Canção do marítimo
Nas ondas serenas
meu barco flutua,
que o brilho da lua
aclara o parcel;
estrelas brilhantes
as nuvens do espaço
colhendo em regaço
te formam docel.
Qu’eu cante, embalado
da brisa dos mares,
meus fundos pesares,
meus sonhos gentis;
saudade, saudade
do nauta no sonho,
mostrai-lhe risonho,
seu lindo país.
Ah! longe! bem longe,
deixei meus amores!
Bem longe, entre flores,
distante do mar!
Mas, longe, qu’importa?
si o peito extremoso,
do nauta saudoso,
também sabe amar!
Nasci lá nas plagas
gentis, brasileiras,
que brisas fagueiras
meu berço embalaram!
Aos ternos cuidados
de mãe carinhosa,
da infância ditosa
meus dias passaram.
Cresci nas montanhas,
por entre os rochedos;
saltei nos penedos
qual gamo a brincar;
ouvi da tormenta,
à voz retumbante,
o cedro gigante
gemer, e tombar!
Às vezes, se a lua,
surgindo do monte,
na límpida fonte
seu brilho esparzia,
meus louros cabelos
nas águas mirava,
e — um anjo — cuidava,
que ali me sorria!
Oh! água, que a face
risonha estampavas,
porque suspiravas
de um anjo ao sorrir?
Acaso sabias
que o pranto viria
cruel, algum dia,
meu riso banir?...
Ai! longe, bem longe,
deixei meus amores,
bem longe! e entre flores,
distante do mar.
Mas, longe, qu’importa?
si o peito extremoso
do nauta, saudoso
também sabe amar!
Lá dorme, formosa,
o meio das flores,
a terra de amores,
— meu berço gentil!
Aragem que passas,
escuta o meu canto,
recolhe o meu pranto
num beijo sutil.
“No mar argênteo, meu batel resvala,
qual flor qu’embala manso lago azul;
chorem as ondas namoradas queixas,
e gema endechas brando arfar do sul”.
Brisa suave que ao passar na serra,
da minha terra desbrochaste as flores,
lá, sob a copa a palmeira verde
meu lar não viste? meus gentis amores?...
Oh! lua meiga que no Céu divagas,
tu que me afagas carinhosa assim,
lá nessas praias onde a vaga expira,
dize, suspira meu amor por mim?...
Rútila estrela, que, ao morrer das tardes,
tantas saudades me derramas n’alma,
lá, nessas plagas que o luar prateia,
dize, vagueia terna virgem incalma?...
Dorme serena, meiga virgem bela,
que o nauta vela n’amplidão do mar,
e, embora às iras da procela afeito,
seu rude peito também sabe amar!
Ah! dorme, ó virgem! meu batel fagueiro,
por ti, ligeiro sobre o mar desliza;
minh’alma geme no gemer das águas,
fogem-me as mágoas, no fugir da brisa.
Longe, bem longe, meu amor, descansas,
lá, sob as franças da palmeira em flor,
e o pobre nauta, n’amplidão dos mares,
canta pesares de saudoso amor!