BANDO

By Laurindo José da Silva Rabelo

Eia, Baianos, raiar

Vai na terra do Cruzeiro

Esse dia tão jucundo,

Que, apesar de ser segundo,

Há de sempre ser primeiro!

Não deixes despercebido

O rei dos dias passar,

Mostrai que não sois escravos,

Mostrai que o dia dos bravos

Inda sabeis festejar!

Se o misérrimo que sofre

Da escravidão os rigores,

Às vezes repete a história

Dos seus passados de glória

Nas senzalas dos senhores;

Nós livres, a quem escravos

Inda não pôde fazer

O furor do despotismo,

Nossos feitos de heroísmo

Não devemos esquecer.

Não devemos esquecer

Esse dia, a cuja luz

Os deus dos Americanos

Escreveu — morte aos tiranos —

Nos braços da Santa-Cruz.

Esse dia que provou

Com solene majestade

Ao vil tirano atrevido,

Quanto pode um povo unido,

Quando grita — liberdade —

Com as frontes coroadas

De louros vamos cantar

Hinos aos fortes soldados,

Que valentes, denodados,

Nos souberam libertar.

Todos os ódios se esqueçam,

Demo-nos todos as mãos,

E empenhemos nosso orgulho

Em festejar dous de julho,

Em um banquete d’irmãos!

Nem receeis que algum braço,

Que para nos esmagar

Ocultamente trabalha,

Da nossa mesa a toalha

Venha com sangue manchar.

Não, que tem a liberdade

Seus amores neste dia,

E, temendo as iras dela,

Se atormenta, se arrepela,

Mas não fala a tirania.

Comece pois o festim,

E nas galas sem rival

Entre as ledas comitivas,

Impelido pelos vivas

Rode o carro triunfal.

Saia à noite, que não há de

Cobri-lo da noite o véu;

Brandões hão de iluminá-lo,

De luzes hão de banhá-lo

Os candelabros do céu!

Nele do dia dos livres

Veja o formoso arrebol,

Essa cabocla engraçada

Que tem a face tostada

Dos beijos que deu-lhe o sol!

E quando voltar dirão

Com toda a gente os louvores,

O mar por canhões bradando,

Os ares vivas troando,

A terra brotando flores!

Seja então tudo prazer,

Tudo sonoras canções,

Tudo banquete de bravos,

Tudo remorsos de escravos

Que inda desejam grilhões!

Eia, Baianos, raiar

Vai na terra do Cruzeiro

Esse dia tão jucundo,

Que, apesar de ser segundo,

Há de sempre ser primeiro.

Não deixeis despercebido

O rei dos dias passar,

Mostrai que não sois escravos,

Mostrai que o dia dos bravos

Inda sabeis festejar.