CANTO II

By José Pedro Xavier Pinheiro

Fora-se o dia; e o ar, se enevoando,

Aos animais, que vivem sobre a terra,

As fadigas tolhia; eu só, velando,

Me aparelhava a sustentar a guerra

Da jornada, assim como da piedade,

Que vai pintar memória, que não erra.

Ó Musas! Ó do gênio potestade!

Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste

Quanto vi, mostra a egrégia qualidade.

“Poeta”, — assim falei, — “que começaste

A guiar-me, vê bem se em mim persiste

Calor que, à empresa que me fias, baste.

“Que o pai do Sílvio fora, referiste,

Corrutível ainda, até o inferno

Sem perder o que em corpo humano existe.

“Se do mal assim quis o imigo eterno,

Origem vendo nele do alto efeito,

O que e o qual, segundo o que discerno,

“Pela razão bem pode ser aceito;

Que para Roma e o império se fundarem

Fora no céu por genitor eleito;

“À qual e ao qual cabia aparelharem,

Dizendo-se a verdade, o lugar santo

Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.

“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto,

Cousas ouviu, de que surgiu motivo

Ao seu triunfo e ao pontifício manto.

“Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo:

Conforto ia buscar, à fé, que à estrada

Da salvação princípio é decisivo.

“Por que irei? Quem permite esta jornada?

Eneas, Paulo sou? Essa ventura

Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.

“Receio, pois seja ato de loucura,

Se eu me resigno a cometer a empresa.

Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.

Como quem ora quer, ora despreza,

Sua alma a idéias novas tem disposta,

Mostrando aos seus desígnios estranheza,

Assim fiz eu na tenebrosa encosta,

Porque, pensando, abandonava o intento,

Formado à pressa, que ora me desgosta.

“Do teu dizer se atinjo o entendimento”

— Do magnânimo a sombra me tornava, —

“Eivado estás de ignóbil sentimento,

“Que do homem muita vez faz alma ignava,

Das honrosas ações o desviando,

Qual sombra, que o corcel ao medo trava.

“Desse temor livrar-te desejando,

Por que vim te direi e quanto ouvido

Hei logo ao ver-te mísero lutando.

“No Limbo era suspenso: eis requerido

Por Dama fui tão bela, tão donosa,

Que as ordens suas presto lhe hei pedido.

“Brilhavam mais que a estrela radiosa

Os seus olhos; suave assim dizia

De anjo com voz, falando-me piedosa:

— “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia

No mundo gozas fama tão sonora,

Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,

“Amigo meu, que a sorte desadora,

Pela deserta falda indo, impedido

De medo, atrás os passos volta agora.

“Temo que esteja tanto já perdido,

Que tarde eu tenha vindo a socorrê-lo,

Pelo que lá no céu dele hei sabido.

“Parte, pois, e com teu discurso belo

E quanto o salvar possa do perigo

Lhe acode; e me console o teu desvelo.

“Sou Beatriz, que envia-te ao que digo,

De lugar venho a que voltar desejo:

Amor conduz-me e faz-me instar contigo.

“Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo

Repetirei louvor, que hás merecido”. —

“Tornei-lhe, quando já calar-se a vejo:

— “Senhora da virtude, a quem tem sido

Dado só que proceda a espécie humana

Quanto é no mundo sublunar contido,

“Tanto praz-me a ordem que de ti dimana,

Que, já cumprida, houvera inda demora:

Em me abrir teu querer não mais te afana.

“Diz-me, porém, por que razão, Senhora,

Baixar a este centro hás resolvido

Do céu, a que ardes por voltar agora”.

— “Se queres tanto ser esclarecido

Eu te direi” — tornou-me — “frase breve

Por que sem medo às trevas hei descido.

“Somente as cousas recear se deve

Que a outrem podem ser causa de dano

Não das mais: a temor a causa é leve.

“De Deus favor criou-me soberano

Tal, que a vossa miséria não me empece

Nem deste incêndio assalta o fogo insano.

“Nobre Dama há no céu, que compadece

O mal, a que te envio; e tanto implora,

Que lá decreto austero se enternece.

— “Volvendo-se a Luzia, assim a exora:

“O teu servo fiel tanto periga,

Que ao teu amparo o recomendo agora”. —

“Luzia, sempre do que é mau imiga

Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada

Ao lado estava de Raquel antiga.

“De Deus vero louvor!” — diz-me apressada —

“Por que não socorrer quem te amou tanto,

Que só por ti deixou do vulgo a estrada?

“Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto?

Não vês que junto ao rio é combatido,

Que ao mar não corre, por mortal espanto?” —

“Os danos, tão veloz, não tem fugido

Ninguém, nem procurado o que deseja,

Como eu, em tendo vozes tais ouvido;

“O trono meu deixei, por que te veja,

Fiada em teus discursos eloquentes,

Honra tua e de quem te ouvindo esteja”. —

“Assim falava e os olhos seus fulgentes

Com lágrimas a mim ela volvia,

Para apressar-me a vir assaz potentes.

“A ti vim, pois, como ela requeria;

Da fera te livrei, que da colina

Tão perto já, teus passos impedia.

“Que fazes, pois? Por que, por que domina

Tanta fraqueza o peito espavorido?

Por que ao valor tua alma não se inclina,

“Quando és pelas três santas protegido,

Que na corte do céu por ti se esmeram,

E gozar tanto bem lhe é prometido?” —

Quais flores, que, fechadas, se abateram

Da noite ao frio, e, quando o sol aquece,

Erguem-se abertas na hástea, tais como eram,

Tal meu valor renova e fortalece.

Tanto ardimento o coração me aviva,

Que exclamei, como quem jamais temesse:

“Ó Dama em socorrer-me compassiva!

E tu, que a voz lhe ouvindo, obedeceste,

Cortês ao rogo e com vontade ativa,

“Por teu dizer no peito me acendeste

Desejo tal de vir, que sou tornado

Ao propósito, a que antes me trouxeste.

“Vai, pois nosso querer ’stá combinado.

Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!”

Disse-lhe assim. Moveu-se ele; ao seu lado

Pelo caminho entrei alto e silvestre.