Auréolas
Conheço um poeta audaz que faz das suas rimas
Estrelas colossais de rútilos clarões,
Rimas que vão buscar os mais estranhos climas
Onde a vida palpita em novos corações.
Poeta varonil, tranquilo, extravagante,
Radioso como o sol, pujante como as raças,
Que esgrime e joga o verso e quebra num instante
As difíceis (...) como se fossem taças.
Ao lê-lo bom humor simpático e sadio
Insufla-me aos pulmões o éter do vigor
E escorre-me um luar mavioso como um rio
No cândido estendal suavíssimo do amor.
É certo que me alegra, é certo que me exalta
Seu verso magistral, de múltiplas surpresas,
Da qual o sol, a vida, o ruído pula e salta.
E o mundo e todo o mundo e todas as grandezas.
Em cada estrofe anseia e canta um céu diverso.
Um triunfo, uma glória olímpica de herói;
E há pelo organismo ideal de cada verso
Muita vez um satânico que dói.
A ideia que ele expõe e as rimas inefáveis,
Da mais resplandecente originalidade,
Cintilam pelo ar, serenas e adoráveis,
Como frutos do sol, pomos de virgindade.
E vão rompendo a flux e afora, castamente,
Estrofes divinais, banhadas num azul,
Livres, impetuosas, livres como a enchente
Dos mares e a rajada elétrica do sul.
Cada estrofe que vibra é como uma alvorada
De tom imaculado, etéreo, diamantino;
E a ideia é sempre bela, embora complicada
Com o rico frontal de um templo manuelino.
Em borbotões joviais a poesia eterna
Rebenta-lhe feliz, pomposa, oriental,
Pois que ele é o timoneiro, o nauta que governa
A manobra gentil na barca do Ideal.
E dão-me um bem estar seus versos superiores,
O seu áureo tropel de rimas tão sonoras,
Como um branco dilúvio excepcional de flores,
Como duchas febris, puríssimas, de auroras.