BANDO
Eia, Baianos, raiar
Vai na terra do Cruzeiro
Esse dia tão jucundo,
Que, apesar de ser segundo,
Há de sempre ser primeiro!
Não deixes despercebido
O rei dos dias passar,
Mostrai que não sois escravos,
Mostrai que o dia dos bravos
Inda sabeis festejar!
Se o misérrimo que sofre
Da escravidão os rigores,
Às vezes repete a história
Dos seus passados de glória
Nas senzalas dos senhores;
Nós livres, a quem escravos
Inda não pôde fazer
O furor do despotismo,
Nossos feitos de heroísmo
Não devemos esquecer.
Não devemos esquecer
Esse dia, a cuja luz
Os deus dos Americanos
Escreveu — morte aos tiranos —
Nos braços da Santa-Cruz.
Esse dia que provou
Com solene majestade
Ao vil tirano atrevido,
Quanto pode um povo unido,
Quando grita — liberdade —
Com as frontes coroadas
De louros vamos cantar
Hinos aos fortes soldados,
Que valentes, denodados,
Nos souberam libertar.
Todos os ódios se esqueçam,
Demo-nos todos as mãos,
E empenhemos nosso orgulho
Em festejar dous de julho,
Em um banquete d’irmãos!
Nem receeis que algum braço,
Que para nos esmagar
Ocultamente trabalha,
Da nossa mesa a toalha
Venha com sangue manchar.
Não, que tem a liberdade
Seus amores neste dia,
E, temendo as iras dela,
Se atormenta, se arrepela,
Mas não fala a tirania.
Comece pois o festim,
E nas galas sem rival
Entre as ledas comitivas,
Impelido pelos vivas
Rode o carro triunfal.
Saia à noite, que não há de
Cobri-lo da noite o véu;
Brandões hão de iluminá-lo,
De luzes hão de banhá-lo
Os candelabros do céu!
Nele do dia dos livres
Veja o formoso arrebol,
Essa cabocla engraçada
Que tem a face tostada
Dos beijos que deu-lhe o sol!
E quando voltar dirão
Com toda a gente os louvores,
O mar por canhões bradando,
Os ares vivas troando,
A terra brotando flores!
Seja então tudo prazer,
Tudo sonoras canções,
Tudo banquete de bravos,
Tudo remorsos de escravos
Que inda desejam grilhões!
Eia, Baianos, raiar
Vai na terra do Cruzeiro
Esse dia tão jucundo,
Que, apesar de ser segundo,
Há de sempre ser primeiro.
Não deixeis despercebido
O rei dos dias passar,
Mostrai que não sois escravos,
Mostrai que o dia dos bravos
Inda sabeis festejar.