CANTO II

By Cláudio Manuel da Costa

Caía a noite, e apenas cintilava

No Céu alguma estrela; ao chão baixava

Escassamente a luz, que Cíntia fria

Mal distinta espalhava entre a sombria

Rama da espessa mata e duros troncos.

Não se ouvem mais que os formidáveis roncos

De aves noturnas, e famintas feras.

Só tu, Garcia amante, consideras

Oportuna a teus ais a estação triste;

Amor, que ardendo no teu peito assiste,

Vai buscar o remédio a seu cuidado;

Ele te guia e leva disfarçado

À choça que às três índias deu abrigo.

Oh! quanto louvas o silêncio amigo,

Quanto o sono dos mais! Chega, repara

Na velha aflita, que a choupana avara

Apenas cobre com a palha agreste;

A leve cana, que as montanhas veste,

Já seca ao sol se acende, e a luz ministra

Com que uma a uma as índias três registra.

Na língua nacional, que não ignora,

Saúda, e neste instante a Mãe de Aurora

Conhece; Aurora, a bela prisioneira

Que houve da mão de Arzão, que co’a primeira

Medalha de ouro ele prendara; cresce

De novo a admiração, e se oferece

A Índia a dar-lhe relação da filha.

Se o ver-me neste estado é maravilha,

Ó Garcia, lhe diz, humilde e nua,

Eu sou Neágua, eu sou a escrava tua.

Muitas luas, me lembro, têm passado,

Desde quando dos vossos atacado

Foi meu esposo Caribó: seguidos

Vínheis de muitos arcos, socorridos

Do Coroa, do Paraci valente:

Assaltastes de noite a nossa gente,

E mortos os mais destros na peleja,

Fosse rigor do Céu, ou fosse inveja

Da Fortuna, eu, que a Aldeia governava,

Passei com minha filha a ser escrava.

Era ela em seus anos tão mimosa,

Que à vista sua desmaiava a rosa,

Seus olhos claros, as pupilas belas,

Oh! quantas vezes cri que eram estrelas!

Não tinham nossos campos, nem o prado

Planta mais tenra, flor de mais agrado;

Enfim, porque de vós as cores tome,

De Aurora os vossos lhe dão hoje o nome.

Vagando estes sertões na companhia

Dos vossos, eu me lembro como um dia,

A preço do metal, que desprezamos,

Vós nos comprastes; ainda nos lembramos

Do mimo do agasalho que fizestes,

Quando na vossa casa recolhestes

A mim e a minha Aurora: esta memória

Desperte toda em vós a antiga história,

Como? Por que arte? Por que modo fora

Trazida dentre os seus? A sua Aurora,

Se a seguira também? Se vive? E aonde?

Garcia lhe pergunta; ela responde:

Vive, senhor, eu creio que inda vive

A minha e vossa Aurora: dela tive

Notícia há pouco tempo; um desses bravos,

Que o nosso bom Pori tem feito escravos,

Me contou como lá na sua Aldeia,

Que não longe é de nós, ela passeia,

Do Cacique estimada; ele contente

A busca esposa, e ela o não consente.

Mas por que quereis vós da minha boca

Ouvir todo o sucesso? Só me toca

Referir uma parte, que outra ignoro.

Lá na domada Aldeia, onde sonoro

Se vê correr o Paraíba, postas

Fomos por vosso mando: ali dispostas

A viver de outras leis, outros costumes

Detestávamos já dos nossos Numes

(Se alguns Deuses talvez nós conhecemos

Na bruta liberdade em que vivemos),

O culto, a religião; já divertidas

No curvo anzol, nas redes bem tecidas

Armávamos ao peixe; sobre o rio

Nos viu um dia o bárbaro Gentio,

Que em pequenas canoas rouba e mata;

Fugíramos talvez, mas o pirata

Nos surprende e conduz: vimos cativas

A viver entre os seus, e apenas vivas

De povo em povo nos transportam; fico

Co’a nação do Pori, e passa o rico

Tesouro de uma filha, que inda choro,

Ao crespo Monaxós; qual fosse, ignoro,

O triste resto do fatal destino.

Dos braços ma arrancaram: de ouro fino,

Ao despedir-se terna a Filha amada,

Com esta jóia então me quer prendada.

Se pois de Aurora o caso vos incita

À compaixão, se em vosso peito habita

O antigo amor, fazei que a liberdade

Se dê a quem desperta esta saudade;

Esse vizinho povo ao fogo, ao ferro

Abatei, destruí: pague o seu erro;

E alegre eu veja em vossa companhia

A vossa Aurora, que ao meu lado via.

Absorto está Garcia; do que escuta,

Apenas deixa ver a face enxuta;

De Aurora o caso o tem sobressaltado,

Quer para logo dar a seu cuidado

O desafogo da cruel vingança;

Mas bem que o lisonjeie inda a esperança

De ver a bela Indiana, a incerta sorte

Lha pinta, antes que viva, entregue à morte.

Baixel, que sobre o Egeu de mil procelas

Combatido se viu, rotas as velas,

Não soçobra talvez mais duvidoso

Ao grave Noto, ao Euro tormentoso.

Farei... clamava; e eis que interrompido

Foi de um aviso, com que o Herói erguido

Chama a Conselho os companheiros todos.

Se combatidos por diversos modos,

Diz Albuquerque, de trabalhos tantos,

Entre estas penhas só despertam prantos

As memórias da morte de Rodrigo,

Deixemos este assento; o sonho antigo

Tenho de descobrir-vos, com que a idéia

Igualmente me aflige e me recreia.

Lembrados estareis que há mais de um ano

Vos fiz saber que o nosso Soberano,

Que dos quatro Joões o nome e glória

Herdou para triunfo da memória,

Vendo ao Norte da terra povoada,

Que atrás deixamos na primeira entrada,

Que fazem vossos Pais, achar-se o ouro

À custa me ordenou do seu Tesouro,

Que entrasse ao centro dos Sertões, buscasse

As novas minas, e que examinasse

As margens, onde em vão tomaram porto

Fernando, Artur e Dom Rodrigo, o morto.

Cheio deste projeto eu vejo um dia

Que um rochedo fatal, a quem a fria

Neve branqueja a descalvada testa,

Com medonha carranca me protesta

Não passe a descobrir o seu segredo;

Avizinho-me a ele e rompo o medo:

Quem és, pergunto, que ignorado encanto

Se esconde em ti? Ele me torna entanto:

“Eu sou dos filhos que abortara a Terra,

E fiz com meus Irmãos aos Deuses guerra

(Tu, negro Adamastor, hoje em memória

Me obrigas a trazer a tua história).

Meu caso um dia o Fado te destina

Que escutes inda pela voz de Eulina,

No centro vivo dos Sertões, que apenas

Tocam das aves as ligeiras penas;

De feios monstros grande cópia habita

Meu triste seio; ali se deposita

Tudo quanto de grande, novo e raro

O Cetro Lusitano fará claro.

Ali... mas tudo aos olhos patenteio.”

Disse, e deixando ver o escuro seio,

De uma pequena lágrima, que a penha

Derrama das entranhas, se despenha

Gota a gota um ribeiro; logo a raia

De ambas margens excede e já se espraia,

Separado do berço na campina.

Um murmúrio sonoro só de Eulina

Repete o nome; a maravilha estranha

Inda mais se adianta; ao longe apanha

Uma Ninfa na areia as porções de ouro,

Com que esmalta o cabelo e o torna louro.

A margem deste rio povoada

Vejo da portuguesa gente amada,

Toda entregue à solícita porfia,

Com que o rico metal da terra fria

Vai buscar a ambição: vejo de um lado

Erguer-se uma Cidade, e situado

Junto ao monte, que um vale aos pés estende,

Vejo um Povo também: tudo surprende,

Tudo encanta a minha alma, estou detido

No fantástico objeto. Eis que um gemido

Arranca desde o seio o monstro escuro,

E diz: “Entre as imagens do futuro

Talvez te espera... mas...” e nisto em nada

Se torna toda a máquina ideada;

Desfez-se a Penha, a Ninfa e o Ribeiro,

Solto dos olhos o sopor grosseiro.

Não de outra sorte no último horizonte

Ao sepultar-se o Sol, lá desde um monte

Podem ver-se as imagens diferentes

Às refrações da luz: estão presentes

Bosques, cidades, ruas e castelos,

Que os raios em distintos paralelos

Talvez figuram; despertando a Aurora,

Desaparece a sombra enganadora.

O sonho muitas vezes repetido,

Desde que tenho a idéia concebido

De entrar para estas Minas, me figura

Um mistério na sombra e na pintura.

Vós, que por tantas vezes discorrido

Tendes estes Sertões, tereis ouvido,

O nome de Itamonte; esta lembrança,

Este sinal só tenho de esperança;

Talvez tomando o cume desta Serra,

Acharemos um dia o Rio, a Terra,

A Ninfa e os mais portentos, donde tome,

Dos tesouros que espero, a Vila, o nome.

Calou-se o General, e qual murmura

Uma abelha, e mais outra, quando a pura

Substância chupam das mimosas flores,

Assim, não de outra sorte, entre os rumores

Do inquieto coração, estão falando

Entre si cada um, e estão pensando;

Rompe o silêncio o próvido Faria:

Eu dos primeiros fui, eu fui, dizia,

Dos primeiros que o berço abandonado

Deixei, mais do fervor estimulado

De reduzir os Índios à justiça

Da nossa religião, que da cobiça.

Entrei estes países e inda noto

Em cada tronco os pousos onde, roto

O vestido, tentei passando avante

O giro dos Sertões; de bem distante

Parte dos grossos matos descobria

Uma elevada e tosca penedia,

A quem coroa um pico a altiva frente.

Demandei esta rocha, e do eminente

De toda ela um ribeiro vi que nasce,

Que do Sol recolhendo dentro a face

Pareceu converter-se todo em ouro.

Não vou buscar no meu invento o agouro,

Nem creio que este o Itamonte seja,

Mas sei que a língua pátria, se deseja

Explicar sempre em tudo a natureza,

De Itá nome lhe deu, e na rudeza

Do Gentio talvez, que hoje alterado,

O nome Curumim lhe seja dado.

Itá é nome pátrio (diz Garcia,

Que apenas sua dor n’alma alivia),

Este o Gentio a toda a pedra estende;

O esperado Itamonte em vão se entende

Na confusão das Serras e dos montes,

Que assombram todos estes horizontes.

Eu também discorrera de outra Serra

O mesmo que Faria, aonde a guerra

De feroz Botecudo inda me assusta,

Mas pouco à conjectura se me ajusta

Toda a confrontação (disse Camargo).

É deste continente o Sertão largo

(Dizia Bueno), o Lago, a Serra, o Rio,

Espalhado por tudo o infiel Gentio,

Não deixam à notícia cousa certa,

Onde possa entender-se descoberta

A terra que buscamos. Nela intento

(Albuquerque tornava) o fundamento

Erguer da Capital; de penha empenha

Andarei, se a Fortuna o não desdenha,

Té descobrir o Monte e o Rio, aonde

Tão grande maravilha o Céu me esconde.

Prosseguira o Herói, mas o embaraça

Descobrir desde longe a vista escassa

Brioso Cavaleiro, que seguido

Vem de um forte esquadrão do índio vencido;

Soa alegre o clarim, que a marcha guia,

A salva amiudada ao ar se envia;

E enquanto de Garcia o Herói se informa

Do novo Aventureiro, posta em forma

Cada uma das nações, que traz consigo,

Um e outro se encontra ao doce amigo,

Prontos os servos a estribeira pegam,

E ele se apeia e abraça aos que se chegam.