CANTO I

By Laurindo José da Silva Rabelo

Das soberbas muralhas, tetos d’ouro,

Dos palácios zombando, sem sussurro

Voa o anjo que volve o mundo ao nada!

Com a destra fatal lançando em terra

Tronos, cetros, diademas e tiaras.

Sopram seus lábios hórridos venenos,

Que as flores murcham da infeliz campina

Que o viu passar. A Nápoles seu vôo

Furioso endereça, as asas bate

Sobre o trono, e de luto cobre o sólio,

Na mísera cidade levantando

Monumento credor de pranto eterno!

E lá jaz para sempre, lá repousa

Uma fronte real que inda há bem pouco,

Gingindo áureo diadema, prometera

Idades d’ouro dos Bourbons ao povo.

Inesperado golpe, caso infausto,

Quantos bens nos roubaste no futuro!...

Oh! quantas esperanças destruíste...

Quanto pranto trouxeste!... triste sorte

Dos míseros humanos!... Ilusores,

Magníficos fantasmas da esperança...

Vida, que és tu?!... Caminho breve sempre

Do leito à sepultura! Flor que murcha

Quando mais odorosa nos parece.

E, além das ilusões, quimeras fúteis

De rápidos prazeres soçobrados

Em oceanos de angústias, que nos deixas?...

O que resta de ti?... Só a virtude!

Sim, que a virtude só zomba da morte.

E de pé sobre a laje do sepulcro

Do vivo para o morto um culto pede!

De lá, ó Isabel!, teu nome Augusto

De apoteoses mil cercado surge...

Ele as funéreas trevas aguardava,

Para brilhar no céu, como rutilam

Nos céus os astros, quando a noite arroja

Seu manto opaco e negro sobre a terra.

Junto às portas do céu arremessaste

A túnica de carne, que trajavas

Da milícia da vida nos combates,

Como junto ao portal do alvergue amigo

Arremessa o guerreiro fatigado

As pesadas, inúteis armaduras,

Para gozar tranquilo e sossegado

Sono de paz em leito abençoado

Por destra paternal. A Glória é tua!

Bem conhece a razão esta verdade;

Mas zomba da razão da mágoa a força;

E, apesar da razão, medra a saudade!...

Quanto mais bela te divisa o mundo,

Mais deseja gozar-te, alma bendita!...

Mais punge a tua ausência o peito ausente

De Teus Filhos, Teus Netos e Teu Povo.

Ah! lança lá do Céu a bênção Tua

Sobre o mundo; consola o mundo aflito...

Faze que o céu nos dê valor, constância,

Para os males sofrer que nos flagelam! —

E, se lá do Empíreo minhas vozes

Gratas te são, acolhe meus suspiros!...

Inspira-me essas frases lamentosas,

Com que de minha dor modero as iras;

Afina a lira débil que votou-te

O Vate Brasileiro aos Régios Manes!