CANÇÃO

By Delminda Silveira de Sousa

Tenho fio! Ardo em febre!

O amor me acalma e endoida! O amor me eleva e abate

Quem há que os laços que me prendem quebre?

Que singular, que desigual combate!

Não sei que ervada frecha

Mão certeira e falaz me crava com tal jeito

Que, sem que eu a sentisse, e estreita brecha

Abriu; e por onde amor entrou meu peito.

O amor me entrou tão cauto

O incauto coração, que eu nem senti que estava

O recebendo, recebendo o arauto

Desta loucura desvairada e brava.

Entrou, e apenas dentro

Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno.

E hoje — ai! de mim! Que dentro de mim concentro

Mágoas e desgostos num lutar eterno.

O amor subjuga, vede:

Prendeu-me. Em vão me esforço e me debato e grito,

Em vão me agito na apertada rede,

Mais me embaraço quanto mais me agito!

Falta-me o senso, esmo

Como um cego a tatear busco não sei que porto,

E ando tão diferente de mim mesmo,

Que nem sei se estou viva ou se estou morta!

Sei que entre as nuvens paira

Minha fronte e meus pés andam pisando a terra;

Sei que tudo me alegra e me desvaira

E a paz desfruto, desfrutando a guerra.