CANTATA VII

By Cláudio Manuel da Costa

Onde, ó Nise divina,

Onde te encontrarei, bela Pastora!

O monte, o prado, o vale ando girando;

Nise? Nise? Suspiro. A meus clamores

O eco apenas me responde. Tudo

Informa, ó Nise, de que ausente vives;

Que outro campo já pisas,

Outras ovelhas, outro gado reges;

Que desprezas aquela choça amada,

Junto à nossa ribeira fabricada.

Ah! Se é certo que Nise

Nestes campos faltou! Mas que duvido!

Sem cor a planta, a flor amortecida,

O ar escuro, o sol sem luzimento,

Este monte, este rio, aquele prado,

Me diz que Nise (oh! Céus!) lhe tem faltado.

Nise? Nise? Meu bem? Ah! se inda aos longes

Chega o clamor de meus suspiros, sabe

Que vives na minha alma,

Na minha alma que adora

Tão belo encanto, tão gentil Pastora.

Vou pisando esta floresta,

E os teus passos vou seguindo;

Cego Amor vai conduzindo,

Como norte, a minha fé.

Vejo a flor no campo alegre,

Vejo a luz nos Céus tão bela;

Nise, digo, é esta estrela;

Nise, digo, esta flor é.

Mas ai! E que mal chego a conhecer-me

No delírio que ocupa os meus sentidos!

Como, ó Nise, imagino,

De meus olhos ausente,

Que lembrada estarás da fé constante,

Que um tempo me juraste;

Naquele tempo, quando

Em tua companhia

Toda a montanha, ó Nise, a cada instante,

A cada hora enfim, cada momento,

Me via (oh! doce estado!)

Já conduzindo o teu rebanho ao prado,

Mais ditoso que todos os do campo,

Quando o Sol mais ardia,

As águas a beber da fonte fria;

Ou já sendo o calor do Sol mais brando,

Ao curral, onde o tinha então cercado,

Menos dos cães, do que de mim guardado!

Quantos vezes (oh! Céus!) quantas

Digo ao vale, digo ao monte:

Viste a Nise? Aquela fonte

Testemunha pode ser.

Mudo o vale, o monte mudo,

Tudo está suspenso; tudo

Me parece que responde:

Eu não vi Nise, o teu bem.