CANÇÃO DA NOITE SEM AURORA

By Gustavo de Paula Teixeira

A noite é fria, muito fria,

É fria e triste... A voz do vento

É cheia de melancolia.

Gris, lacrimeja o firmamento.

Que noite! É o Horto da Agonia!

De longe vem, fugaz e fino,

O olor de um cravo... O frio corta.

No alto da curva do destino

A lua beija a noite morta...

Na voz do vento dobra um sino...

E enquanto o vento plange fora

E acorda o ninho um calefrio,

Dentro da noite sem aurora

Tu jazes frio, frio, frio...

Meu coração, sangrando, chora!

Em funda paz dorme a cidade,

Fechadas portas e janelas.

Da lua à tênue claridade

Rolam as folhas amarelas...

E eu penso em ti com que saudade!

Branqueja ao longe o cemitério

— Feral jardim de cruzes pretas

Onde não se ouve um riso etéreo,

Onde não brincam borboletas...

Chora o luar... Que céu funéreo!

Não te pranteou de um sino o dobre

No escárnio dessa tarde de ouro,

Nem jaspe ou mármore recobre

O teu esquife de anjo louro.

Só flores, só, tiveste, pobre!

Mas, na urna estreita que te encerra,

Não estás só! Toda a ternura,

Minh’alma, que entre sombras erra,

Vai-te embalar em noite escura,

Vai-te aquecer dentro da terra!

Da sorte o sopro álgido e tredo

Gelou-te as mãos, fechou-te os olhos.

Teu berço, azul como um segredo

De amor, partiu-se em mar de escolhos.

Antes de um ano! Era tão cedo!

E eras tão belo! E eras tão forte!

E já sabias rir, contente,

Abrindo os braços num transporte

Para cingir-me docemente!

E suportaste a dor da morte!

Que graça tinhas! Com que encanto

Gestos fazia a mão querida!

Eu te adorava tanto, tanto!

Eras o enlevo desta vida

Que naufragou num mar de pranto!

Em vez do tépido conforto

De um seio e do calor materno,

Tens hoje, no silêncio do Horto,

As frias lágrimas do inverno!

E Para todo o sempre és morto!

Mas, num altar onde alvorada

Não luz, por ti, que és mudo, exangue,

Sempre há de arder, da dor brotada,

Sempre! uma lágrima de sangue,

Como uma lâmpada sagrada!...