CANTO VII

By Laurindo José da Silva Rabelo

Potentados soberbos! vinde, vinde

Ver um quadro sublime,

Onde lampeja a glória da virtude,

E se aniquila o crime!

Isabel sobre o leito d’agonia

Saúda a eternidade,

Que assentada nos túmulos apaga

A luz da majestade...

Instante acerbo, que ao tirano causa

Desusado terror,

Porque vai baquear, cair do trono,

Aos pés de seu Senhor!...

Por ver que no sepulcro se evaporam

Seus queridos emblemas,

Seus mantos, seus palácios e seus tronos,

Seus cetros, seus diademas;

Porque vê, como um astro ensanguentado

Em céu enegrecido,

Sua alma aflita divagar da morte

No lar desconhecido!...

Instante acerbo, em que p’ra consolo

Nem mesmo os olhos seus

Podem por um momento só fixar-se

Sobre os olhos de Deus!...

E com razão bastante contemplá-los

Não pode o infeliz:

Seus crimes são horrendos, Deus é justo,

E Deus é seu Juiz!!!...

O anátema do céu parece ao triste

Do sacerdote a bênção,

E o rosto volta, procurando aflito

Fugir da maldição!

Isabel vê tranquila da existência

O último raiar;

Nesse instante solene nada pode

Sua alma perturbar!

A lembrança de trono, que perdia,

Não a pode afligir;

Pois lá da sepultura um novo trono

De glória vê surgir.

Não é uma rainha que prostrada

Do sólio cair vai;

É a filha feliz que alegre voa

Aos braços de seu pai.

Nem sequer uma idéia criminosa

Lhe mancha o pensamento,

Que, fixado no céu, tranquilo espera

O último momento.

As costumadas preces de seus lábios

Ao céu iam parar,

E do céu lhe traziam santas graças

Que a vinham consolar.

Lágrimas verte; mas quanta virtude

Expressa pranto tal?!...

Exprime de seus filhos e do povo

Saudade maternal.

Das asas de sua alma só pena

Ao mundo estava presa;

Que dos filhos no peito segurava

A mão da natureza!

Despegou-se afinal, voou da terra

Ao céu leda e serena,

Para o céu nos levou prazer consigo,

Deixou do mundo a pena.

Só restos insensíveis nos ficaram

Daquele ser benigno;

Só este bem nos deixou na terra

O anjo do destino!...

Ó povos! colocai-o num funéreo

Eterno monumento;

Que a vossa gratidão declare aos séculos

O seu merecimento.

Esta inscrição gravai em letras d’ouro

No régio mausoléu;

“Seu corpo tem altares cá na terra,

“Sua alma lá no céu!...”