Beijos

By João da Cruz e Sousa

Nesta tebaida infinita

Da vida, na sombra oculto,

Eu gosto de olhar o vulto

De uma criança bonita.

Porque afinal as crianças,

Como eu deslumbro-me ao vê-las,

Cintilam como as estrelas,

Florescem como esperanças.

Dentro de mim se projeta

A luz cambiante dos prismas

E batem asas as cismas

Qual passarada irrequieta.

E batem asas e ruflam,

Pelas artísticas plagas,

As auras que as grandes vagas

Dos fundos mares insuflam.

E digo, ó mães, se uma aurora

Fosse a minh’alma sincera,

Os clarões todos eu dera

A uma criança que chora.

Porque se a luz fortalece

Arbustos e as andorinhas,

Também por certo às criancinhas

Conforta, avigora, aquece.

E eu que aplaudo e que rimo

Tudo isso que a luz se regre,

Na vibração mais alegre

As criancinhas estimo.

Portanto, assim, sem refolhos

Beijando a Olga, beijando

Meus sonhos vão, irradiando,

Se derramar em seus olhos!