CANTO IX

By José Pedro Xavier Pinheiro

Do medo a cor, que o gesto me alterara,

Ao ver tornar Virgílio em retirada,

Serenou turvação, que o seu mudara.

Como escutando, espreita; que a cerrada

Névoa os ares em torno enegrecia,

E a vista, incerta, achava-se atalhada.

— “Mas é mister vencer nesta porfia...” —

Lhe ouvi — “se não... socorro é prometido...

Oh! quanto a vinda sua é já tardia!” —

Bem vi que das palavras o sentido,

Que a declarar apenas começava,

Fora por outros logo confundido.

Porém maior receio me assaltava,

Na reticência auspício triste vendo,

Que na expressão talvez não se encerrava.

— “A esta hórrida estância, descendendo

Do limbo, pode vir quem só padece,

A esperança”, — inquiri — “toda perdendo?”

O Mestre respondeu: — “Raro aparece

Ensejo, que um de nós a andar obriga

Pelo caminho, que aos abismos desce.

“Ali, porém, já fui, quando inimiga

Esconjurou-me Ericto, que os esp’ritos

Constrangia a fazer c’os corpos liga.

“Des’pouco eu me finara: por seus ritos

Ao círculo de Judas fui trazido

Para a sombra tirar de um dos precitos.

“É o lugar mais fundo e denegrido,

Mais remoto do céu, que os orbes gira.

Sei o caminho: esforça-te, ó querido!

“Este paul, que o bruto cheiro expira,

A cidade circunda do tormento,

Onde entrar não podemos já sem ira”.

Deslembro o que mais disse: o pensamento

Da torre altiva ao cimo chamejante,

Que os olhos me prendia, estava atento.

Lá o aspecto se erguia horripilante

De fúrias três; de sangue eram tingidas,

Feminis no meneio e no semblante.

De hidras verdes mostravam-se cingidas,

Cerastes, serpes cada uma tinha

Por coma, em torno à fronte entretecidas.

Virgílio, que conhece da rainha

Do eterno pranto essas ancilas cruas,

— “Nas Érinis atenta” diz-me asinha.

“Megera à esquerda está das outras duas,

Chora à direita Aleto e fica ao meio

Tisífone”. — E pôs termo às vozes suas.

Co’as unhas cada qual rasgava o seio,

Com seus punhos batiam-se, em tal brado,

Que ao Vate me acerquei, de pavor cheio.

Olhando-me dizia: — “Transformado

Em pedra seja por Medusa; o assalto

Do ímpio Teseu não foi assaz vingado.

— “Volta a face; de luz o rosto falto

Conserva; que, se a Górgona encarar-te,

Tu não mais tornarás da terra ao alto”. —

Disse o Mestre, e volveu-me à oposta parte;

E as mãos juntando às minhas que não bastam,

Os olhos amparar-me quis dessa arte.

Ó vós cujas idéias não se afastam

Das leis da sã razão, vede os preceitos

Que destes versos sobre o véu se engastam.

Eis sobre as águas túrbidas desfeitos

Troam sons de fracasso temeroso;

Tremendo, as margens sentem-lhe os efeitos.

O tufão assim freme impetuoso,

Que, de ardores contrários se excitando,

Sem pausa fere a selva, e furioso,

Quebrando ramas, flores arrancando,

Entre nuvens de pó soberbo assalta

Feras, pastores e lanoso bando.

Os olhos descobriu-me e disse: “Exalta

A vista agora até a espuma antiga,

Onde mais acre a cerração ressalta”.

Quais rãs, que divisando a cobra imiga,

Todas da água no seio desparecem,

E cada qual no lodo entra e se abriga,

Tais milhares de espíritos parecem,

Em derrota fugindo ante a figura

Que passa; nágua os pés não se umedecem.

Movendo a esquerda mão, a névoa escura,

Que lhe era em torno ao vulto, dissipava:

Só este afã lhe altera a face pura.

Ser ele conheci que o céu mandava;

A Virgílio voltei-me, e mudo e quieto

Ao aceno, que fez, eu me acurvava.

Quantos lumes reflete o iroso aspecto!

À porta chega: ao toque de uma vara

Abre-se a entrada do alcáçar infecto.

— “Ó turba vil, que o céu de si lançara!” —

Ao limiar falou da atroz cidade,

— “Donde vos vem da audácia a insânia rara?

“Por que recalcitrais à alta vontade,

Que sempre cumpre o seu excelso intento,

E à dor já vos cresceu a intensidade?

“Cuidais pôr ao destino impedimento?

Cérbero, o vosso, na memória tende:

Trilhados inda estão-lhe o colo e o mento”.

Então pelo caminho imundo estende,

Sem nos falar, os passos semelhante

A quem outros cuidados a alma prende,

Daqueles, que há presentes, bem distante.

Nós à cidade afoutos caminhamos:

Deu-nos esforço o seu falar pujante.

Já, removido todo o pejo, entramos.

Eu, que sentia de saber desejo

Quanto o forte contém que franqueamos.

Como fui dentro, a tudo pronto, vejo

Campanha em toda parte ilimitada,

Mas não espaço às punições sobejo.

Como em Arle, onde o Rône faz parada

Ou junto a Pola, de Quernaro perto,

De que à Itália a fronteira está banhada,

Stá de sepulcros desigual e incerto

O solo: outros assim a estância feia,

Mas de modo mais agro, tem coberto.

Entre eles chama horrífica serpeia

E os abrasa inda mais que frágua ardente

Que arte para amolgar o ferro ateia.

Alçada a tampa, é cada qual patente.

Dali surgia um lamentar profundo,

De miséreo gemido permanente.

— “Ó Mestre meu, quais foram lá no mundo” —

Eu disse — “aqueles, que no duro encerro

Denunciam tormento sem segundo?” —

“Aqui stão os hereges por seu erro,

Com seus sequazes dos diversos cultos:

São mais do que tu crês em cada enterro.

“Iguais com seus iguais estão sepultos,

Uns túmulos mais que outros são candentes”.

À destra então voltou: com tristes vultos

Passamos entre o muro e os padecentes.