CANTO I
Das soberbas muralhas, tetos d’ouro,
Dos palácios zombando, sem sussurro
Voa o anjo que volve o mundo ao nada!
Com a destra fatal lançando em terra
Tronos, cetros, diademas e tiaras.
Sopram seus lábios hórridos venenos,
Que as flores murcham da infeliz campina
Que o viu passar. A Nápoles seu vôo
Furioso endereça, as asas bate
Sobre o trono, e de luto cobre o sólio,
Na mísera cidade levantando
Monumento credor de pranto eterno!
E lá jaz para sempre, lá repousa
Uma fronte real que inda há bem pouco,
Gingindo áureo diadema, prometera
Idades d’ouro dos Bourbons ao povo.
Inesperado golpe, caso infausto,
Quantos bens nos roubaste no futuro!...
Oh! quantas esperanças destruíste...
Quanto pranto trouxeste!... triste sorte
Dos míseros humanos!... Ilusores,
Magníficos fantasmas da esperança...
Vida, que és tu?!... Caminho breve sempre
Do leito à sepultura! Flor que murcha
Quando mais odorosa nos parece.
E, além das ilusões, quimeras fúteis
De rápidos prazeres soçobrados
Em oceanos de angústias, que nos deixas?...
O que resta de ti?... Só a virtude!
Sim, que a virtude só zomba da morte.
E de pé sobre a laje do sepulcro
Do vivo para o morto um culto pede!
De lá, ó Isabel!, teu nome Augusto
De apoteoses mil cercado surge...
Ele as funéreas trevas aguardava,
Para brilhar no céu, como rutilam
Nos céus os astros, quando a noite arroja
Seu manto opaco e negro sobre a terra.
Junto às portas do céu arremessaste
A túnica de carne, que trajavas
Da milícia da vida nos combates,
Como junto ao portal do alvergue amigo
Arremessa o guerreiro fatigado
As pesadas, inúteis armaduras,
Para gozar tranquilo e sossegado
Sono de paz em leito abençoado
Por destra paternal. A Glória é tua!
Bem conhece a razão esta verdade;
Mas zomba da razão da mágoa a força;
E, apesar da razão, medra a saudade!...
Quanto mais bela te divisa o mundo,
Mais deseja gozar-te, alma bendita!...
Mais punge a tua ausência o peito ausente
De Teus Filhos, Teus Netos e Teu Povo.
Ah! lança lá do Céu a bênção Tua
Sobre o mundo; consola o mundo aflito...
Faze que o céu nos dê valor, constância,
Para os males sofrer que nos flagelam! —
E, se lá do Empíreo minhas vozes
Gratas te são, acolhe meus suspiros!...
Inspira-me essas frases lamentosas,
Com que de minha dor modero as iras;
Afina a lira débil que votou-te
O Vate Brasileiro aos Régios Manes!