CANÇÃO

By Tomás Antônio Gonzaga

Dês que vi, formosa Elvira,

Os teus divinos cabelos,

Esses vivos olhos belos,

Que inveja dos astros são,

Foi-se, Elvira, foi-se embora

Toda a paz do coração.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Enquanto, Elvira, se oculta

A meus olhos teu semblante,

Um minuto, um breve instante

Parece que fim não tem.

Se alcanço de ver-te a glória,

Então voa o tempo bem.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando te ris por acaso

Para outro qualquer sujeito,

Estala dentro do peito

De ciúme o coração;

Se me pões os olhos, julgo

Que zombas de mim então.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando há brinco na floresta,

E a divina Olaia canta,

O mesmo gado levanta

A cabeça para ouvir.

Só por mais que Alceu forceje

Não pode o prazer fingir.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando levo à clara fonte

O rebanho do meu gado,

Cai-me da mão o cajado,

E com ela à testa vou:

Fico pasmado, e ignoro

O lugar aonde estou.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando eu vou segar o trigo,

(Olha bem como ando cego!)

Numa parte nele pego,

Meto noutra a fouce em vão;

Dos que veem, alguns se riem,

Outros mostram compaixão.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando me deito no colmo,

Sempre sonho que te vejo,

Que. te falo, e que te beijo

A branca, nevada mão.

Acordo, Pastora, e foges:

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando alguém meu mal pergunta,

Bem que seja a vez primeira,

Rompo, ainda que não queira,

O segredo, sem saber:

O teu nome, Elvira, digo,

Quando devo o seu dizer.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Fujo ao trato dos pastores,

Para um bosque me retiro;

Com desafogo suspiro,

E chamo por ti, meu bem.

Os vales, que se enternecem,

Chamam-te ao longe também.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.

Quando escuto o triste mocho

A gemer no meu telhado,

Qualquer mal excogitado

Não me deve algum temor:

Só receio que me agoure

Mau sucesso ao meu amor.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

E só por motivo seu.

Os pastores que me avistavam,

Com o dedo já me apontavam,

E à roda do fogo contam

Da maneira de que me veem.

Sou o exemplo dos amantes

Que esta nossa Aldeia tem.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceu,

Se suspira,

Se delira,

É só por motivo seu.