CANTO DA AGONIA

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Agonia de amar, agonia bendita!

— Misto de infinda mágoa e de crença infinita.

Nos desertos da Vida uma estrela fulgura

E o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:

— “Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como

Chorei, ontem, a sós, num voluptuoso assomo,

Numa prece de amor, numa delícia infinda,

Delícia que ainda gozo, oração, prece que ainda

Entre saudades rezo, e entre sorrisos e entre

Mágoas soluço, até que esta dor se concentre!

No âmago de meu peito e de minha saudade,

Amor, escuridão e eterna claridade...

— Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve,

Frio que me assassina, amor e frio, neve,

Neve que me embala como um berço divino,

Neve de minha dor, neve de meu destino!

E eu aqui a chorar nesta noute tão fria!

Agonia, agonia, agonia, agonia!”

— Diz, e morre-lhe a voz, e cansado e morrendo

O Viajeiro vai, e vê a luz e vendo

Uma sombra que passa, uma nuvem que corre,

Caminha e vai, e, louco, abraça a sombra e... morre!

E a alma se lhe dilui na amplidão infinita...

Agonia de amor, agonia bendita!