ATREVIDO PENSAMENTO, NÃO ME ACABES DE MATAR, QUE BASTA PARA CASTIGO Q’RER BEM A ...
Oh! se eu algum dia achasse
De Laura o gênio mais brando,
Ou se a mim de quando em quando
Os belos olhos voltasse,
Que gosto se ela mostrasse
Compaixão do meu tormento
Mas, ó céus, que atrevimento!
Nisto ao respeito lhe falto,
Ah, não, não voes tão alto.
Atrevido pensamento.
Senhora, desta loucura
Para estar bem castigado,
Sinto a coração chagado,
Sem ter esperança de cura;
Neste estado era Aventura
Tão triste vida acabar,
Mas para mais gosto dar
Ao teu gênio enfurecido,
Conserva-me assim ferido,
Não me acabes de matar.
Bem sei que sou delinquente,
Que em vão desculpas medito,
Porém se amar-te é delito,
Quem acharás inocente?
Bem sei que este fogo ardente
Devia ocular comigo,
Porém de eu estar contigo
Perder sequer um momento
Ah! senhora, é um tormento,
Que basta para castigo.
Mas d’esta minha desgraça
Eu vivo tão satisfeito.
Que inda vendo roto o peito.
Amo a seta que o traspassa:
Fere, ingrata, despedaça
Este coração leal,
Que o amor, que te tenho, é tal,
Que hei de, porque mais se esmere,
Beijar a mão que me fere,
Q’rer bem a quem me quer mal.