Cabelos e olhos

By João da Cruz e Sousa

Na escura treva espessa de uns cabelos,

No loiro sol doirado de umas tranças,

Que de amorosos e profundos elos,

Quanta ilusão e quantas esperanças.

Se a noite ou o claro dia das madeixas

Tivesse voz e com ardor falasse,

Que turbilhão de desoladas queixas

Talvez por muito tempo nos contasse.

E os beijos quentes, os supremos beijos

Cheios do coração dos que se adoram

Cantariam de amor e de desejos

Os sons que nuns cabelos se evaporam.

Repetiram toda a cavatina

Em que os amantes vivem doidamente:

Alma com alma em região divina,

Lábios unidos num fervor calente.

E os olhos que traduzem quase tudo

Do nosso apaixonado sentimento

Que mundo de afeições, gelado e mudo,

Não nos diriam, solto já no vento...

Que originais, que cândidos mistérios,

Que ventura serena e luminosa

Uns olhos secos e doces, límpidos, etéreos

Não cantariam, numa luz saudosa.

Que impenetráveis, tristes aventuras,

Que desesperos trágicos, infindos,

Quantas quimeras ideais e puras

Não nos diriam tantos olhos lindos.

De uns olhos quantos sonhos e quanta crença,

Que pássaros de afagos e carinhos

Não teriam de abrir sua asa imensa

Como de dentro da maciez de ninhos.

Cabelos e olhos! — A alma indefinida

É presa da emoção destes cuidados,

Duns olhos e cabelos, que na vida

Servem de talismã aos desgraçados!