Cálice de amargura

By Delminda Silveira de Sousa

Quanto fel, quantas lágrimas encheram

aquele amargo cálix que esgotaste

na hora da tristura!

Do santo Arcanjo as puras mãos tremeram...

mas Tu, Ó Cristo! — aos lábios teus chegaste

a taça d’amargura!

Oh! quanta dor, meu Deus, então vertestes

no Sacrário puríssimo que abria

teu santo Coração!

A fronte divinal ao chão pendeste

e os acerbos tormentos d’agonia

começaram então!

Oh! Mãe! Ó terra Mãe! — tu’alma pura

mais que a branca cecém, não mais na terra

mimos do Céu terá;

ai! sensitiva d’eternal brancura,

como este seio que amor tanto encerra

tal dor suportará?!

Já do Calvário na espinhosa senda,

da Cruz, d’opróbrio e dores magoado

caminha o filho seu;

Vozeia a multidão blasfema, — horrenda,

e o Sacro-Santo Mártir fatigado

o doce olhar volveu.

Oh! transe doloroso!... A Mãe piedosa,

por entre a fera turba angustiada,

triste divisa, aflita;

na desmaiada face lacrimosa

mostrando a pura alma amargurada

que de amor só palpita!

Braveja a multidão... o Mártir santo

prossegue no caminho d’amargura

de dor dilacerado;

Ai! Triste Mãe! — no teu pudico manto

esconde a face lacrimosa e pura

e chora o filho amado!

Flor redimida, ó terna Madalena,

que no sublime amor regeneraste

teu langue coração,

Vem consolar a mística Açucena

C’o a pura voz que a Jesus rogaste

o amor e o perdão!

Lá chega alfim ao descalvado monte

a vítima inocente aparelhada

aos martírios da cruz;

d’espinhos lacerada a pura fronte,

a alma d’amargores trespassada,

dos olhos frouxa a luz.

Esmoreceu d’horror a luz divina!

Pelo vil pecador foi imolada

a Hóstia do perdão!

E como diva Rosa peregrina

do sacro Sangue de Jesus regada

brotou a Redenção!

Quanto fel, quantas lágrimas encheram

aquele amargo cálix qu’esgotaste

na hora do amargor!

d’assombro Céus e terra estremeceram,

mas tu, ó Cristo! — um mundo resgataste

Com teu Divino Amor.