CANTO IV
De novo minhas lágrimas queridas
Dos meus olhos correi em liberdade!...
Vinde aplacar as dores das feridas,
Que da morte alegrando a impiedade,
Me quis fazer no íntimo do peito
O farpão penetrante da saudade.
Convosco, só convosco me deleito,
Porque sois as sensíveis companheiras
Do mortal que não vive satisfeito...
De meus olhos correi, correi ligeiras!...
Molhai da minha lira as cordas tristes,
De minha dor cansadas pregoeiras!
E vós, ó Natureza! que me ouvistes,
Erguer o sonoroso alegre canto,
Quando de alegres cantos me incumbistes;
Se agora do pesar me cobre o manto,
Guardai no vosso seio piedoso
As gotas cristalinas do meu pranto!...
Ímpio, cruel decreto, rigoroso
Nos vassalos e reis, fatal, ferino,
Roubou-nos um presente precioso...
Que ao mundo ofertara o Ser Divino.
Feliz! feliz mil vezes quem pudesse
Arrancá-lo do livro do Destino!!!
Por ele dentre nós desaparece
Um ser, dos Querubins cópia fiel,
Que rival em virtude desconhece.
Por ele, na saudade mais cruel
Nos deixou, e caiu na sepultura,
No reino dos finados... Isabel...
Oh! lei inexorável! sorte dura!...
Extinguiu-se tão cedo desta sorte
Das mãos do Criador obra tão pura!
Quem pode compreender o poder forte
Com que, do céu zombando impunemente,
Tudo quanto Deus cria extingue a morte?!!...
A natureza inteira o golpe sente
Do seu terrível braço; tudo chora
Debaixo de seu gládio impaciente.
Do universo ríspida senhora,
O mundo, como fera insaciável,
Pela boca dos túmulos devora!...
Oh! vida triste... vida miserável!
Julgada pelo Céu enfurecido
Como crime de morte imperdoável!...
Mas a luz da razão tenho perdido...
Oh! Céu! até que ponto me arrebata
De meu pesar o impulso desmedido?!...
Suspende, criatura! a voz recata!...
Que do Céu os desígnios soberanos
Soberba e loucamente desacata!
Oh Isabel! que longe dos humanos
Contas na mais completa f’licidade
Anos por dias, séculos por anos!...
Perdoa se ofendi a majestade
De Teu Deus, maldizendo Seus decretos,
Perdoa meus queixumes indiscretos,
Tudo foi um delírio de saudade!