BORBOLETA PRESA

By Gustavo de Paula Teixeira

Em frente à escola paro, às vezes, por acaso,

E, lançando um curioso olhar pela janela,

Descubro (pobre flor a fenecer num vaso!)

Um busto de menina excelsamente bela.

Na mão o livro aberto, a fronte baixa, estuda

Exalando um discreto aroma de violeta.

E o dia que não passa! E o quadro que não muda!

Que sombria prisão para uma borboleta!

Como aborrece a escola! É sempre a mesma cousa:

Sempre o mesmo rumor de vozes em surdina,

Na mesma estreita sala a mesma negra lousa

E o horror da preleção que nunca mais termina!

E que festa há por fora! Um pintassilgo canta

E é tal a melodia estranha do seu hino

Que toda de cristal parece a áurea garganta

Que de gotas de luz faz notas de violino!

E a prisioneira sonha... Inveja a livre pomba

Que, abrindo como um leque as asas rendilhadas,

Se perde na amplitude e das distâncias zomba,

Na cristalinidade azul das alvoradas.

Distrai-se a ver o sol que a pino resplandece

E acende nos vitrais gemíferas miragens,

E defronte o jardim virente, que floresce,

Numa palpitação contínua de folhagens.

Não cessa de adejar sua alma de andorinha.

E ela presa! Que tédio horrível desde as onze!

E tão breve o recreio e o tempo não caminha!

Parece que Saturno anda com pés de bronze!...

Depois pega na agulha e borda mais de uma hora

Das suas alvas mãos brotam vermelhas flores.

Nunca nas nuvens d’oiro a rósea mão da aurora

Com seus fios de luz bordou iguais primores!

E que alegria quando a injusta pena é finda!

Das crianças em meio às chusmas pressurosas

Sai de branco, irradiando, a sua imagem linda

Como um lírio de jaspe entre um florir de rosas!