CANTO IX

By José de Santa Rita Durão

Depois que o tempo torna bonançoso

E a noite vem tranquila em branda calma,

De ouvir o mais do sonho portentoso

Se acende a todos o desejo n’alma;

E no empenho do belga belicoso,

Desejando escutar quem teve a palma,

Suplicam Catarina que prossiga

Na narração do sonho e tudo diga.

“Vi (prossegue a matrona) em Marte duro

Confundir-se o Brasil, vagar potente

O bátavo feroz, e o reino escuro

Encher Plutão da desditosa gente.

Vi descendo as milícias do céu puro

A plebe inerme com o zelo ardente

Infundir valor tal, que conte a história

Por milagre do céu cada vitória

Petrid e Íolo, raios da marinha,

Com esquadra do pélago senhoras,

Qualquer do lado seu queimado tinha

Com chamas o Brasil desoladoras;

Petrid a frota que das Índias vinha

Com procelas de fogo abrasadoras,

E nas naus lavra, de tesouros cheias,

Ao infausto Brasil novas cadeias.

Máquina move o belga ambiciosas,

Suprindo os gastos com a imensa prata;

E, armando em guerra esquadras numerosas,

Ocupar Pernambuco ao luso trata:

Nem As forças da Holanda poderosas

Opõe o hispano, com a nova ingrata,

Tal socorro que a praça na contenda

Do grão-poder dos bátavos defenda.

Rege de Pernambuco a terra extensa

O intrépido Albuquerque, a tudo atento.

Guarnece a praça, os esquadrões condensa,

Dispõe ao fogo o bélico instrumento,

Quando à maneira de floresta densa

Se viu coberto o líquido elemento,

Onde proas setenta o mar rompiam,

E o Wandemburgo general seguiam.

Chamam Pau amarelo um sítio ao lado

Da cidade que a frota acometia.

Cômodo ao desembarque e mal guardado

De Albuquerque, que as praias defendia:

Ali, com quatro legiões formado,

A bela Olinda o bátavo se envia

Onde com turmas de inexperta gente

E opôs o luso chefe ao belga ardente.

Nem muito dura ao fogo desusado

O tímido esquadrão da gente lusa,

Que, do insólito horror preocupado,

A fuga empreende em multidão confusa:

Um sobre outro, ao fugir precipitado,

Render-se ao fero belga não recusa;

E, a cidade infeliz deixando aberta

Qualquer se salva donde mais o acerta.

Entra o holandês na praça abandonada,

E quando de riqueza a cuidou cheia,

Em triste solidão desamparada,

E acha sem prêmio a cobiçosa idéia

Vingam nos templos a intenção malvada,

E o altar profanam com infâmia feia,

Tratando o pio rito e o santo culto

Com sacrílega mente e horrendo insulto.

Mas não sofre da fuga o torpe medo

O valente fortíssimo Temudo;

E, tendo ao lado o intrépido Azevedo,

A espada empunha embaraçando o escudo.

Ao ser do saco no funesto enredo

A forma do holandês turbar-se em tudo,

Une alguns, que, odiando a vil fugida,

Dão por preço da glória a heróica vida.

“Oh, disse, honra imortal do nome luso,

Corações valorosos, que em tal sorte

Fazeis da doce vida o melhor uso,

Comprando a glória com a invicta morte!

Vedes sem forma o bátavo confuso,

Da valorosa espada exposta ao corte:

Corra-se às armas, que, se os não vencemos,

Sem a pátria vingar não morreremos.”

Disse; e, empregando a fulminante espada,

Uma esquadra invadiu que discorria,

Com cálices da igreja profanada,

Que com insulto em derrisão metia;

De uns a fronte no chão deixou truncada,

De outros o peito com o ferro enfia,

De alguns, que insano acometendo freme,

Talhado o braço sobre a terra treme.

Azevedo entre os mais, que no chão lança,

Tendo das balas empregado o impulso,

Com fero golpe de alabarda alcança

De Ruiter, que o acomete, o horrível pulso:

Despoja-o da arma e furioso avança,

Deixando-o em terra com tremor convulso,

Cornelisten derriba e o ferro emprega

Em Blá, que todo o chão com sangue rega.

Com fúria igual e impulso destemido

Invade contra o bátavo a caterva,

E, bem que a legião em corpo unido,

Em roda ao luso disparando ferva,

Resiste o português nunca rendido,

Enquanto a vida com vigor conserva,

Até que sobre os belgas derribados

Caíram mortos sim, porém vingados.

Tem por nome Arrecife um forte posto,

Que um istmo separou do continente,

Donde o Castelo de S. Jorge oposto

Defende o passo ao trânsito iminente.

Ali fazia aos inimigos rosto

O bravo Lima, que do belga ardente,

Sem mais que trinta invictos defensores,

Trezentos sacrifica aos seus furores.

Pasma de assombro Wandemburgo insano,

Nem pode crer, se o não convence a vista

Que com força tão pouca o lusitano

De dois mil belgas ao furor resista.

Sai com todo o poder e ocupa o plano,

E em forma regular tenta a conquista;

E nem assim o Lima ao fogo cede,

Enquanto auxílio ao general não pede.

Recobrava-se entanto valorosa

Do primeiro terror a lusa gente,

Que. inexperta da pugna belicosa,

Cedera no improviso do acidente.

E, acompanhando em tropa numerosa

Do intrépido Albuquerque o ardor valente,

O belga usurpador pelas ribeiras

Cercaram com redutos e trincheiras.

Plantam depois um forte acampamento,

Donde se insulte o bátavo inimigo;

Nem deixavam que um só pudesse isento

Sair sem dano ao campo, ou sem perigo.

Cortam-lhe o passo, impedem-lhe o sustento,

Nem lhe concedem no terreno abrigo,

E, ocupando-lhe o giro dilatado,

O belga cercador deixam cercado.

Dois mil dos seus guerreiros escolhidos

Contra Albuquerque Wandenburg avança;

Mas achavam os lusos prevenidos

Do seu valor na nobre confiança:

Caíam das trincheiras rebatidos

Do fogo os belgas, ou da espada e lança,

E, sem que combatendo a mais se arrojem,

Em desordem do campo à praça fogem.

Com quatro companhias numa armada

Socorro de Lisboa recebendo,

Foi outra vez a tropa reforçada

Com gente e munições noutra de Oquendo:

Mil mosqueteiros, tropa exercitada,

No duro jogo de Mavorte horrendo,

S. Felice conduz mestre de guerra

Mas menos apto na que usava a terra.

Com socorro maior de Holanda armado

Contra Itamaracá corre o inimigo;

Duas vezes, porém, foi rechaçado

Com perda o belga para o noto abrigo

A Paraíba e Rio Grande enviado,

Mudava de lugar, não de perigo;

E, já menos bisonha a lusa topa,

Põe em fuga o holandês, se em campo o topa.

A Wandemburgo no holandês império

Sucedera Rimbach em guerras noto,

Que. estimando dos belgas vitupério

Ser cada dia pelos nossos roto,

Enquanto celebrava atento e sério

A páscoa o campo em procissão devoto,

Com todo o poder bátavo acomete,

E o campo em confusão, batendo, mete.

Não se interrompe a cerimônia augusta;

Orando o clero com o sexo pio,

Sai o ortodoxo conta a turma injusta,

Tomando por sagrado o desafio;

E, fundando no céu confiança justa,

Pelejam com tal fé, com tanto brio,

Que. matando Rimbach em feio estrago,

Deram aos belgas da blasfêmia o pago.

Mas o céu, que o flagelo destinava,

Poder tão grande aos bátavos concede,

Que nada a Vandescop, que os moderava,

Depois desta campanha o curso impede.

Fica Itamaracá de Holanda escrava,

Desfaz-se o campo, a Paraíba cede,

Perde-se o Rio Grande, e noutra empresa

Rende o luso o Pontal e a Fortaleza.

Salva-se o resto, da facção perdida

Nas Alagoas, sítio defensável,

Onde, de fero belga perseguida,

Asilo busca a turba miserável.

Mas foi da Espanha em breve socorrida

Com brava tropa em frota respeitável;

Rosas de Borja, a Pernambuco enviado,

De Albuquerque o bastão tomou deixado.

Roxas, pronto no obrar, posto em batalha,

De Vandescop as tropas investia;

Mas o belga Arquichofe a marcha atalha

Com socorro que válido trazia

Com tenebrosa sombra os lutos talha

A noite, que começa, à morte impia,

Dispondo Roxas em defesa armado

Esperar o socorro convocado.

Mas, logo que a manhã mostrou formosa

Da batalha inimiga a forma unida,

Mais não sossega a chama generosa,

E investe ardente a bátava partida:

Cobre os céus a fumaça tenebrosa,

Perde o hispano e o holandês na empresa a vida,

E nem este, nem o outro ali vencera,

Se o temerário Roxas não morrera.

S. Felice, na guerra mestre astuto,

Sucede no governo ao bravo hispano,

E brasílico Fábio entanto luto

Salvou na retirada o lusitano.

Foi das palmas batávicas produto

Governar o país pernambucano

O conde de Nassau, que o belga envia,

General das conquistas que emprendia.

Era Nassau nas armas celebrado,

Com que ilustrava o excelso nascimento,

Príncipe então no império respeitado,

Nutrindo igual ao sangue o pensamento

Entrou de forte armada acompanhado,

E, no Arrecife situado o assento,

Levantou fortes, e em países belos

Guarneceu as colônias com castelos.

Mas, aspirando a empresa memorável,

Todo o exército e armada prevenia,

E, achando Pernambuco defensável,

Invadiu no recôncavo a Bahia.

S. Felice com resto miserável

Ali novo socorro ao rei pedia,

Quando ao bravo Nassau dispunha a sorte

Um chefe nele opor prudente e forte

Tudo dispunha o conde em forma e arte

De rebater do bátavo a interpresa,

Dispõe pela cidade em toda a parte

Os meios e instrumentos da defesa;

Faz grossas levas e esquadrões reparte,

E, tudo preparando à forte empresa,

Nada esqueceu de quanto na milícia

Inventa a militar sábia perícia.

Entrava entanto pela vasta enseada

Nassau, que as praias enche da Bahia

Com a terrível majestosa armada

Que com quarenta naus linha fazia;

E, ao som da trompa marcial tocada

Em gratos ecos de hórrida harmonia,

Enche a horrenda procela em tais ensaios

A enseada de trovões e o céu de raios.

Entanto o claro Silva, que ocupava

Do supremo governo o excelso mando,

A S. Felice o posto renunciava,

Ficando por soldado ao seu comando.

Heróica ação, que pela pátria obrava,

Maior perícia em outrem confessando,

E merecendo nela em tanta empresa

Da corte aclamações, do rei grandeza.

Desembarca Nassau com turba ingente

Junto de Tapagipe, e empreende o oiteiro

Que nomear costuma a vulgar gente

Do antigo habitador Padre Ribeiro.

Mas S. Felice, que o anteviu prudente,

De posto o bate, que ocupou primeiro;

E, depois que seiscentos destro mata,

Em grande parte o belga desbarata.

Largos dias Nassau bate a trincheira,

Que lhe opôs ao quartel Banholo à frente;

Mas o belga em batalha verdadeira

Por muitos dias se avançava ardente.

Cobre-se a terra em hórrida maneira

De um monte de cadáveres ingente,

Vendo os belgas cair, sem que desista

Nassau com tanto sangue da conquista.

E já desfeito o exército se via,

Ferido o oficial, e a gente morta,

Sem que cessasse o ardor nos da Bahia,

Que o S. Felice rege e o Silva exorta.

Pede tréguas Nassau nesta porfia,

E tudo com a tropa as naus transporta,

Fugindo do perigo o infausto efeito.

Com perda igual de gente e de conceito.

Dois dias na enseada por vingança

Bate a esquadra a cidade sem perigo,

Com balas e granadas, que em vão lança,

Parecendo mais salva que castigo.

Sobreveio ao Brasil nova esperança

De expugnar com mais forças o inimigo;

Mas foi o efeito das promessas vário,

Impedindo o socorro o mar contrário.

Vi neste tempo em confusão pasmosa

A monarquia em Lísia dominante,

E a casa de Bragança gloriosa

Nos quatro impérios triunfar reinante,

A Bahia com pompa majestosa

Festejar o monarca triunfante,

E o Pernambuco, de desgraças farto,

Invocar pai da pátria D. João Quarto.

Tratava o novo rei com fé provada

A batávica paz, que sem justiça

Deixava ao mesmo tempo quebrantada

O belga injusto pela vil cobiça.

Ocupa o Maranhão bátava armada,

E outra esquadra em Sergipe o incêndio atiça,

Pretendendo ocupar com falso engano

Toda África e Brasil ao lusitano.

Cede do seu governo de afrontado

O general Nassau, tornando à Holanda,

Tendo o conselho do Arrecife armado

Mil artifícios de calúnia infanda.

Nem contra os habitantes moderado

O duro freio no governo abranda,

Onde a plebe agravada que o experimenta

O Jugo sacudir com glória intenta.

João Fernandes Vieira foi na empresa

O instrumento da pátria liberdade,

Herói que soube usar da grã-riqueza,

Libertando o Brasil desta impiedade.

De amigos e parentes na defesa

Tentou furtivamente a sociedade,

E como a pedra a estátua de Nabuco.

O belga derribou de Pernambuco.

Nomeou cabos, tropas, companhias,

Pediu socorros e invocou prudente,

Expondo do holandês as tiranias,

O governo brasílico potente.

Avisa sem demora Henrique Dias,

Capitão dos etíopes valente,

E o forte Camarão, que em guerra tanta

Com os seus carijós o belga espanta.

Ouse o holandês com susto o movimento;

E, querendo oprimir nascente a chama,

Com dois mil homens prevenia atento

A nova guerra que o Vieira inflama.

Deixara o luso chefe o alojamento,

E os belgas, que à cilada oculto chama,

Empenhou de um lugar nas duras rocas,

A que o monte chamaram das Tabocas.

Entre arbustos e canas de improviso

Dispara o luso sobre a incauta gente,

E, precedendo o dano antes do aviso,

Desbarata o holandês com fúria ardente.

Suspende a marcha o bátavo indeciso,

E, sem ver o inimigo, o golpe sente,

Até que, vendo o estrago dos soldados,

Cedem o campo e fogem destroçados

Holanda era potente e o luso aflito,

Onde enchendo Lisboa de ameaças,

Por ter notícia do infeliz conflito,

Meditava ao Brasil novas desgraças.

Mas, por guardar os seus, o rei invicto

Dispôs piedoso nas províncias lassas

Providências que à paz chamar pudessem

O tumulto em que os nossos permanecem.

Vão com dois regimentos destacados

O moreno e o negreiros da Bahia

A dar paz (se é possível) destinados

Na guerra que o Vieira então movia.

Vieram veigas e Campos abrasados,

E o colono infeliz, que perecia,

Com lastima da tropa, que observara,

Todo o estrago que o belga ali causara.

Avistado o Negreiros e o Vieira

“Venho (disse o primeiro) a prisão dar vos,

Por haver provocado a ira estrangeira

A uma guerra que acabe de assolar-vos.”

“É justo que eu também prender-vos queira;

Mas será (disse o herói) com abraçar-vos.”

E, assim dizendo, alegre move o passo,

E os dois recebe com festivo abraço.

Outro tanto fazia a tropa unida

Ao invicto esquadrão pernambucano;

E, aplaudindo a vitória conseguida,

Detestam do holandês o enorme engano.

Nem muito tarda a gente fementida

Que não abrase a esquadra ao lusitano,

Onde embarcado pela paz chegara,

Com o bátavo próprio o convidara.

Ouvem-se entanto os míseros clamores

De turba feminina, que invocava

O socorro dos seus libertadores

Contra o belga cruel que a cativava.

Mas não cessa o Vieira e sem rumores

O engenho, aonde incauto descansava

O belga general cercado, bate,

E, rendendo-o à prisão, vence o combate.

Henrique Huss, no Arrecife comandante,

Era o cabo dos belgas prisioneiro,

Blac rendido também, chefe importante,

Subalterno nas armas do primeiro.

Foge do luso o bátavo arrogante,

Espalhando fuzis no grão-terreiro,

E a chama teme que no horrendo empenho

Lançara o Vieira pelo vasto engenho.

Com fama de vitória tão brilhante

Toma as armas a plebe e o belga invade;

Serenhaem tomou, vila possante,

O partido comum da liberdade.

Segue Itamaracá com fé constante,

Porto Calvo e os contornos da cidade,

Deixando no Arrecife sem remédio

Encerrado o holandês com duro assédio,

Mas não cessa na Holanda a companhia,

E ao numeroso exército que ordena,

Segismundo Van-Scop por chefe envia,

Munido em guerra de potência plena;

Do experto general, que desconfia

O prêmio valoroso, ao fraco a pena,

E empreendendo com forças o combate,

O inimigo Vieira ou prenda, ou mate.

Abordando o Arrecife então cercado,

A inércia dos seus chefes repreende;

Nem muito tarda que no campo armado

Não saia a Olinda, que expugnar emprende.

Em assalto a acomete duplicado,

E a brava tropa, que ao presídio atende,

Com tanto alento o bátavo rechaça,

Que ferido Van-Scop se acolhe à praça.

Sem que desista da passada instância,

Tenta de novo a empresa da Bahia;

Mas, notando nos lusos a constância,

Que injúria do poder lhe parecia,

Consome do Recôncavo a abundância

Com frequentes sortidas, que emprendia,

E, porque cresça na cidade o tédio,

Ocupa Taparica e põe-lhe o assédio.

Teles entanto, que expulsar pretende

Sem igual força o bátavo contrário,

Contra o comum conselho o ataque emprende,

E tudo expõe no impulso temerário

Mas, vendo o luso rei que a nada atende

O belga nos seus pactos sempre vário,

Manda armada ao Brasil, que poderosa

A bátava nação dome orgulhosa.

Teme o golpe Van-Scop e desampara,

Por guardar o Arrecife, Taparica,

Antevendo que a esquadra se prepara

Contra a praça, que auxílio lhe suplica.

Barreto de Menezes, que chegara

De novo general patente indica,

E em Pernambuco sublimado ao mando

Com prudência e valor foi governando.

Nove mil homens, tropa valorosa,

E com frequentes palmas veterana,

Manda o bátavo a empresa perigosa,

Que à guerra ponha fim pernambucana.

Ocupa o mar armada poderosa,

E, dominando a praia americana,

Usurpa em mar e terra alto domínio,

Ameaçando dos lusos o extermínio.

Põe-se em campanha o bátavo terrível,

Com sete mil de veterana tropa;

Vão densos bandos de gentio horrível,

Com destro gastador vindo da Europa;

E, estimando a potência irresistível,

Cende ao belga a Barreta e quanto topa,

Enquanto em defensiva o luso fica,

E o campo contra o belga fortifica.

Segismundo, porém, que os bastimentos

Em Moribeca assegurar procura,

Dispunha ali tomar alojamentos,

Estimando a vitória já segura.

Mas Barreto e Vieira a tudo atentos,

Na justiça, que a causa lhe assegura,

Confiam que na empresa o céu lhe valha,

E tudo vão dispondo a uma batalha.

Nem com tanto poder Van-Scop recusa

Decidir numa ação toda a contenda,

Antevendo, se a perde a gente lusa,

Que outra força não tem que a guerra emprenda;

E já na marcha a multidão confusa

A ação começa pelo fogo horrenda,

E, turbando dos belgas toda a forma,

Combatem com valor, porém sem norma.

Nos montes Guararapes se alojava

Formando o português, que o belga espera;

E a escaramuça, que emprendera brava,

Traz a sítio o holandês, que adverso lhe era;

Desde alto monte o luso fogo obrava,

Com ruína dos bátavos tão fera,

Que, ou seja ao lado, ou na espaçosa fronte,

Se cobriu de cadáveres o monte.

Reúne os batalhões Van-Scop irado,

E à frente com valor da linha posto

Tenta desalojar do alto ocupado

O invicto Camarão, que lhe faz rosto;

Mas, com chuva de balas rechaçado,

Perde três vezes o ganhado posto,

E já ferido com mil mortos cede,

Em vil fuga, que a noite lhe concede.

Noventa dos seus perde o lusitano;

E enquanto o belga se retira incerto,

Descobre a aurora todo o monte e plano

De bandeiras, canhões, e armas coberto.

Muitos ali do bátavo tirano,

Perdidos pela noite em campo aberto,

Deixa o dia, inexpertos nos roteiros,

Nas mãos da nossa tropa prisioneiros.

Horroriza-se Holanda, pasma Europa,

Exalta Portugal, canta a Bahia,

Vendo-se triunfar tão pouca tropa

Da terrível potência que a invadia.

Nada de humano o pensamento topa,

Que em tudo a mão de Deus clara se via,

Pois sempre elege para os seus portentos

Os mais fracos e humildes instrumentos.

Tinha exausta a ambição, mas não cansada

A cobiçosa Holanda em tal conquista;

E, para novo empenho aparelhada,

Escolhe os capitães e a gente alista;

Mas do Britano às armas provocada,

Sobre interesse que mais alto avista,

Suspende influxo na famosa empresa,

Deixando em Pernambuco a guerra acesa.

Brinca este tempo, coronel valente,

Impetra de Van-Scop tropa luzida,

Com petrechos e número potente,

Que em batalha cruel toda decida.

Cinco mil homens de escolhida gente,

De canhões, e petrechos guarnecida,

Põe no campo assombrado da potência,

Igualando o valor com a diligência.

Com dois mil e seiscentos veteranos

Fez-lhe frente Barreto e o belga invade;

Correm de toda a parte os lusitanos

A sustentar a pátria liberdade.

Aloja o luso sobre os mesmos planos

Onde fora passada a mortandade;

O belga na montanha se distingue,

Um que estrago renove, outro que o vingue.

Mas Brinc, a tudo atento desde o cume,

Com perícia guerreira ocupa o monte,

Onde, seguindo o militar costume,

Dá forma à retaguarda e ordena à fronte;

Nem tão ousado o português presume,

Que em vantajoso posto o belga afronte,

Esperando a ocasião dali oportuna

De poder atacar com mais fortuna.

Reconhece Barreto o sítio e forma,

E, vendo o ardor da lusitana gente,

Que, hábil no passo, da subida o informa,

Faz que o bravo Vieira ataque ardente;

E, cobrindo a invasão com sábia norma,

Com o fogo protege o assalto ingente,

Até que por mil casos duvidosos

Vê sobre o monte os campeões briosos.

Nova batalha ali com fogo vivo

Move impávido o belga e firme insiste;

E, por mais que o Vieira invada ativo,

Onde um corpo vacila, outro resiste.

Tal há que ainda combate semi-vivo;

Tal que, cadáver já na morte triste,

A terra morde e em raiva enfurecida,

Blasfemando do céu, despede a vida.

A toda a parte voa o grão-Barreto,

E um anima, outro ajuda, outros exorta;

E, excitando no luso o pátrio afeto,

Incita o fone, o inválido conforta.

Bramava o fero Brinc em sangue infecto,

Entre a bátava turba opressa e morta;

Assalta horrendo um batalhão potente,

E outros reprime com ferócia ardente.

Mas o invencível Camarão, que o nota,

Um forte troço da reserva abala;

E, suspendendo a mísera derrota,

Lança o belga por terra de uma bala.

Logo o almirante da soberba frota,

Vendo invadido Brinc cair sem fala,

Ocupa o mando, que já vago estima,

E o bátavo à peleja altivo anima.

Não sofre Henrique Dias, que observava

Do novo chefe a intimação constante;

E de um tiro, que fero lhe apontava,

Derriba morto o intrépido almirante.

Sem comandante, o belga trepidava,

E, de um e de outro lado vacilante,

Uma vil fuga tímido declara,

E o campo com desordem desampara.

O estandarte soberbo dos Estados,

Tendas, peças, bandeiras numerosas,

Mil e trezentos mortos numerados,

Prisioneiros, bagagens preciosas,

Muitos centos na fuga degolados,

A caixa militar, armas custosas,

Foram, nesta ocasião, de tanta glória,

O merecido prêmio da vitória.

Cinge o Arrecife de um assédio estreito

Com pronta cura o chefe lusitano;

Mas, tendo longa guerra o belga feito,

Era contínuo sim, mas mútuo o dano;

Até que Jacques ao comando eleito

No campo se avistou pernambucano.

Conduzindo em fortuita derrota

Para o luso comércio a usada frota.

Por mar e terra sitiada a praça,

Depois do longo assédio de nove anos,

Com mil desastres fatigada e lassa,

Cedeu todo o Brasil aos lusitanos:

Mercê clara do céu, patente graça,

Que a tão poucos e míseros paisanos

Cedesse uma nação que enchia em guerra

De armadas todo o mar, de espanto a terra.

Assim modera o Padre Onipotente

Do ignorante mortal a incerta sorte,

Por fazer com tais casos evidente

Que não é quem mais pode o que é mais forte.

Tudo rege na terra a mão potente;

Dele a vitória pende, a vida, a morte;

E, sem o seu favor, que o distribui,

Todo o humano poder nada conclui.

Triunfou Portugal; mas, castigado,

Teve em tal permissão severo ensino,

Que só se logrará feliz reinado,

Honrando os reis da terra ao rei divino;

E que o Brasil aos lusos confiado

Será, cumprindo os fins do alto destino,

Instrumento talvez neste hemisfério

De recobrar no mundo o antigo império.

Vi ne sonho mil casos diferentes,

Que no curso virão de outras idades.

Vi províncias notáveis e potentes,

Vi nascer no Brasil áureas cidades;

Famosos vice-reis e ilustres gentes,

Tantos sucessos, tantas variedades,

Que somente pintado, como em sombra,

Confunde o pensamento, a vista assombra.

Prelados vi de excelsa jerarquia,

E entre outros da maior celebridade

O claro Lemos, que enriqueça um dia

De novas ciências a universidade:

Ele ornará depois a academia

Com construções de excelsa majestade,

E em doutrina a fará com sábio modo

O Ateneu mais famoso do orbe todo.”

Deu Catarina fim, e arrebatada

Num êxtase ficou, vibrando ardores;

Corriam pela face em luz banhada

Lágrimas belas, como orvalho em flores.

Fica a pia assembléia esperançada

De outros sucessos escutar maiores;

E, dando tempo ao sono milagroso,

No abraço a deixam do celeste esposo.