Boca imortal

By João da Cruz e Sousa

Abre a boca mordaz num riso convulsivo

Ó fera sensual, luxuriosa fera!

Que essa boca nervosa, em riso de pantera,

Quando ri para mim lembra um capro lascivo.

Teu olhar dá-me febre e dá-me um brusco e vivo

Tremor as carnes, que eu, se ele em mim reverbera,

Fico aceso no horror da paixão que ele gera,

Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.

Mas a boca produz tais sensações de morte,

O teu riso, afinal, é tão profundo e forte

E tem de tanta dor tantas negras raízes;

Rigolboche do tom, ó flor pompadouresca!

Que és, para mim, no mundo, a trágica e dantesca

Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!