CANTATA VI
Oh! quanto, Lise! oh! quanto!
Quanto alentam teus olhos
Ao mísero Palemo! Já três dias
O mar anda girando. Em tua ausência,
Saudoso, tem movido as bravas ondas.
Aos peixes tem chegado
O clamor de seus ais. Ah! Se tu viras,
Qual foi o seu lamento,
Não foras mais cruel que o mar, que o vento.
Eu o vi ( não te engano)
Sem acordo entregar o frágil barco
Ao arbítrio das ondas. Poucos passos
De uma rocha fatal já se apartava,
A morrer se apressava,
Quando eu, que no seu rumo ia seguindo,
Palemo? (lhe gritei) olha, Palemo:
Desvia dessa penha a vela, o remo.
Mas fosse providência, acaso fosse,
A outra parte a onda
O seu barco voltou. Já perguntado
Me torna o Pastor caro: Eu entendia
Que a penha, em que Nicandro me falava,
Era Lise somente, que eu buscava
Lise, a rocha desumana,
Lise, o bem, que tanto adora;
Por quem vivo, por quem choro,
Por quem ando a suspirar.
Ah! Se corro a morrer nela,
Venha a bárbara ferida,
Que esta morte só é vida,
Porque é Lise quem a dá.
Mas não é isto engano! O infausto agouro
De todo se apartou. Tornou-se em calma
O mar tempestuoso; o vento irado
Já suave respira; esta ribeira
De alegria se veste; um doce encanto
Nos álamos, nos freixos,
Que estão fazendo sombra as verdes ondas,
Comunica a harmonia
Dos pássaros que cantam. Que gostosa
Meneia as brandas folhas
A aura lisonjeira! Dentre as ramas,
Ah! como fere o raio sobre as águas,
Tornando prateadas
As cristalinas veias! Finge a sombra
Outro bosque nas ondas, e parece
Que outras aves no mar em competência
Formando estão suavíssima cadência.
E que alegre entretanto
Esta praia se vê! Que grande cópia
De redes se derrama! Em cada parte
Se senta um Pescador; bailes, e jogos
Se atendem na ribeira; ao doce aviso
Das vizinhas Aldeias
Vem o povo chegando. É grande o dia;
Grande anúncio é de gosto. Mas que muito,
Se neste feliz dia
De Lise, e de Palemo
Se premeia a virtude! Um terno laço
Ao Pescador amante
A Ninfa delicada
Neste dia assegura. Ah! queira o Fado,
Propício queira o Céu
A chama fecundar deste himeneu.
Forme das almas belas
Amor o seu tesouro;
E com as setas douro
Se veja triunfar.
De pérolas tributo
Lhe renda a fértil onda;
O mar lhe não esconda
A rama do coral.