CANTO PRIMEIRO

By Basílio da Gama

Fumam ainda nas desertas praias

Lagos de sangue tépidos e impuros

Em que ondeiam cadáveres despidos,

Pasto de corvos. Dura inda nos vales

O rouco som da irada artilheria.

MUSA, honremos o Herói que o povo rude

Subjugou do Uraguai, e no seu sangue

Dos decretos reais lavou a afronta.

Ai tanto custas, ambição de império!

E Vós, por quem o Maranhão pendura

Rotas cadeias e grilhões pesados,

Herói e irmão de heróis, saudosa e triste

Se ao longe a vossa América vos lembra,

Protegei os meus versos. Possa entanto

Acostumar ao vôo as novas asas

Em que um dia vos leve. Desta sorte

Medrosa deixa o ninho a vez primeira

Águia, que depois foge à humilde terra

E vai ver de mais perto no ar vazio

O espaço azul, onde não chega o raio.

Já dos olhos o véu tinha rasgado

A enganada Madri, e ao Novo Mundo

Da vontade do Rei núncio severo

Aportava Catâneo: e ao grande Andrade

Avisa que tem prontos os socorros

E que em breve saía ao campo armado.

Não podia marchar por um deserto

O nosso General, sem que chegassem

As conduções, que há muito tempo espera.

Já por dilatadíssimos caminhos

Tinha mandado de remotas partes

Conduzir os petrechos para a guerra.

Mas entretanto cuidadoso e triste

Muitas cousas a um tempo revolvia

No inquieto agitado pensamento.

Quando pelos seus guardas conduzido

Um índio, com insígnias de correio,

Com cerimônia estranha lhe apresenta

Humilde as cartas, que primeiro toca

Levemente na boca e na cabeça.

Conhece a fiel mão e já descansa

O ilustre General, que viu, rasgando,

Que na cera encarnada impressa vinha

A águia real do generoso Almeida.

Diz-lhe que está vizinho e traz consigo,

Prontos para o caminho e para a guerra,

Os fogosos cavalos e os robustos

E tardos bois que hão de sofrer o jugo

No pesado exercício das carretas.

Não tem mais que esperar, e sem demora

Responde ao castelhano que partia,

E lhe determinou lugar e tempo

Para unir os socorros ao seu campo.

Juntos enfim, e um corpo do outro à vista,

Fez desfilar as tropas pelo plano,

Por que visse o espanhol em campo largo

A nobre gente e as armas que trazia.

Vão passando as esquadras: ele entanto

Tudo nota de parte e tudo observa

Encostado ao bastão. Ligeira e leve

Passou primeiro a guarda, que na guerra

É primeira a marchar, e que a seu cargo

Tem descobrir e segurar o campo.

Depois desta se segue a que descreve

E dá ao campo a ordem e a figura,

E transporta e edifica em um momento

O leve teto e as movediças casas,

E a praça e as ruas da cidade errante.

Atrás dos forçosíssimos cavalos

Quentes sonoros eixos vão gemendo

Co’ peso da funesta artilheria.

Vinha logo de guardas rodeado

— Fontes de crimes — militar tesouro,

Por quem deixa no rego o curvo arado

O lavrador, que não conhece a glória;

E vendendo a vil preço o sangue e a vida

Move, e nem sabe por que move, a guerra.

Intrépidos e imóveis nas fileiras,

Com grandes passos, firme a testa e os olhos

Vão marchando os mitrados granadeiros,

Sobre ligeiras rodas conduzindo

Novas espécies de fundidos bronzes

Que amiúdam, de prontas mãos servidos,

E multiplicam pelo campo a morte.

Que é este, Catâneo perguntava,

Das brancas plumas e de azul e branco

Vestido, e de galões coberto e cheio,

Que traz a rica cruz no largo peito?

Geraldo, que os conhece, lhe responde:

É o ilustre Meneses, mais que todos

Forte de braço e forte de conselho.

Toda essa guerreira infanteria,

A flor da mocidade e da nobreza

Como ele azul e branco e ouro vestem.

Quem é, continuava o castelhano,

Aquele velho vigoroso e forte,

Que de branco e amarelo e de ouro ornado

Vem os seus artilheiros conduzindo?

Vês o grande alpoim. Este o primeiro

Ensinou entre nós por que caminho

Se eleva aos céus a curva e grave bomba

Prenhe de fogo; e com que força do alto

Abate os tetos da cidade e lança

Do roto seio envolta em fumo a morte.

Seguiam juntos o paterno exemplo

Dignos do grande pai ambos os filhos.

Justos céus! E é forçoso, ilustre Vasco,

Que te preparem as soberbas ondas,

Longe de mim, a morte e a sepultura?

Ninfas do amor, que vistes, se é que vistes,

O rosto esmorecido e os frios braços,

Sobre os olhos soltai as verdes tranças.

Triste objeto de mágoa e de saudade,

Como em meu coração, vive em meus versos.

Com os teus encarnados granadeiros

Também te viu naquele dia o campo,

Famoso Mascarenhas, tu, que agora

Em doce paz, nos menos firmes anos,

Igualmente servindo ao rei e à pátria,

Ditas as leis ao público sossego,

Honra de Toga e glória do Senado.

Nem tu, Castro fortíssimo, escolheste

O descanso da pátria: o campo e as armas

Fizeram renovar no ínclito peito

Todo o heróico valor dos teus passados.

Os últimos que em campo se mostraram

Foram fortes dragões de duros peitos,

Prontos para dous gêneros de guerra,

Que pelejam a pé sobre as montanhas,

Quando o pede o terreno; e quando o pede

Erguem nuvens de pó por todo o campo

Co’ tropel dos magnânimos cavalos.

Convida o General depois da mostra,

Pago da militar guerreira imagem,

Os seus e os espanhóis; e já recebe

No pavilhão purpúreo, em largo giro,

Os capitães a alegre e rica mesa.

Desterram-se os cuidados, derramando

Os vinhos europeus nas taças de ouro.

Ao som da ebúrnea cítara sonora

Arrebatado de furor divino

Do seu herói, Matúsio celebrava

Altas empresas dignas de memória.

Honras futuras lhe promete, e canta

Os seus brasões, e sobre o forte escudo

Já de então lhe afigura e lhe descreve

As pérolas e o título de Grande.

Levantadas as mesas, entretinham

O congresso de heróis discursos vários.

Ali Catâneo ao General pedia

Que do princípio lhe dissesse as causas

Da nova guerra e do fatal tumulto.

Se aos Padres seguem os rebeldes povos?

Quem os governa em paz e na peleja?

Que do premeditado oculto Império

Vagamente na Europa se falava

Nos seus lugares cada qual imóvel

Pende da sua boca: atende em roda

Tudo em silêncio, e dá princípio Andrade:

O nosso último rei e o rei de Espanha

Determinaram, por cortar de um golpe,

Como sabeis, neste ângulo da terra,

As desordens de povos confinantes,

Que mais certos sinais nos dividissem.

Tirando a linha de onde a estéril costa,

E o cerro de Castilhos o mar lava

Ao monte mais vizinho, e que as vertentes

Os termos do domínio assinalassem.

Vossa fica a Colônia, e ficam nossos

Sete povos, que os Bárbaros habitam

Naquela oriental vasta campina

Que o fértil Uraguai discorre e banha.

Quem podia esperar que uns índios rudes,

Sem disciplina, sem valor, sem armas,

Se atravessassem no caminho aos nossos,

E que lhes disputassem o terreno!

Enfim não lhes dei ordens para a guerra:

Frustrada a expedição, enfim voltaram.

Co’ vosso general me determino

A entrar no campo juntos, em chegando

A doce volta da estação das flores.

Não sofrem tanto os índios atrevidos:

Juntos um nosso forte entanto assaltam.

E os padres os incitam e acompanham.

Que, à sua discrição, só eles podem

Aqui mover ou sossegar a guerra.

Os índios que ficaram prisioneiros

Ainda os podeis ver neste meu campo.

Deixados os quartéis, enfim partimos

Por diversas estradas, procurando

Tomar no meio os rebelados povos.

Por muitas léguas de áspero caminho,

Por lagos, bosques, vales e montanhas,

Chegamos onde nos impede o passo

Arrebatado e caudaloso rio.

Por toda a oposta margem se descobre

De bárbaros o número infinito

Que ao longe nos insulta e nos espera.

Preparo curvas balsas e pelotas,

E em uma parte de passar aceno,

Enquanto em outra passo oculto as tropas.

Quase tocava o fim da empresa, quando

Do vosso general um mensageiro

Me afirma que se havia retirado:

A disciplina militar dos índios

Tinha esterilizado aqueles campos.

Que eu também me retire, me aconselha,

Até que o tempo mostre outro caminho.

Irado, não o nego, lhe respondo:

Que para trás não sei mover um passo.

Venha quando puder, que eu firme o espero.

Porém o rio e a forma do terreno

Nos faz não vista e nunca usada guerra.

Sai furioso do seu seio, e toda

Vai alagando com o desmedido

Peso das águas a planície imensa.

As tendas levantei, primeiro aos troncos,

Depois aos altos ramos: pouco a pouco

Fomos tomar na região do vento

A habitação aos leves passarinhos.

Tece o emaranhadíssimo arvoredo

Verdes, irregulares, e torcidas

Ruas e praças, de uma e de outra banda

Cruzadas de canoas. Tais podemos

Co’a mistura das luzes, e das sombras

Ver por meio de um vidro transplantados

Ao seio de Ádria os nobres edifícios,

E os jardins, que produz outro elemento.

E batidas do remo, e navegáveis

As ruas da marítima Veneza.

Duas vezes a lua prateada

Curvou no céu sereno os alvos cornos,

E inda continuava a grossa enchente.

Tudo nos falta no país deserto.

Tardar devia o espanhol socorro.

E de si nos lançava o rio e o tempo.

Cedi, e retirei-me às nossas terras.

Deu fim à narração o invicto Andrade

E antes de se soltar o ajuntamento,

Com os régios poderes, que ocultara,

Surpreende os seus, e os ânimos alegra,

Enchendo os postos todos do seu campo.

O corpo de dragões a Almeida entrega,

E Campo das Mercês o lugar chama.