CANTO IV

By José Pedro Xavier Pinheiro

Desse profundo sono fui tirado

Por hórrido estampido, estremecendo

Como quem é por força despertado.

Ergui-me, e, os olhos quietos já volvendo,

Perscruto por saber onde me achava,

E a tudo no lugar sinistro atendo.

A verdade é que então na borda estava

Do vale desse abismo doloroso,

Donde brado de infindos ais troava.

Tão escuro, profundo e nebuloso

Era, que a vista lhe inquirindo o fundo,

Não distinguia no antro temeroso.

“Eia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!” —

O Poeta então disse-me enfiando —

“Eu descerei primeiro, tu segundo”. —

Tornei-lhe, a palidez sua notando:

“Como hei-de ir, se és de espanto dominado,

Quando conforto estou de ti sperando?” —

“Dos que lá são o angustioso estado

Causa a que vês no rosto meu impressa,

Piedade, medo não, como hás cuidado.

“Vamos: longa a jornada exige pressa”.

Entrou, e eu logo, o círculo primeiro

Em que o abismo a estreitar-se já começa,

Escutei: não mais pranto lastimeiro

Ouvi; suspiros só, que murmuravam,

Vibrando do ar eterno o espaço inteiro.

Pesares sem martírio os motivavam

De varões e de infantes, de mulheres

Nas multidões, que ali se apinhoavam.

“Conhecer” — meu bom Mestre diz — “não queres

Quais são os que assim vês ora sofrendo?

Antes de avante andar convém saberes

“Que não pecaram: boas obras tendo

Acham-se aqui; faltou-lhes o batismo,

Portal da fé, em que és ditoso crendo.

“Na vida antecedendo o Cristianismo,

Devido culto a Deus nunca prestaram:

Também sou dos que penam neste abismo.

“Por tal defeito — os mais nos não mancharam —

Perdemo-nos: a pena é desesp’rança,

Desejos, que p’ra sempre se frustraram”.

Ouvi-lo, em dor o coração me lança,

Pois muitos conheci de alta valia,

A quem do Limbo a suspenção alcança.

“Ó Mestre! Ó meu Senhor! diz-me — inquiria,

Para ter da certeza o firme esteio

À fé, que os erros todos desafia,

“Por seu merecimento ou pelo alheio

Daqui alguém ao céu já tem subido?”

Da mente minha ao alvo o Mestre veio,

E falou-me: “Des’pouco aqui trazido,

Descer súbito vi forte guerreiro;

De triunfal coroa era cingido.

“Almas levou — do nosso pai primeiro,

Abel, Noé, Moisés, que legislara,

Abraam, na fé, na obediência inteiro,

“Davi, que sobre o povo hebreu reinara,

Israel com seu pai e a prole basta,

E Raquel, por quem tanto se afanara.

“Para a glória outros muitos mais afasta

Do Limbo; e sabe tu que antes não fora

Salvo quem pertencera à humana casta”.

Andávamos, enquanto isto memora,

Sem parar, pela selva penetrando,

Selva de almas, que aumenta de hora em hora,

E da entrada não longe ainda estando,

Eis um clarão brilhante divisamos

Das trevas o hemisfério alumiando.

Dali distantes ainda nos achamos

Não tanto, que eu não discernisse em parte

Que à sede de almas nobres caminhamos.

“Ó tu, que és honra da ciência e da arte,

Quem são” — disse — “os que, aos outros preferidos,

Privilégio tamanho assim disparte?”

Falou Virgílio: “— Assim são distinguidos

Do céu, que atende à fama alta e preclara,

Com que foram na terra engrandecidos”.

Eis voz escuto sonorosa e clara:

“Honrai todos o altíssimo poeta!

A sombra sua torna, que ausentara”.

Quatro sombras notei, quando aquieta

O rumor, que a nós vinham: nos semblantes

Nem prazer, nem tristeza se interpreta.

E disse o Mestre, após alguns instantes:

“Aquele vê, que, qual monarca ufano,

Empunha espada e os três deixa distantes.

É Homero, o poeta soberano;

O satírico Horácio é o outro, e ao lado

Ovídio, em lugar último Lucano.

Como lhes cabe o nome assinalado

Que soou nessa voz há pouco ouvida,

Me honrando, honrosa ação têm praticado”.

A bela escola assim vi reunida

Do Mestre egrégio do sublime canto,

Águia em seu vôo além dos mais erguida.

Discursado entre si tendo algum tanto,

A mim volveram gracioso o gesto:

Sorriu Virgílio, dessa mostra ao encanto.

Mais foi-me alto conceito manifesto,

Quando acolher-me ao grêmio seu quiseram,

Entre eles me cabendo o lugar sexto.

Té o clarão comigo se moveram,

Prática havendo, que omitir é belo,

Sublime no lugar, onde a teceram.

Chegamos junto a um fúlgido castelo

Sete vezes de muro alto cercado:

Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.

Passei-o a pé enxuto; acompanhado

Entrei por sete portas, caminhando

De fresca relva até ameno prado.

Graves, pausados olhos meneando

Stavam sombras de aspecto majestoso,

Com voz suave rara vez falando.

A um lado, sobre viso luminoso

Subimo-nos: de lá se divisava

Dessas almas o bando numeroso.

No verde esmalte o Mestre me indicava

Egrégias sombras: inda me extasia

O prazer com que vê-los exultava.

Eletra vi de heróis na companhia,

Eneas com Heitor e guarnecido

Grifanhos olhos César nos volvia.

Pentesiléia vi e o rosto ardido

De Camila, e sentado o rei Latino

Junto a Lavínia estava enternecido.

Notei Márcia, Lucrécia e o que Tarquino

Lançou, Cornélia e Júlia; retirado

De todos demorava Saladino.

Alçando os olhos, de respeito entrado,

O Mestre vejo dos que mais se acimam

Em saber, de filósofos cercado.

Todos com honra e acatamento o estimam.

Aqui Platão e Sócrates estavam,

Que na grandeza mais se lhe aproximam.

Demócrito, o atomista, acompanhavam

Tales, Zeno, Heráclito e Anaxagora.

Empédocle e Diógenes falavam,

Dióscoris, o que a natura outrora

Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloquente,

Sêneca, o douto, que a moral explora,

Lívio, Euclides, Hipócrates ingente,

Ptolomeu, Galeno e o Avicena;

Averróis, nos comentos sapiente.

Resenha não me é dado fazer plena

De todos; longo o assunto está-me urgindo,

E a ser omisso muita vez condena.

A companhia então se dividindo,

Comigo o Mestre outra vereda trilha,

Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:

Chegados somos onde luz não brilha.