CANTO V

By José Pedro Xavier Pinheiro

Desci desta arte ao círculo segundo,

Que o espaço menos largo compreendia,

Onde o pungir da dor é mais profundo.

Lá stava Minos e feroz rangia:

Examinava as culpas desde a entrada,

Dava a sentença como ilhais cingia.

Ante ele quando uma alma desditada

Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,

Com perícia em pecados consumada.

Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando,

Do abismo o círc’lo arbitra, a que pertença,

Pelas voltas da cauda graduando.

Sempre muitas se lhe acham na presença;

Cada qual tem sua vez de ser julgada,

Diz, ouve, cai, se some sem detença.

Minos, logo me vendo, iroso brada,

Do grave ofício no ato sobrestando:

— “Ó tu, que vens das dores à morada;

“Olha como entras e em quem stás fiando:

Não te engane do entrar tanta largueza!”

— “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?”

“Vedar não tentes a fatal empresa:

Assim se quer lá onde o que se ordena

Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!”

Eis já começo da infernal geena

A ouvir os lamentos: sou chegado

Onde intenso carpir me aviva a pena.

Em lugar de luz mudo tenho entrado:

Rugia, como faz mar combatido

Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.

Da tormenta o furor, nunca abatido,

Perpetuamente as almas torce, agita,

Molesta, em seus embates recrescido.

Quando à borda do abismo as precipita,

Ais, soluços, lamentos vão rompendo.

Blasfema a Deus a multidão maldita.

Ouvi que estão no padecer horrendo

Os que aos vícios da carne se entregavam,

Razão aos apetites submetendo.

Quais estorninhos, que a voar se travam

Em densos bandos na estação já fria,

Em rodopio as almas volteavam,

Ao capricho do vento, que as trazia.

De pausa não, de menos dor a esp’rança

Conforto lhes não dá nessa agonia.

Como nos ares longa série avança

De grous, que vão cantado o seu grasnido,

Assim no gemer seu, que não descansa,

Traz o tufão as sombras desabrido.

— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas

Que o vendaval fustiga denegrido?”

— “A primeira” — tornou Virgílio — “entre elas

De quem notícias ter desejarias,

Regeu nações, diversas nas loquelas.

“De luxúria fez tantas demasias

Que em lei dispôs ser lícito e agradável

Para desculpa às torpes fantasias.

“Semíramis chamou-se: o trono estável

Herdou de Nino e foi a sua esposa.

Do Soldão teve a terra memorável.

“A morte deu-se a outra, de amorosa,

Às cinzas de Siqueu traidora e infida;

Cleópatra após vem luxuriosa”.

Helena vi, a causa fementida

De tanto mal, e Aquiles celebrado

Que teve por amor a extrema lida.

Páris, Tristão e um bando assinalado

De sombras me indicou, nomes dizendo,

Que à sepultura amor tinha arrojado.

A compaixão me estava confrangendo,

Dessas damas e antigos cavaleiros

Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.

Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros

Dois, que ali vêm, falar muito desejo:

Ao vento ser parecem tão ligeiros!”

“Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,

Quando forem mais perto; então lhes pede

Pelo amor que os uniu: virão sem pejo”. —

Quando acercar-se o vento lhes concede

A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,

Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —

Quais pombas, que saudosas de asas fitas,

Ao doce ninho, em vôo despedido,

Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:

Tais saíram da turba, em que era Dido,

A nós as duas sombras se inclinando,

Tanto as moveu da voz o tom sentido!

— “Entre beni’no, compassivo e brando,

Que nos vem visitar por este ar perso,

Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,

“Se amigo o Senhor fosse do universo,

Da paz aos rogos nossos, gozarias,

Pois te enternece o nosso mal perverso.

“Enquanto o vento é quedo, o que dirias

Havemos nós de ouvir atentamente;

Diremos quanto ouvir desejarias.

“Onde, a paz desejando, o Pado ingente

Com seus vassalos para o mar descende,

A terra, em que hei nascido, está jacente.

“Amor, que os corações súbito prende,

Este inflamou por minha formosura,

Que roubaram-me: o modo inda me ofende.

“Amor, em paga exige igual ternura,

Tomou por ele em tal prazer meu peito,

Que, bem o vês, eterno me perdura.

“Amor nos igualou da morte o efeito:

A quem no-la causou, Caína, esperas”.

Após tais vozes foi silêncio feito.

Daquelas almas as angústias feras

Em meditar amargo a fronte inclino

Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”

Quando pude, falei: “Cruel destino!

Que doce cogitar! Que meigo encanto,

Precederam do par o fim maligno!” —

Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:

“Teus martírios, Francesca, me angustiam,

Movem-me o triste, compassivo pranto.

“Quando os doces suspiros só se ouviam,

Como, em que Amor mostrar-vos há querido

Os desejos, que ainda se escondiam?” —

— “Não há” — disse — “tormento mais dorido

Que recordar o tempo venturoso

Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.

“Mas porque de saber és desejoso,

Como nasceu a flor do nosso afeto,

Direi chorando o lance lastimoso.

“Por passatempo eu lia e o meu dileto

De Lanceloto extremos namorados;

Éramos sós, de coração quieto.

“Nossos olhos, por vezes encontrados,

Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.

Um ponto só deu causa aos nossos fados.

“Ao lermos que nos lábios osculara

O desejado riso, o heróico amante,

Este, que mais de mim se não separa,

“A boca me beijou todo tremante,

De Galeotto fez o autor e o escrito.

Em ler não fomos nesse dia avante”.

Enquanto a história triste um tinha dito,

Tanto carpia o outro, que eu, absorto

Em piedade, senti letal conflito,

E tombei, como tomba corpo morto.