CANTATA VI

By Cláudio Manuel da Costa

Oh! quanto, Lise! oh! quanto!

Quanto alentam teus olhos

Ao mísero Palemo! Já três dias

O mar anda girando. Em tua ausência,

Saudoso, tem movido as bravas ondas.

Aos peixes tem chegado

O clamor de seus ais. Ah! Se tu viras,

Qual foi o seu lamento,

Não foras mais cruel que o mar, que o vento.

Eu o vi ( não te engano)

Sem acordo entregar o frágil barco

Ao arbítrio das ondas. Poucos passos

De uma rocha fatal já se apartava,

A morrer se apressava,

Quando eu, que no seu rumo ia seguindo,

Palemo? (lhe gritei) olha, Palemo:

Desvia dessa penha a vela, o remo.

Mas fosse providência, acaso fosse,

A outra parte a onda

O seu barco voltou. Já perguntado

Me torna o Pastor caro: Eu entendia

Que a penha, em que Nicandro me falava,

Era Lise somente, que eu buscava

Lise, a rocha desumana,

Lise, o bem, que tanto adora;

Por quem vivo, por quem choro,

Por quem ando a suspirar.

Ah! Se corro a morrer nela,

Venha a bárbara ferida,

Que esta morte só é vida,

Porque é Lise quem a dá.

Mas não é isto engano! O infausto agouro

De todo se apartou. Tornou-se em calma

O mar tempestuoso; o vento irado

Já suave respira; esta ribeira

De alegria se veste; um doce encanto

Nos álamos, nos freixos,

Que estão fazendo sombra as verdes ondas,

Comunica a harmonia

Dos pássaros que cantam. Que gostosa

Meneia as brandas folhas

A aura lisonjeira! Dentre as ramas,

Ah! como fere o raio sobre as águas,

Tornando prateadas

As cristalinas veias! Finge a sombra

Outro bosque nas ondas, e parece

Que outras aves no mar em competência

Formando estão suavíssima cadência.

E que alegre entretanto

Esta praia se vê! Que grande cópia

De redes se derrama! Em cada parte

Se senta um Pescador; bailes, e jogos

Se atendem na ribeira; ao doce aviso

Das vizinhas Aldeias

Vem o povo chegando. É grande o dia;

Grande anúncio é de gosto. Mas que muito,

Se neste feliz dia

De Lise, e de Palemo

Se premeia a virtude! Um terno laço

Ao Pescador amante

A Ninfa delicada

Neste dia assegura. Ah! queira o Fado,

Propício queira o Céu

A chama fecundar deste himeneu.

Forme das almas belas

Amor o seu tesouro;

E com as setas douro

Se veja triunfar.

De pérolas tributo

Lhe renda a fértil onda;

O mar lhe não esconda

A rama do coral.