CANTO VIII

By José Pedro Xavier Pinheiro

Acrescentar eu devo, prosseguindo,

Que da torre inda estávamos distantes,

Quando os olhos ao cimo dirigindo,

Dois fanais brilhar vemos vacilantes,

A que outro de tão longe respondia,

Que mal se avistam seus clarões tremantes.

E eu de todo o saber ao mar dizia:

— “Os lumes dois por que? Por que o terceiro?

Para acendê-los quem razão teria?” —

— “Pela onda impura” — me tornou — “ligeiro

Quem se aguarda já vês, se não te empece

A vista do paul o nevoeiro”. —

Qual seta, que pelo ar veloz corresse

Da corda arremessada, discernimos

Tênue batel, que vir pra nós parece.

A regê-lo um arrais só distinguimos:

— “Alfim chegaste, espírito execrando!”

Em retumbante grita nós lhe ouvimos,

— “Flégias, Flégias, estás em vão bradando!” —

Disse-lhe o Mestre — “nos terás somente

Enquanto formos o paul passando.” —

Como quem reconhece, e pesar sente,

Um grande engano, que se lhe há tecido,

Flégias assim na sua ira ardente.

Tendo Virgílio à barca descendido,

Eu segui-o: somente aos meus pesados

Passos mostrou ter carga recebido.

Em sendo o Mestre e eu no lenho entrados,

O lago foi cortando a antiga proa

Com sulcos mais que de antes profundados,

Enquanto assim corremos, eis me soa

De lutulenta sombra voz que exclama:

— “Quem és que em vida vens para a lagoa?”

— “Sim, venho, mas não fico nesta lama.

E tu quem és que imundo te hás tornado?” —

— “Bem vês: um sou que lágrimas derrama.”

E eu então: — “Fica em lodo mergulhado.

Em dor, em pranto, espírito maldito!

Sei quem és, se bem stás desfigurado”. —

Tendeu à barca as mãos aquele aflito,

Mas por Virgílio, que o repele presto

— “Com teus iguais vai, cão, te unir!” — foi dito.

Abraçando-me então com ledo gesto

Me oscula e diz: — “Abençoado seja,

Quem tão altivo te gerou e honesto!

“Essa alma, que de orgulho inda esbraveja,

Avessa ao bem, de raiva possuída,

Deixou em si memória, que negreja.

Quantos reis, grandes na terrena vida,

Virão, quais cerdos, se atascar no lodo,

Fama de si deixando poluída!” —

— “Mestre, grato me fora sobremodo

Vê-lo no ceno mergulhar profundo,

Antes de eu ter daqui saído em todo”. —

— “Antes que a margem — respondeu jocundo —

Avistes, gozarás dessa alegria,

Verás penar o espírito iracundo”. —

E logo ao pecador, como à porfia,

Tanta aflição causou a imunda gente,

Que ainda louvo a Deus, que o permitia.

Gritavam todos: — “A Filipe Argenti!” —

E a florentina sombra, se volvendo

Contra si, se mordia insanamente:

Lá o deixei, não mais nele entendendo.

Súbito, ouvindo um lamentar amaro,

Os olhos fitos para além e atendo.

E o bom Mestre me disse: — “Ó filho caro,

Stá perto Dite, de Satã cidade,

Que há povo infindo para o bem avaro”. —

— “Lá do vale no fundo em quantidade

Mesquitas” — respondi — “rubras discerno

De flama, creio, pela intensidade”. —

E o Mestre a mim: — “As faz o fogo eterno

Vermelhas, que lá dentro está lavrando

Como tens visto neste baixo inferno”. —

Já nos profundos fossos penetrando

De que o triste alcáçar é circundado,

Me estavam ferro os muros semelhando.

Mas, após grande giro, hemos tocado

Na parte, onde o barqueiro com voz forte

— “Saí” — gritou — “à entrada haveis chegado!”

À porta vi daqueles grã coorte

Que o céu choveu; bramiam de despeito:

“Este quem é que, antecipando a morte,

“Tem dos mortos no reino sido aceito?” —

Meu sábio Mestre então lhes fez aceno

Para, em secreto, expor-lhe seu conceito.

Contendo um pouco às sanhas o veneno

Disseram: — “Vem tu só; vá-se o imprudente,

Que neste reino entrou, de audácia pleno;

“Só deixe a empresa em que embarcou demente;

Tente-o, se sabe; ficarás no entanto;

Pois és seu guia à região nocente”. —

Imagina, ó leitor, qual fosse o espanto

Meu escutando a horrífica ameaça:

Não deixar a mansão temi do pranto.

“Ó Mestre meu, que tanta vez a graça

Fizeste de alentar-me o peito aflito

No perigo iminente e atroz desgraça,

“Não me deixes” — disse eu — “neste conflito!

E, se avante passar é defendido,

Ambos voltemos do lugar maldito!” —

Quem tão longe me havia conduzido

— “Não temas” — diz — “não pode ser vedado

O passo, que por Deus foi permitido.

“Aqui me espera e o ânimo prostrado

Fortalece e alimenta de esperança:

Não hás de ser no inferno abandonado”. —

O doce pai se afasta e à porta avança.

Ficando assim na dúvida e incerteza,

No pró, no contra a mente se abalança.

Não pude o que propôs ouvir; na empresa

Curta há sido a detença: de repente

Esquivam-se os precitos com presteza.

De roldão cerra a porta a imiga gente

Do Mestre à face, que, ficando fora,

A mim se restitui mui lentamente.

De olhos baixos, faltava-lhe a de outrora

Afouteza, e dizia suspirando:

“Quem me tolhe da dor a estância agora?” —

E logo a minha alteração notando

“Não te aflijas; que os óbices te digo

Hei de vencer que a entrada estão vedando.

“Não é nova esta audácia do inimigo;

Em mais patente porta há já mostrado,

Que sem ferrolho está: viste-a comigo,

“E a lúgubre inscrição lhe hás contemplado.

Deixou atrás e desce a penedia,

Pelos círc’los passando não guiado,

Abrir quem pode esta cidade ímpia”. —