

Mas quem me estenderá

A mão banhada de doçuras?

E quem me levará a essas grandes alturas

Onde o teu bergantim de marfim

Ao nosso olhar saudoso, esplêndido aparece?

“— Busca

A asa amorosa, a asa feliz, a asa sagrada

Da Prece

Que é uma ave azul;

E ela te levará aos longínquos espaços,

Na bendita cruzada, onde nada se ofusca,

Porque Jesus lá está no Cruzeiro do Sul,

E a todos abre os braços...”

E por quem devo orar, sob o fulgor dessa asa

Guiadora, através dos longes infinitos?

— “Ora pelos aflitos”.