CANTO V

By Cláudio Manuel da Costa

Magnífica, esquisita arquitetura

De um templo guarda o abismo, onde a figura

Ao preço da matéria corresponde;

Lá no mais fundo dos altares, onde

Arde em perpétuo fumo o rendimento,

Tem o Interesse seu dourado assento.

Este ídolo fatal, que se alimenta

De humano sangue, um monstro representa

Armado sempre em guerra, cobre o peito

Três vezes de aço, e tem o braço feito

Ao furor, aos estragos e à ruína;

Tinto em sangue um punhal a mão fulmina,

E enterrando em um globo a aguda ponta

Pareceu intentar por nova afronta

Cravar o coração de todo o mundo;

Indignou-se, e do seio mais profundo

Suspirou esta vez; e conhecendo

Que do calvo Itamonte o aspecto horrendo

De um pânico terror ao longo ameaço

Não bastava a cortar do Herói o passo;

Que ao fim se dirigia a ilustre empresa

E que em breve há de ver posta em certeza

Toda a idéia do sonho concebido;

De todo agora em cólera acendido

Se empenha a embaraçar o alto projeto

Do magnânimo Chefe; toma o aspecto

De um Frade (quem o crera!), que influíra

Nas primeiras desordens e que vira

Dos nacionais sinceros o destroço:

Este em tratos ilícitos um grosso

Cabedal ajuntara, tendo a idéia

De vender por estanco o que franqueia

O liberal despego dos paisanos.

Meditando traições, tecendo enganos,

Firmado no caráter o respeito,

Aparecia o indigno; e tendo feito

Já parciais de seu ânimo alguns poucos,

Assim lhes fala: Ó Europeus, que loucos

Às portas esperais vossa ruína!

Credes que esta inação é de vós digna?

Assim vos vejo estar com gesto manso,

Quando a desconcertar vosso descanso

Corre armado o furor de um braço forte?

Desconheceis acaso que outra sorte,

Outra fortuna vos espera, vindo

Tão próximo Albuquerque, a quem seguindo

Vem o infame tumulto dos Paulistas,

Que aspiram senhorear estas conquistas?

Já vos não lembra o meditado empenho

De evitar as justiças, e o despenho

Patrocinar dos novos atentados

No refúgio aos países retirados

Que domina o Espanhol? Tanto afortuna

Abandonais na máxima oportuna

De nos enchermos dos preciosos frutos

Que guarda a Terra, e dos Reais Tributos

Fugir à imposição? Credes que venha

A outra cousa, e outro projeto tenha

Mais que roubar-nos as fazendas nossas,

Ganhadas a tal preço, que inda as grossas

Correntes desses rios se estão vendo

Turvas de sangue? O ímpeto tremendo

Não trazeis em memória dos tiranos,

Que fundados no timbre de paisanos,

Mais escravos que amigos nos queriam?

Não vos lembra os insultos que faziam?

Não vos lembra quem foi, quem é Pedroso?

Ignorais que no cerco duvidoso

Perto estivemos de perder as vidas,

Se por meio de Antunes conseguidas

Não fossem por então nossas idéias?

Ignorais que as montanhas estão cheias

Destes perturbadores, desde quando,

Arbitrária e fantástica ordem dando

Em o nome do Rei, os compelimos

A largar-nos as armas com que os vimos?

Se do auxílio do Grande se aproveitam,

Se a sua fé, se o seu favor aceitam

(Como é crível que o façam), que destino

Tão triste para nós! Eu imagino

Que não sois Europeus: a vossa glória

Acabou de uma vez para a memória.

Virá, eu vejo, o Montanhês tirano,

Roubará nossos bens, irá ufano

Contar aos nacionais seu vencimento;

Albuquerque, eu o vejo, em nobre aumento

Fará brilhar a Lusa Monarquia;

Nós lhe daremos nova glória um dia.

Eia, Europeus briosos, eia amigos,

Vejam-se os ódios respirar antigos.

Torne, torne de nós a ser lembrada

De Dom Fernando a fresca retirada;

Venha em memória de Rodrigo o caso;

E ou em falsa traição, ou campo raso

Ataque-se Albuquerque, fuja e leve

De uma vez, pois que a tanto hoje se atreve

O desengano da ousadia sua.

Assim fala Menezes: continua

A propagar Conrado o ímpio partido,

Que de acordo comum têm concebido.

Derrama-se o veneno e vai chegando

Aos corações de muitos, avivando

As imagens da antiga rebeldia.

Já um número grande concilia

De atrevidos o Frade: estão dispostos

A disputar a entrada; ao Herói opostos,

Se querem sustentar na liberdade;

Francisco, o vil Francisco os persuade

A viverem seguros nos protestos

Firmados com Viana: de funestos

Agouros ao Paulista se enche tudo.

Eis do sulfúreo pó, do ferro agudo

Se buscam munições. A arte, o engenho

(Qual o País permite), o desempenho

Se propõem da vitória nos tostados

Paus, de que os duros cafres vêm armados:

Emboscadas ao longe se preparam;

Tomam-se os sítios, fortes se declaram

Contra Albuquerque os insolentes peitos.

Já de Marte ao furor, campos estreitos,

Eu ouço em vós soar da guerra o brado,

A arcada trompa do Indiano ousado

Enche a terra de horror, de assombro os ares.

Conta-me, ó Fama, de que estranhos lares,

De que montes, florestas, vales, rios

Vistes correr os bárbaros Gentios,

Que o bravo Tutonaque armou de lanças?

Que socorros são estes, que alianças,

Que aos Chefes dos rebeldes votos rendem?

Desde o Sabrabuçu matos se estendem

Que habita o Pataxós, nação que um dia

Um Reino, um vasto Reino parecia.

Tutonaque é quem manda a turba imensa;

Ele os nutriu no crime e na licença,

Cheios de raiva e de furor salvagem;

A seu arco é quem só dão vasselagem;

De verdes anos a domar valentes

Da onça as garras, e do tigre os dentes

Aprenderam talvez; o óleo os tinge

Do pau silvestre, que inda mais os finge

À vista horrendos; são caciques deles

Olinté, Mamigé, Teuco, Tameles,

Marminton, Quezincoal, Remlo, Kalupa.

Bárbara esquadra desta gente ocupa

Toda a falda de um monte; em roda os matos

Dão abrigo aos rebeldes, que insensatos

Não pensam mais que em fazer crer a todos

Que a antiga liberdade por mil modos

Será turbada, se o bom Chefe os rege.

Entre nós, diz Francisco, se protege

A maldade; debaixo deste indulto

A traição, a vingança, o roubo, o insulto,

Tudo concorre a nos fazer ditosos.

Em paz tranquila a desfrutar gostosos

Vivemos no País que outro não manda;

Sem susto o delinquente entre nós anda;

Que será quando um braço mais potente

Arroje do castigo o raio ardente?

Quando as nossas paixões intime o freio?

De qualquer desafogo no receio

Cheios de medo sempre, e sempre indignos,

Não saberemos contestar malignos

A oposição dos Montanheses feros.

Quanto conosco hão deportar-se austeros

Os Chefes recebidos! Não é novo

Viver sem leis, e sem domínio um povo;

Nações inteiras têm calcado a terra

Sem adorar a mão que o Cetro aferra;

E tal houve que creu felicidade

Desconhecer inda a justiça: a idade

Tem .... a humana inteligência

Para abraçar sem susto o que é violência:

Que tormento maior a um livre peito

Que a um homem, a um igual viver sujeito?

A liberdade a todos é comua;

Ninguém tão louco renuncia à sua.

As leis, que um ente humano lhe prescreve,

Cego capricho sustentar-nos deve

Neste, diga-se embora fanatismo,

Embora seja abismo de outro abismo.

Talvez justa noção, princípio, ou dogma

O comum bem noutros projetos soma;

Mas dou que haja razão que assim o dite,

Que um saudável concelho facilite

O bem e a paz na obediência; eu vejo

Que não podemos já viver sem pejo.

Ao ludíbrio dos mais sacrificados

Nos tratarão de membros empestados;

Sobre nós cairá todo o castigo,

Que nos encobre agora um rosto amigo.

Longe, longe, tão baixos pensamentos;

Este é o fim, que segue a passos lentos

O novo Chefe; eu o provejo: posso

Contestar-lhe o poder; o resto é vosso.

Calou o Infame; em um tremendo grito

Soa aplaudida a idéia do delito;

É geralmente a rebeldia aceita.

Do descuido do grande se aproveita

Entretanto o Traidor; expede aviso

A um corpo de Europeus, que vê preciso

Para auxiliar seu braço: o Itatiaia

Os recolhe em seu seio; ali se ensaia

A sedição em poucos mais de um cento.

Houvera de lograr-se o ousado intento,

Mas o Gênio, que guarda as Pátrias Minas,

E a seus descobridores de benignas

Influências enchera, percebendo

A crua idéia do atentado horrendo,

Do mais fundo de um monte a estância bruta

Buscara; ali se acolhe; e em uma gruta

Da cavernosa lapa anima o gesto

De um índio já cansado, inútil resto

Dos anos que contara a mocidade.

Barba e cabeça lhe branqueja a idade;

Dos fundos olhos inda mal se via

O fogo cintilar, em que nutria

Um espírito vivo e penetrante:

De leito serve a pedra, e tem diante

De si os secos ramos, onde acende

A pequena fogueira; a ela estende

As mãos mirradas, o calor buscando.

De uma clara corrente, que manando

Vinha do centro do penhasco, o curso

Segue Albuquerque, entregue o seu discurso,

Separado dos mais, a idéias várias;

Entrava; e suspendido entre as contrárias

Imagens que o combatem, de repente

Punha os olhos no índio, e no acidente

Do inesperado encontro está pasmado.

Caminhante que dorme descuidado

Tanto não se enche de terror e medo,

Quando abre os olhos, e vizinho e quedo

Vê desde longe o tigre, a onça brava,

Que da brenha saía, e atento o olhava.

Cuida ver uma fera o Herói; ousado

Aponta o férreo cano, e já dobrado

Houvera a mola, se de riso o velho

A boca não enchera; ao seu conselho,

Às suas vozes Albuquerque chega,

E todo ao pasmo e à admiração se entrega.

Eu vos conheço, ó Europeus, conheço

(Dizia o Gênio) o generoso apreço,

Que de vós faz o Mundo; em vão dos anos

Não conto os largos e crescidos danos.

Confunde-se o Varão; pede-lhe conte

Quem é. Que faz? Eu sou, diz Filoponte,

O primeiro que entrei estas montanhas

Com o famoso Arzão; ele às estranhas

Regiões se passou; eu só deixado,

E ao comércio dos homens já negado

Vivo neste retiro; a minha vida,

Fortuna e mal, história é tão crescida,

Que só pode cansar-te a minha história;

Mas, pois a sorte com feliz vitória

Te conduziu té aqui, chegando a ver-me,

Sabe quem sou, e aspira a conhecer-me.

Assim dizendo, com a mão feria

O penedo de um lado, e já se via

Aberta uma estrutura transparente

De cristalinos vidros, tão luzente,

Que aos olhos retratava um firmamento

De estrelas esmaltado, e o nascimento

Do roxo Sol, quando no mar desperta.

Em cada vidro a um tempo descoberta

Uma imagem se vê, que os riscos formam,

Estas em outros vultos se transformam,

E a cena portentosa a cada instante

Se muda e se converte; está diante

Uma extensão larguíssima de montes,

Que cortam vários rios, lagos, fontes;

Densos matos a cobrem; vêem-se as serras

De escabrosos rochedos novas guerras

Tentar, buscando os Céus, como tentara

Briareu, quando aos Deuses escalara.

Logo uns homens se vêem, que vão rompendo

Com intrépida força o mato horrendo,

Nus os braços e os pés, mal socorridos

Do necessário à vida: estão metidos

Por entre as feras e o Gentio adusto;

Cada um de si só, perdido o susto,

Se embosca ao centro dos Sertões, se entranha

Já pelo serro, já pela montanha;

Uma e outra distância gira em roda,

E deixa descoberta a extensão toda.

Passa este quadro, e logo outra pintura

Nova imagem propõe, nova figura,

Que retrata uns mortais de negras cores,

Regando o aflito rosto de suores

À força das fadigas com que cavam

As brutas serras, e nos rios lavam

As porções extraídas, separando

As pedras do metal, que andam buscando.

Eis que outros homens de semblantes feros

Contra os Conquistadores já severos

Os fazem despejar desde os seus lares;

Disperso o sangue se recolhe em mares;

Família, e armas, cabedais, e tudo

Cede aos avaros, que do ferro agudo

Fazem despojo à fugitiva gente.

Ao som da caixa o vidro transparente

Retrata logo em monstruoso vulto

Correndo à rédea solta a todo o insulto

Confusa multidão, que se prepara

Arrogar-se o Governo e emprende avara

Sustentar com seu sangue o roubo indigno;

De um Chefe os rege o coração maligno,

Bem que se justifique na aparência

De um influxo de zelo e de prudência.

Desde o cume de um monte está voltando

As costas um Guerreiro, que domando

A insígnia traz na mão; segue seus passos

O resto desses míseros, que aos laços

Dos ímpios escapara; tem a morte

Presente aos olhos; e na dúbia sorte

Escolhe de outras forças redobrar-se,

Té que chega a ocasião de vindicar-se

O respeito, que em vão aos maus intima.

Passavam outros vultos, quando em cima

De um soberbo cavalo vem montado

O mesmo Herói, o Herói que está pasmado

De se ver a si próprio: ao longe um pico

Desde uma serra o convidava ao rico

País, que assombra o bárbaro Itamonte

Co’a robusta presença: tem defronte

O demandado Rio, que já vira,

E notara em seu sonho; então se admira

Inda mais Albuquerque, e crê que a idéia

Em um fingido objeto se recreia,

Figurando por força do costume

O Rio e a Serra, que encontrar presume.

Alegre se encantara nesta vista:

Mas notou (triste horror!) que da conquista

Embaraçava a entrada o vil partido

Dos conjurados Chefes, produzido

O exemplo do retiro de Fernando.

Tanto se atreve o insolente bando!

Encheu-se de tristeza, e o Gênio ativo,

Que atende a protegê-lo, logo um vivo

Esforço comunica ao nobre peito;

Antes que em fumo ou ar voe desfeito

De tanta idéia o quadro portentoso,

Quer declarar em tudo o misterioso

Teatro das imagens: vós agora

Influí-me uma voz alta e sonora,

Ninfas do pátrio Rio, com que eu possa

Cantar na glória minha a glória vossa.