Auréolas

By João da Cruz e Sousa

Conheço um poeta audaz que faz das suas rimas

Estrelas colossais de rútilos clarões,

Rimas que vão buscar os mais estranhos climas

Onde a vida palpita em novos corações.

Poeta varonil, tranquilo, extravagante,

Radioso como o sol, pujante como as raças,

Que esgrime e joga o verso e quebra num instante

As difíceis (...) como se fossem taças.

Ao lê-lo bom humor simpático e sadio

Insufla-me aos pulmões o éter do vigor

E escorre-me um luar mavioso como um rio

No cândido estendal suavíssimo do amor.

É certo que me alegra, é certo que me exalta

Seu verso magistral, de múltiplas surpresas,

Da qual o sol, a vida, o ruído pula e salta.

E o mundo e todo o mundo e todas as grandezas.

Em cada estrofe anseia e canta um céu diverso.

Um triunfo, uma glória olímpica de herói;

E há pelo organismo ideal de cada verso

Muita vez um satânico que dói.

A ideia que ele expõe e as rimas inefáveis,

Da mais resplandecente originalidade,

Cintilam pelo ar, serenas e adoráveis,

Como frutos do sol, pomos de virgindade.

E vão rompendo a flux e afora, castamente,

Estrofes divinais, banhadas num azul,

Livres, impetuosas, livres como a enchente

Dos mares e a rajada elétrica do sul.

Cada estrofe que vibra é como uma alvorada

De tom imaculado, etéreo, diamantino;

E a ideia é sempre bela, embora complicada

Com o rico frontal de um templo manuelino.

Em borbotões joviais a poesia eterna

Rebenta-lhe feliz, pomposa, oriental,

Pois que ele é o timoneiro, o nauta que governa

A manobra gentil na barca do Ideal.

E dão-me um bem estar seus versos superiores,

O seu áureo tropel de rimas tão sonoras,

Como um branco dilúvio excepcional de flores,

Como duchas febris, puríssimas, de auroras.