AUSENTE DE SUA CASA PONDERA O POETA O SEU MESMO ÊRRO, EM OCCASIÃO DE SER BUSCADO POR SUA MULHER.
Foi-se Brás da sua aldeia,
Sabe Deus, se tornará,
que viu no caminho a Menga,
e a Gila não quer ver mais.
Brás um Pastor namorado
tão nobre, como entendido
das Pastoras tão querido,
como na aldeia invejado:
dos arpões do Amor crivado
tanto os sentidos lhe enleia,
Menga, e tanto se lhe afeia
Gila em seu ciúme esquivo,
que por um, e outro motivo
Foi-se Brás da sua aldeia.
Gila, que esta ausência sente,
movida de seus pesares
correu terras, passou mares
zelosa, e impaciente:
nenhuns vestígios persente
das passadas, que Brás dá,
mas tendo notícia já,
que o leva um novo cuidado,
disse, se vai namorado,
Sabe Deus, se tornará.
No tempo, em que Brás me olhava,
e a vista não divertia,
então sim que me queria,
e de querer me adorava:
porém hoje, que da aljava,
de Amor, que tanto o derrenga,
anda ferido: que arenga,
que razão, que pundonor
há de virar a um Pastor,
que viu no caminho a Menga?
Se anda atrás de uma beleza,
um garbo, uma bizarria,
e é homem Brás, que varia
por gosto, e por natureza,
quem o tirará da empresa
de merecer prendas tais,
se os meus suspiros, e ais
valem com ele tão pouco,
que se anda por Menga louco,
E a Gila não quer ver mais.