CANTATA IV

By Cláudio Manuel da Costa

Na sorte, Lise amada,

Do misero Gigante,

Que triste de meu fado se traslada

O fúnebre semblante!

Ao ver a cópia do Ciclope infausto,

Respiram de meu peito iguais ardores.

Os zelosos furores

Que dentro n’alma sinto,

Como em lâmina triste escrevo, e pinto.

Zeloso ele, e eu zeloso,

Ambos sentimos um igual extremo.

Mais ai! fado aleivoso!

Que infeliz, inda mais que Polifemo,

Me queixo. Ele a ocasiâo de seu ciúme

Sufoca, estraga, desalenta, e mata;

E eu de uma alma ingrata

Sinto o desprezo, e nâo extingo o lume,

Pois sempre desprezado,

Vivo aflito, infeliz, desesperado.

Se em mim, pois, se em Polifemo

Influiu a mesma estrela,

Aqui tens, ô Lise bela,

Uma côpia de meu mal.

Mas ai! Lise! Quanto sinto!

Bem que nesta copia o pinto,

Nada iguala o original!