CANTO QUINTO

By Basílio da Gama

Na vasta e curva abóbeda pintara

A destra mão de artífice famoso,

Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,

E Províncias e Reinos. No alto sólio

Estava dando leis ao mundo inteiro

A Companhia. Os Cetros, e as Coroas,

E as Tiaras, e as Púrpuras em torno

Semeadas no chão. Tinha de um lado

Dádivas corruptoras: do outro lado

Sobre os brancos altares suspendidos

Agudos ferros, que gotejam sangue.

Por esta mão ao pé dos altos muros

Um dos Henriques perde a vida e o reino.

E cai por esta mão, oh céus! debalde

Rodeado dos seus o outro Henrique,

Delícia do seu povo e dos humanos.

Príncipes, o seu sangue é vossa ofensa.

Novos crimes prepara o horrendo monstro.

Armai o braço vingador: descreva

Seus tortos sucos o luzente arado

Sobre o seu trono; nem aos tardos netos

O lugar, em que foi, mostrar-se possa.

Viam-se ao longe errantes e espalhados

Pelo mundo os seus filhos ir lançando

Os fundamentos do esperado Império

De dous em dous: ou sobre os coroados

Montes do Tejo; ou nas remotas praias,

Que habitam as pintadas Amazonas,

Por onde o rei das águas escumando

Foge da estreita terra e insulta os mares.

Ou no Ganges sagrado; ou nas escuras

Nunca de humanos pés trilhadas serras

Aonde o Nilo tem, se é que tem, fonte.

Com um gesto inocente aos pés do trono

Via-se a Liberdade Americana

Que arrastando enormíssimas cadeias

Suspira, e os olhos e a inclinada testa

Nem levanta, de humilde e de medrosa.

Tem diante riquíssimo tributo,

Brilhante pedraria, e prata, e ouro,

Funesto preço por que compra os ferros.

Ao longe o mar azul e as brancas velas

Com estranhas divisas nas bandeiras

Denotam que aspirava ao senhorio,

E da navegação e do comércio.

Outro tempo, outro clima, outros costumes.

Mais além tão diversa de si mesma,

Vestida em larga roupa flutuante

Que distinguem barbáricos lavores,

Respira no ar chinês o mole fasto

De asiática pompa; e grave e lenta

Permite aos bonzos, apesar de Roma,

Do seu Legislador o indigno culto.

Aqui entrando no Japão fomenta

Domésticas discórdias. Lá passeia

No meio dos estragos, ostentando

Orvalhadas de sangue as negras roupas.

Cá desterrada enfim dos ricos portos,

Voltando a vista às terras que perdera,

Quer pisar temerária e criminosa...

Oh céus! Que negro horror! Tinha ficado

Imperfeita a pintura, e envolta em sombras.

Tremeu a mão do artífice ao fingi-la,

E desmaiaram no pincel as cores.

Da parte oposta, nas soberbas praias

Da rica Londres trágica e funesta,

Ensanguentado o Tâmega esmorece.

Vendo a conjuração pérfida e negra

Que se prepara ao crime; e intenta e espera

Erguer aos céus nos inflamados ombros

E espalhar pelas nuvens denegridos

Todos os grandes e a famosa sala.

Por entre os troncos de umas plantas negras,

Por obra sua, viam-se arrastados

Às ardentes areias africanas

O valor e alta glória portuguesa.

Ai mal aconselhado quanto forte,

Generoso Mancebo! eternos lutos

Preparas à chorosa Lusitânia.

Desejado dos teus, a incertos climas

Vás mendigar a morte e a sepultura.

Já satisfeitos do fatal desígnio,

Por mão de um dos Felipes afogavam

Nos abismos do mar e emudeciam

Queixosas línguas e sagradas bocas

Em que ainda se ouvia a voz da pátria.

Crescia o seu poder e se firmava

Entre surdas vinganças. Ao mar largo

Lança do profanado oculto seio

O irado Tejo os frios nadadores.

E deixa o barco e foge para a praia

O pescador que atônito recolhe

Na longa rede o pálido cadáver

Privado de sepulcro. Enquanto os nossos

Apascentam a vista na pintura,

Nova empresa e outro gênero de guerra

Em si resolve o General famoso.

Apenas esperou que ao sol brilhante

Desse as costas de todo a opaca terra,

Precipitou a marcha e no outro povo

Foi sorprender os índios. O Cruzeiro,

Constelação dos europeus não vista,

As horas declinando lhe assinala.

A corada manhã serena e pura

Começava a bordar nos horizontes

O céu de brancas nuvens povoado

Quando, abertas as portas, se descobrem

Em trajes de caminho ambos os padres,

Que mansamente do lugar fugiam,

Desamparando os miseráveis índios

Depois de expostos ao furor das armas.

Lobo voraz que vai na sombra escura

Meditando traições ao manso gado,

Perseguido dos cães, e descoberto

Não arde em tanta cólera, como ardem

Balda e Tedeu. A soldadesca alegre

Cerca em roda o fleumático Patusca,

Que próvido de longe os acompanha

E mal se move no jumento tardo.

Pendem-se dos arções de um lado e de outro

Os paios saborosos e os vermelhos

Presuntos europeus; e a tiracolo,

Inseparável companheira antiga

De seus caminhos, a borracha pende.

Entra no povo e ao templo se encaminha

O invicto Andrade; e generoso, entanto,

Reprime a militar licença, e a todos

Co’a grande sombra ampara: alegre e brando

No meio da vitória. Em roda o cercam

(Nem se enganaram) procurando abrigo

Chorosas mães, e filhos inocentes,

E curvos pais e tímidas donzelas.

Sossegado o tumulto e conhecidas

As vis astúcias de Tedeu e Balda,

Cai a infame República por terra.

Aos pés do General as toscas armas

Já tem deposto o rude Americano,

Que reconhece as ordens e se humilha,

E a imagem do seu rei prostrado adora.

Serás lido, Uraguai. Cubra os meus olhos

Embora um dia a escura noite eterna.

Tu vive e goza a luz serena e pura.

Vai aos bosques de Arcádia: e não receies

Chegar desconhecido àquela areia.

Ali de fresco entre as sombrias murtas

Urna triste a Mireo não todo encerra.

Leva de estranho céu, sobre ela espalha

Co’a peregrina mão bárbaras flores.

E busca o sucessor, que te encaminhe

Ao teu lugar, que há muito que te espera.