BUSCANDO POR OUTRA PARTE O REMEDIO PARA SEU MAL, SE DESCULPARAM OUTRAS COM O MES...

By Gregório de Matos Guerra

Que febre têm tão tirana

as Moças deste lugar,

que se estão sempre a sangrar

na veia d’arca conana?

A doença é tão insana,

frenética, e aluada,

que a cada lua passada

torna logo o sangue a vir

sem a veia se ferir,

porque está sempre aventada.

Eu nunca pude alcançar,

como elas ficam sangradas,

sem levarem lancetadas,

antes fogem de as levar:

cada mês as vem sangrar

com seus dous cornos a Lua,

e sem lanceta, nem pua

o sangue por si se escorre,

sua, e parece, que corre,

corre, e parece, que sua.

O sangue em bom português

com letras bem rubricadas

depois de muitas penadas

põe na fralda “aqui foi mês”:

chega um galante cortês

ao tempo do Amor então

a fazer adoração

e qual sacristão maior

descobre o painel de Amor

e acha uma degolação.

Isto sem tirar, nem pôr

me sucedeu sempre a mim

no grande Pernamerim,

onde está o templo de Amor:

e entrando no interior

do templo, que eu fabriquei,

um rio de sangue achei,

pus-me então a esperar,

que vaze para o passar,

não vazou, nunca o passei.