CANTO PRIMEIRO

By Antônio Gonçalves Dias

Sentado em sítio escuso descansava

Dos Timbiras o chefe em trono anoso,

Itajuba, o valente, o destemido

Acoçador das feras, o guerreiro

Fabricador das incansáveis lutas.

Seu pai, chefe também, também Timbira,

Chamava-se o Jaguar: dele era fama

Que os musculosos membros repeliam

A flecha sibilante, e que o seu crânio

Da maça aos tesos golpes não cedia.

Cria-se... e em que não crê o povo stulto?

Que um velho piaga na espelunca horrenda

Aquele encanto, inútil num cadáver,

Tirara ao pai defunto, e ao filho vivo

Inteiro o transmitira: é certo ao menos

Que durante uma noite juntos foram

O moço e o velho e o pálido cadáver.

Mas acertando um dia estar oculto

Num denso tabocal, onde perdera

Traços de fera, que rever cuidava,

Seta ligeira atravessou-lhe um braço.

Mão d’imigo traidor a disparara,

Ou fora algum dos seus, que receioso

Do mal causado, emudeceu prudente.

Relata o caso, irrefletido, o chefe.

Mal crido foi! — por abonar seu dito,

Redobra d’imprudência, — mostra aos olhos

A traiçoeira flecha, o braço e o sangue.

A fama voa, as tribos inimigas

Adunam-se, amotinam-se os guerreiros

E as bocas dizem: o Timbira é morto!

Outras emendam: Mal ferido sangra!

Do nome do Itajuba se despega

O medo, — um só desastre venha, e logo

Esse encanto vai prestes converter-se

Em riso e farsa das nações vizinhas!

Os manitós, que moram pendurados

Nas tabas d’Itajuba, que as protejam:

O terror do seu nome já não vale,

Já defensão não é dos seus guerreiros!

Dos Gamelas um chefe destemido,

Cioso d’alcançar renome e glória,

Vencendo a fama, que os sertões enchia,

Saiu primeiro a campo, armado e forte

Guedelha e ronco dos sertões imensos,

Guerreiros mil e mil vinham trás ele,

Cobrindo os montes e juncando as matas,

Com pejado carcaz de ervadas setas

Tingidas d’urucu, segundo a usança

Bárbara e fera, desgarrados gritos

Davam no meio das canções de guerra.

Chegou, e fez saber que era chegado

O rei das selvas a propor combate

Dos Timbiras ao chefe. —— “A nós só caiba,

(Disse ele) a honra e a glória; entre nós ambos

Decida-se a questão do esforço e brios.

Estes, que vês, impávidos guerreiros

São meus, que me obedecem; se me vences,

São teus; se és o vencido, os teus me sigam:

Aceita ou foge, que a vitória é minha.”

Não fugirei, responde-lhe Itajuba,

Que os homens, meus iguais, encaram fito

O sol brilhante, e os não deslumbra o raio.

Serás, pois que me afrontas, torna o bárbaro

Do meu valor troféu, —— e da vitória,

Qu’hei de certo alcançar, despojo opimo.

Nas tabas em que habito ora as mulheres

Tecem da sapucaia as longas cordas,

Que os pulsos teus hão de arrochar-te em breve;

E tu vil, e tu preso, e tu coberto

D’escárnio e d’irrisão! — Cheio de glória,

Além dos Andes voará meu nome!

O filho de Jaguar sorriu-se a furto:

Assim o pai sorri ao filho imberbe,

Que, desprezado o arco seu pequeno,

Talhado para aquelas mãos sem forças,

Tenta doutro maior curvar as pontas,

Que vezes três o mede em toda altura!

Travaram luta fera os dois guerreiros,

Primeiro ambos de longe as setas vibram,

Amigos manitôs, que ambos protegem,

Nos ares as desgarram, Do Gamela

Entrou a fecha trêmula num tronco

E só parou no cerne, a do Timbira,

Cicando veloz, fugiu mais longe,

Roçando apenas os frondosos cimos

Encontram-se os tacapes, lá se partem;

Ambos o punho inútil rejeitando

Estreitam-se valentes: braço a braço,

Alentando açodados, peito a peito,

Revolvem fundo a terra aos pés, e ao longe

Rouqueja o peito arfado um som confuso.

Cena vistosa! quadro aparatoso!

Guerreiros velhos, à vitória afeitos,

Tamanhos campeões vendo n’arena,

E a luta horrível e o combate aceso,

Mudos quedaram de terror transidos.

Qual daqueles heróis há de primeiro

Sentir o egrégio esforço abandona-lo

Perguntam; mas não há quem lhes responda.

São ambos fortes: o Timbira hardido,

Esbelto como o tronco da palmeira,

Flexível como a flecha bem talhada,

Ostenta-se robusto o rei das selvas;

Seu corpo musculoso, imenso e forte

É como rocha enorme, que desaba

De serra altiva, e cai no vale inteira

Não vale humana força desprende-la

Dali, onde ela está: fugaz corisco

Bate-lhe a calva fronte sem parti-la.

Separam-se os guerreiros um do outro,

Foi dum o pensamento, — a ação foi d’ambos.

Ambos arquejam, descoberto o peito

Arfa, estua, eleva-se, comprime-se

E o ar em ondas sôfregos respiram

Cada qual, mais pasmado que medroso

Se estranha a força que no outro encontra,

A mal cuidada resistência o irrita.

Itajuba! Itajuba! — os seus exclamam

Guerreiro, tal como ele, se descora

Um só momento, é dar-se por vencido

O filho de Jaguar voltou-se rápido

Donde essa voz partiu? quem no aguilhoa?

Raiva de tigre anuviou-lhe o rosto

E os olhos cor de sangue irados pulam

“A tua vida a minha glória insulta!

Grita ao rival, e já de mais viveste.”

Disse, e como o condor, descendo a prumo

Dos astros, sobre o lhama descuidoso

Pávido o prende nas torcidas garras,

E sobe audaz onde não chega o raio...

Voa Itajuba sobre o rei das selvas,

Cinge-o nos braços, contra si o aperta

Com força incrível: o colosso verga,

Inclina-se, desaba, cai de chofre,

E o pó levanta e atroa forte os ecos.

Assim cai na floresta um tronco anoso,

E o som da queda se propaga ao longe!

O fero vencedor um pé alçando,

Morre! — lhe brada — e o nome teu contigo!

O pé desceu, batendo a arca do peito

Do exânime vencido: os olhos turvos,

Levou, a extrema vez, o desditoso

Àqueles céus d’azul, àquelas matas,

Doce cobertas de verdura e flores!

Depois, erguendo o esquálido cadáver

Sobre a cabeça, horrivelmente belo,

Aos seus o mostra ensanguentado e torpe;

Então por vezes três o horrendo grito

Do triunfo soltou; e os seus três vezes

O mesmo grito em coro repetiram

Aquela massa enfim côa nos ares;

Porem na destra do feliz guerreiro

Dividem-se entre os dedos as melenas,

De cujo crânio marejava o sangue!

Transbordando ufania do sucesso

Inda recente, recordava as fases

Orgulhos o guerreiro! Ainda escuta

A dura voz, inda a figura avista

Desse, que ousou atravessar-lhe as sanhas:

Lembra-se! e da lembrança grato enlevo

Lhe côa n’alma em fogo: longos olhos

Em quanto assim medita, vai levando

Por onde o céu e as selvas se confundem,

Por onde o rio, em tortuosos giros,

Queixoso lambe as empedradas margens.

Assim o jugo seu não escorjassem

Tredos Gamelas co’a noturna fuga!

Pérfidos! o herói jurou vingar-se!

Tremei! qu’há de o valente debelar-vos!

E em quanto segue o céu, e o rio, e as selvas,

Crescem-lhe brios, força, —— alteia o colo,

Fita orgulhos a terra, onde não acha,

Nem crê achar quem lhe resista; eis nisto

Reconhece um dos seus, que pressuroso

Corre a encontra-lo, — rápido caminha;

Porém d’instante a instante, d’enfiado

Volta o pávido rosto, onde se pinta

O susto vil, que denuncia o fraco.

— Ó filho de Jaguar — de longe brada,

Neste aperto nos vale, — ei-los se avançam

Pujantes contra nós, tão bastos, tantos,

Como enredados troncos na floresta.

Tu sempre tremes, Jurucei, tornou-lhe

Com voz tranquila e majestosa o chefe.

O mel, que em falas sem cessar distilas,

Tolhe-te o esforço e te enfraquece a vista:

Amigos são talvez, amigas tribos,

Algum chefe, que tem conosco as armas,

Em sinal d’aliança, espedaçado:

Vem talvez festejar o meu triunfo,

E os seus cantores celebrar meu nome.

“Não! não! ouvi o som triste e sonoro

Sas igaras, rompendo a custo as águas

Dos remos manejados a compasso,

E os sons guerreiros do boré, e os cantos

Do combate; parece, d’irritado,

Tão grande peso agora a flor lhe corta,

Que o rio vai sorver as altas margens”.

E são Gamelas? — perguntou-lhe o chefe.

“Vi-os, tornou-lhe Jurucei, são eles!”

O chefe dos Timbiras dentro d’alma

Sentiu ódio e vingança remorde-lo.

Rugiu a tempestade, mas lá dentro,

Cá fora retumbou, mas quase extinta.

Começa então com voz cavada e surda.

Irás tu, Jurucei, por mim dizer-lhes:

Itajuba, o valente, o rei da guerra,

Fabricador das incansáveis lutas,

Em quanto a maça não sopesa em quanto

Dormem-lhe as setas no carcaz imóveis,

Of’rece-vos liança e paz; — não ama,

Tigre repleto, espedaçar mais presas,

Nem quer dos vossos derramar mais sangue.

Três grandes Tabas, onde heróis pululam,

Tantos e mais que vós, tanto e mais bravos,

Caídas a seus pés, a voz lhe escutam.

Vós outros, atendei, — cortai nas matas

Troncos robustos e frondosas palmas,

E construí cabanas, — onde o corpo

Caiu do rei das selvas, — onde o sangue

Daquele herói, vossa perfídia atesta.

Aquela briga enfim de dois, tamanhos,

Sinalai; por que estranho caminheiro,

Amigas vendo e juntas nossas tabas,

E a fé, que usais guardar, sabendo, exclamem:

Vejo um povo de heróis e um grande chefe!

Disse: e vingando o cimo d’alto monte,

Que em roda largo espaço dominava,

O atroador membi soprou com força.

O tronco, o arbusto, a moita, a rocha, a pedra,

Convertem-se em guerreiros; — mais depressa,

Quando soa o clarim, núncio de guerra,

Não sopra, e escava a terra, e o ar divide

Co’as crinas flutuantes, o ginete,

Impávido, orgulhoso, em campo aberto.

Da montanha Itajuba os vê sorrindo,

Galgando vales, combros, serranias,

Coalhando o ar e o céu de feios gritos.

E folga, por que os vê correr tão prestes

Aos sons do cavo búzio conhecido,

Já tantas vezes repetidos antes

Por vales e por serras; já não pode

Numera-los, de tantos que se apinham;

Mas vendo-os, reconhece o vulto e as armas

Dos seus: “Tupã sorri-se lá dos astros,

— Diz o chefe entre si, — lá, descuidosos

Das folganças de Ibaque, heróis timbiras

Contemplam-me, das nuvens debruçados:

E por ventura de lhes ser eu filho

Enlevam-se, e repetem, não sem glória,

Os seus cantores d’Itajuba o nome.

Vem primeiro Jucá de fero aspecto.

Duma onça bicolor cai-lhe na fronte

A pel’ vistosa; sob as hirtas cerdas,

Como sorrindo, alvejam brancos dentes,

E nas vazias órbitas lampejam

Dois olhos, fulvos, maus. — No bosque, um dia,

A traiçoeira fera a cauda enrosca

E mira nele o pulo; do tacape

Jucá desprende o golpe, e furta o corpo;

Onde estavam seus pés, as duras garras

Encravam-se enganadas, e onde as garras

Morderam, beija a terra a fera exangue

E, morta, ao vencedor tributa um nome.

Vem depois Jacaré, senhor dos rios,

Ita-roca indomável, — Catucaba,

Primeiro sempre no combate, — o forte

Juçurana, — Poti ligeiro e destro,

O tardo Japeguá, — o sempre aflito

Piaíba, que espíritos perseguem:

Mojacá, Mopereba, irmãos nas armas,

Sempre unidos, ninguém não foi como eles!

Lagos de sangue derramaram juntos;

Filhos e pais e mães d’imigas tabas

Odeiam-nos chorando, e a glória d’ambos,

Assim chorada, mais e mais se exalta:

Samotim, Pirajá, e outros infindos,

Heróis também, aos quais faltou somente

Nação menor, menos guerreira tribo.

Japi, o atirador, quando escutava

Os sons guerreiros do membi troante,

Na tesa corda flecha embebe inteira,

E mira um javali que os alvos dentes,

Navalhados, remove: pára, escuta...

Volvem-lhe os mesmos sons: Bate-lhe o peito

Os olhos pulam, — solta horrendo grito,

Arranca e roça a fera!... a fera atônita,

Aterrada, transida, treme, erriça

As duras cerdas; tiritante, pávida,

Esgazeando os olhos fascinados,

Recua: um tronco só lhe embarga os passos.

Por longo trato, de si mesma alheia,

Demora-se, lembrada: a custo o sangue

Volve de novo ao costumado giro,

Em quando o vulto horrendo se recorda!

“Mas onde está Jatir? — pergunta o chefe,

Que debalde o procura entre os que o cercam:

Jatir, dos olhos negros, que me luzem,

Melhor que o sol nascendo, dentro d’alma;

Jatir, que aos chefes todos anteponho,

Cuja bravura e temerário arrojo

Folgo em reger e moderar nos prélios;

Esse, porque não vem, quando vos vindes?”

— Corre Jatir no bosque, diz um chefe

Bem sabes como: acinte se desgarra

Dos nossos, — andal só, talvez sem armas,

Talvez bem longe: acordo nele é certo,

Creio, de nos tachar assim de fracos! —

Pais de Jatir, Ogib, entrara em anos;

Grosseiro cedro mal lhe afirma os passos,

Os olhos pouco vêem; mas de conselho

Valioso e prestante. Ali, mil vezes,

Havia com prudência temperado

O juvenil ardor dos seus, que o ouviam.

Alheio agora da prudência, escuta

A voz que o filho amado lhe crimina.

Sopra-lhe o dizer acre a cinza quente,

Viva, acesa, antes brasa, — o amor paterno:

Amor inda tão forte na velhice,

Como no dia venturoso, quando

Cendi, que os olhos seus só viram bela,

Sorrindo luz de amor dos meigos olhos,

Carinhosa lho deu; quando na rede

Ouvia com prazer as ledas vozes

Dos companheiros seus, — e quando absorto,

Olhos pregados no gentil menino,

Bem longas horas, sim, porém bem doces

Levou cismando aventuradas sinas.

Ali o tinha, ali meigo e risonho

Aqueles tenros braços levantava;

Aqueles olhos límpidos se abriam

À luz da vida: cândido sorriso,

Como o sorrir da flor no romper d’alva,

Radiava-lhe o rosto: quem julgara,

Quem poderá aventar, supor ao menos

Haverem de apertar-se aqueles braços

Tão mimosos, um dia, contra o peito

Arquejante e cansado, — e aqueles olhos

Verterem pranto amargo em soledade?

Incrível! — porém lágrimas cresceram-lhe

Dos olhos, — lá tombou-lhe uma, das faces

No filho, em cujo rosto um beijo a enxuga.

Agora, Ogib, alheio da prudência,

Que ensina, imputações tão más ouvindo

Contra o filho querido, acre responde.

“São torpes os anuns que em bandos folgam,

São maus os caitetus, que em varas pascem,

Somente o sabiá geme sozinho,

E sozinho o Condor aos céus remonta.

Folga Jatir de só viver consigo:

Em bem, que tens agora que dizer-lhe?

Esmaga o seu tacape a quem vos prende,

A quem vos dana, afoga entre os seus braços,

E em quem vos acomete, emprega as setas.

Fraco! não temes já que te não falte

O primeiro entre vós, Jatir, meu filho?”

Despeitoso Itajuba, ouvindo um nome.

Embora o de Jatir, apregoado

Melhor, maior que o seu, a testa enruga

E diz severo aos dois qu’inda argumentam

Mais respeito, mancebo, ao sábio velho,

Qu’éramos nós crianças, manejava

A seta e o arco em defensão dos nossos.

Tu, velho, mais prudência. Entre nós todos

O primeiro sou eu: Jatir, teu filho,

E forte e bravo; porém novo. Eu mesmo

Gabo-lhe o porte e a gentileza; e aos feitos

Novéis aplaudo: bem maneja o arco,

Vibra certeira a flecha; mas... (sorrindo

Prossegue) afora dele inda há quem saiba

Mover tão bem as armas, e nos braços

Robustos, afogar fortes guerreiros.

Jatir virá, senão... serei convosco.

(Disse voltado para os seus, que o cercam)

E bem sabeis que vos não falto eu nunca.

Altercam eles nas ruidosas tabas,

Em quanto Jurucei com pé ligeiro

Caminha: as aves docemente atitam,

De ramo em ramo — docemente o bosque

À medo rumoreja, — à medo o rio

Escoa-se e murmura: um borborinho,

Confuso se propaga, — um rio incerto

Dilata-se do sol doirando o ocaso.

Último som que morre, último raio

De luz, que treme incerta, quantos entes

Oh! quantos! hão de ver a luz de novo

E o romper d’alva, e os céus, e a natureza

Risonha e fresca, — e os sons, e os ledos cantos

Ouvir das aves tímidas no bosque

Outra vez ao surgir da nova aurora?!