CANTO X

By Cláudio Manuel da Costa

De Flégon e Pírois as rédeas de ouro

Batia o Sol, e com feliz agouro

Em giros onze ao lusitano fasto

Sobre mil setecentos que tem gasto

Pelo eclítico cerco, enfim trazia

O mês que Roma do seu Júlio fia

Eis que Albuquerque, adiantando o passo

Da margem que deixara, em breve espaço

Pisava as faldas do Itamonte: estava

Co’os olhos fitos o Gigante, e dava

Vivos sinais de uma alegria interna;

Certo que de seus braços já governa

Tão grande parte a direção prudente

Do magnânimo Herói, ele impaciente

Na dilação de ver a Vila erguida,

Conta-se (nem do caso se duvida),

Que assim falara quando o viu diante:

Ó tu, por tantos riscos triunfante,

Albuquerque feliz, pois que a fortuna

Te conduziu com máxima oportuna

A registar de perto os meus domínios,

Pois que cortados os fatais desígnios

Do conjurado bando alegre pisas

Este verde País, onde eternizas

Em gloriosos feitos o teu nome,

Deixa que em teu obséquio a empresa tome

De ir já desentranhando do meu seio

Os mármores mais finos; nisto veio

Pulando desde o centro um Padrão liso

Da mais subida massa; eu já diviso

Nele entalhadas do cinzel agudo

As Régias Armas; tanto ao destro estudo

De Praxíteles não devera a idade:

Sobre o quadro da base à eternidade

Se recomenda a estampa; ao alto erguida

Sobre a coluna, a ponta está partida

De um aguçado alfanje; assim denota

Que aos crimes ameaça, e o sangue esgota

Dos que entregues à pérfida maldade

Desconhecem as leis da humanidade.

Este Padrão no meio se coloca

Da Régia Praça, que os Céus provoca

Soberba torre em que demarca o dia

Volúvel ponta, e o Sol ao centro guia.

De férreo pau já sobe, e já se estende

Magnífico edifício, onde pertende

A Deusa da justiça honrar o assento.

Aqui das penas no fatal tormento

A liberdade prende o delinquente,

E arrastando a misérrima corrente

Em um só ponto de equilíbrio alcança

Todo o fiel da sólida balança.

Da sala superior teto dourado

Já se destina ao público Senado,

Que o Governo econômico dispensa.

Lavra artífice destro sem detença

Os mármores cavados; de polidas

E altas paredes já se vêem erguidas

As majestosas casas, que recolhem

Régios Ministros que os tributos colhem;

Em respectivos tribunais decentes

Dão as próvidas leis: talvez presentes

Tem Itamonte já no claro auspício

De um e outro magnífico edifício

As que espera lavrar líquidas fontes,

Que vomitam delfins, e régias pontes,

Que se hão de sustentar sobre a firmeza

De grossos arcos da maior riqueza.

Presentes tem talvez os Santuários,

Em que se hão de esgotar tantos erários,

Onde Roma há de ver com glória rara

Que debalde aos seus templos disputara

A grandeza, o valor e a preeminência.

Trajando as galas da maior decência

Na casa do Senado o Herói entrava;

Da cor da tíria púrpura talhava

A farda militar; cinge-lhe o lado

A rica espada, que já tem provado

Mil vezes o furor do irado Marte;

E a mão, que os prêmios liberal reparte

E dispõe os castigos, já sustenta

O bastão que os poderes representa.

Estão no plano os esquadrões formados,

Monta a Cavalaria, e cinge os lados;

O centro ocupa a Infantaria; tudo

Respira da grandeza um novo estudo:

Brilha o asseio e a ostentação; a idéia

Crê que dos Céus na vista se recreia,

Vendo nos recamados fios de ouro

Que o Sol retrata ali o seu tesouro.

Desta arte entrando vai na Régia Sala,

Senta-se, mede a todos, e assim fala:

Felizes vós, feliz também eu devo

Chamar-me neste dia, pois que escrevo

Com letras de ouro o meu, e o nome vosso.

Entre as vitórias e entre as palmas posso

Seguro descansar: enfim caída

Vejo de todo a rebeldia erguida,

E Vassalos de um Rei, que mais vos ama,

Buscais acreditar a vossa fama

Com o dote imortal, que a Nação preza,

De uma fidelidade portuguesa.

De meus antecessores longe o susto;

Goze-se a doce paz, e um trato justo

De amizade e de fé, de hoje em diante

Acabe de apagar o delirante,

Fanático discurso, que inda excita

De algum Vassalo a dor; não se limita

O Régio Braço: a todos se dilata,

A todos favorece, acolhe, e trata

Sem outra distinção mais do que aquela

Que demanda a virtude ilustre e bela.

Disse; e solenizando a ação, procura

Se lavre logo a sólida escritura,

Onde o foral da Vila se establece.

Entanto o pátrio Gênio lhe oferece,

Por mão de destro artífice pintadas

Nas paredes, as férteis, dilatadas

Montanhas do País; e aqui lhe pinta,

Por ordem natural, clara e distinta

A diferente forma do trabalho

Com que o sábio mineiro entre o cascalho

Busca o louro metal, e com que passa

Logo a purificá-lo sobre a escassa

Tábua, ou canal do liso bulinete,

Com que entre a negra areia ao depois mete

Todo o extraído pó nos lisos vasos

(Que uns mais côncavos são, outros mais rasos)

E aos golpes d’água da matéria estranha

O separa e divide; alta façanha

De agudo engenho! A máquina aparece,

Que desde a sua altura ao centro desce

Da profundada cata, e as águas chupa.

Vê-se o outro mineiro, que se ocupa

Em penetrar por mina o duro monte

Ao rumo oblíquo, ou reto; tem defronte

Da gruta, que abre, a terra que extraíra;

Os lagrimais das águas que retira

Ao tanque artificioso logo solta;

Trazida a terra entre a corrente envolta,

Baixa as grades de ferro; ali parados,

Os grossos esmeris são depurados,

Deixando ao dono em prêmio da fadiga

Os bons tesouros da fortuna amiga.

Por entre a pedra estoutro vai buscando

As betas de ouro; aquele vai trepando

Pelo escabroso serro, e as águas guia

Pelos canais que lhe abre a pedra fria.

Não menos mostra o Gênio a agricultura

Tão rara do País, aonde a dura

Força dos bois não geme ao grave arado;

Só do bom lavrador o braço armado

Derriba os matos, e se ateia logo

Sobre a seca matéria o ardente fogo.

Da mole produção da cana loura

Verdeja algum terreno, outro se doura;

O lavrador a corta, e lhe prepara

As ligeiras moendas; ali pára

O espremido licor nos fundos cobres:

Tu, ardente fornalha, me descobres

Como em brancos torrões haja tornado

A estímulos do fogo o mel coalhado.

O arbusto está, que o vício tem subido

A inestimável preço, reduzido

A pó sutil o talo e a folha inteira.

Não menos brota a oriental figueira

Com as crescidas folhas, e co’o fruto,

Que inda nos lembra o mísero tributo,

Que pagam nossos Pais, que já tiveram

A morada do Éden e não puderam

Guardar por muito tempo a lei imposta

(Ó natureza ao Criador oposta!).

Os pássaros se vêem de espécie rara

Que o Céu de lindas cores emplumara;

As feras e animais mais esquisitos

Todos no alegre mapa estão descritos,

Os olhos deleitando e entretendo

O Herói que facilmente o está crendo,

Ao ver que destra mão dar-lhes procura

A vida que lhes falta na pintura.

Mas já lavrado estava e já firmado

O termo, que escrevera o bom Pegado;

Quando mais que a eleição, podendo o acaso,

Manda o Herói que se extraiam dentre um vaso

Os nomes dos primeiros a quem toca

Reger a Vara que a justiça invoca.

A ti te chama a sorte, ó grande Melo,

E tu, Fonseca, em nobre paralelo

Cedes nos anos teus a precedência,

Do que contemplas próvida influência.

Seguem-se àqueles dous um Figueiredo,

Um Gusmão, um Faria, e te concedo

Que sejas tu, Almeida, o que completes

O número na ação em que competes.

Ansioso o Povo às portas esperava

Pela alegre notícia, e já clamava

Viva o Senado... Viva! Repetia

Itamonte, que ao longe o eco ouvia.

Enfim serás cantada, Vila Rica,

Teu nome impresso nas memórias fica;

Terás a glória de ter dado o berço

A quem te faz girar pelo Universo.