CANTO VII
Potentados soberbos! vinde, vinde
Ver um quadro sublime,
Onde lampeja a glória da virtude,
E se aniquila o crime!
Isabel sobre o leito d’agonia
Saúda a eternidade,
Que assentada nos túmulos apaga
A luz da majestade...
Instante acerbo, que ao tirano causa
Desusado terror,
Porque vai baquear, cair do trono,
Aos pés de seu Senhor!...
Por ver que no sepulcro se evaporam
Seus queridos emblemas,
Seus mantos, seus palácios e seus tronos,
Seus cetros, seus diademas;
Porque vê, como um astro ensanguentado
Em céu enegrecido,
Sua alma aflita divagar da morte
No lar desconhecido!...
Instante acerbo, em que p’ra consolo
Nem mesmo os olhos seus
Podem por um momento só fixar-se
Sobre os olhos de Deus!...
E com razão bastante contemplá-los
Não pode o infeliz:
Seus crimes são horrendos, Deus é justo,
E Deus é seu Juiz!!!...
O anátema do céu parece ao triste
Do sacerdote a bênção,
E o rosto volta, procurando aflito
Fugir da maldição!
Isabel vê tranquila da existência
O último raiar;
Nesse instante solene nada pode
Sua alma perturbar!
A lembrança de trono, que perdia,
Não a pode afligir;
Pois lá da sepultura um novo trono
De glória vê surgir.
Não é uma rainha que prostrada
Do sólio cair vai;
É a filha feliz que alegre voa
Aos braços de seu pai.
Nem sequer uma idéia criminosa
Lhe mancha o pensamento,
Que, fixado no céu, tranquilo espera
O último momento.
As costumadas preces de seus lábios
Ao céu iam parar,
E do céu lhe traziam santas graças
Que a vinham consolar.
Lágrimas verte; mas quanta virtude
Expressa pranto tal?!...
Exprime de seus filhos e do povo
Saudade maternal.
Das asas de sua alma só pena
Ao mundo estava presa;
Que dos filhos no peito segurava
A mão da natureza!
Despegou-se afinal, voou da terra
Ao céu leda e serena,
Para o céu nos levou prazer consigo,
Deixou do mundo a pena.
Só restos insensíveis nos ficaram
Daquele ser benigno;
Só este bem nos deixou na terra
O anjo do destino!...
Ó povos! colocai-o num funéreo
Eterno monumento;
Que a vossa gratidão declare aos séculos
O seu merecimento.
Esta inscrição gravai em letras d’ouro
No régio mausoléu;
“Seu corpo tem altares cá na terra,
“Sua alma lá no céu!...”