Canção do marítimo

By Delminda Silveira de Sousa

Nas ondas serenas

meu barco flutua,

que o brilho da lua

aclara o parcel;

estrelas brilhantes

as nuvens do espaço

colhendo em regaço

te formam docel.

Qu’eu cante, embalado

da brisa dos mares,

meus fundos pesares,

meus sonhos gentis;

saudade, saudade

do nauta no sonho,

mostrai-lhe risonho,

seu lindo país.

Ah! longe! bem longe,

deixei meus amores!

Bem longe, entre flores,

distante do mar!

Mas, longe, qu’importa?

si o peito extremoso,

do nauta saudoso,

também sabe amar!

Nasci lá nas plagas

gentis, brasileiras,

que brisas fagueiras

meu berço embalaram!

Aos ternos cuidados

de mãe carinhosa,

da infância ditosa

meus dias passaram.

Cresci nas montanhas,

por entre os rochedos;

saltei nos penedos

qual gamo a brincar;

ouvi da tormenta,

à voz retumbante,

o cedro gigante

gemer, e tombar!

Às vezes, se a lua,

surgindo do monte,

na límpida fonte

seu brilho esparzia,

meus louros cabelos

nas águas mirava,

e — um anjo — cuidava,

que ali me sorria!

Oh! água, que a face

risonha estampavas,

porque suspiravas

de um anjo ao sorrir?

Acaso sabias

que o pranto viria

cruel, algum dia,

meu riso banir?...

Ai! longe, bem longe,

deixei meus amores,

bem longe! e entre flores,

distante do mar.

Mas, longe, qu’importa?

si o peito extremoso

do nauta, saudoso

também sabe amar!

Lá dorme, formosa,

o meio das flores,

a terra de amores,

— meu berço gentil!

Aragem que passas,

escuta o meu canto,

recolhe o meu pranto

num beijo sutil.

“No mar argênteo, meu batel resvala,

qual flor qu’embala manso lago azul;

chorem as ondas namoradas queixas,

e gema endechas brando arfar do sul”.

Brisa suave que ao passar na serra,

da minha terra desbrochaste as flores,

lá, sob a copa a palmeira verde

meu lar não viste? meus gentis amores?...

Oh! lua meiga que no Céu divagas,

tu que me afagas carinhosa assim,

lá nessas praias onde a vaga expira,

dize, suspira meu amor por mim?...

Rútila estrela, que, ao morrer das tardes,

tantas saudades me derramas n’alma,

lá, nessas plagas que o luar prateia,

dize, vagueia terna virgem incalma?...

Dorme serena, meiga virgem bela,

que o nauta vela n’amplidão do mar,

e, embora às iras da procela afeito,

seu rude peito também sabe amar!

Ah! dorme, ó virgem! meu batel fagueiro,

por ti, ligeiro sobre o mar desliza;

minh’alma geme no gemer das águas,

fogem-me as mágoas, no fugir da brisa.

Longe, bem longe, meu amor, descansas,

lá, sob as franças da palmeira em flor,

e o pobre nauta, n’amplidão dos mares,

canta pesares de saudoso amor!