CANTO X

By José de Santa Rita Durão

Cheia de assombro a turba a dama admira

Tornada a si da suspensão pasmosa;

E da nova visão, que ali sentira,

Prossegue a ouvir-lhe a narração gostosa.

“Mais bela que esse sol que o mundo gira,

E com dor (disse) de purpúrea rosa,

Vi formar-se no céu nuvem serena,

Qual nasce a aurora em madrugada amena.

Vi luzeiros de chama rutilante

Sobre a esfera tecer claro diadema

Da matéria mais pura que o diamante,

Que obra parece de invenção suprema;

Luzia cada estrela tão brilhante,

Que parecia um sol, precioso emblema

De admirável, belíssima pessoa,

Que à roda da cabeça cinge a c’roa.

De ouro fino os cabelos pareciam,

Que uma aura branda aos ares espalhava,

E uns dos outros talvez se dividiam,

E outra vez um com outro se enredava;

Frechas voando, mais não feririam,

Do que um só deles n’alma penetrava;

Cabelos tão gentis, que o esposo amado

Se queixa que de um deles foi chagado.

A fronte bela, cândida, espaçosa,

Cheia de celestial serenidade,

Vislumbres dava pela luz formosa

Da imortal soberana claridade.

Vê-se ali mansidão reinar piedosa,

E envolta na modéstia a suavidade,

Com graça, a quem a olhava tão serena,

Que, excitando prazer, desterra a pena.

Dos dois olhos não há na terra idéia,

Que astros, flores, diamantes escurecem,

Ou na beleza de mil graças cheia,

Ou nos agrados, que brilhando of’recem,

Num olhar seu toda alma se encadeia,

E mil votos à roda lhe aparecem

Dos que a seu culto glorioso alista,

Outorgando o remédio numa vista.

Das faces belas, se na terra houvera

Imagem competente que pintara,

As flores mais gentis da primavera

Pelo encarnado e branco eu comparara;

Mas flor não nasce na terrena esfera,

Não há estrela no céu tão bela e clara,

Que não seja, se a opor-se-lhe se arrisca,

Menos que à luz do sol breve faísca.

Da boca formosíssima pendente

Pasma em silêncio todo o céu profundo:

Boca que um Fiat pronunciou, potente,

Com mais efeito que se criasse um mundo.

Odorífero cheiro em todo o ambiente

Do lábio se espalhava rubicundo:

Fragrância celestial, que amante e pia,

No filho com mil ósculos bebia.

Todos suspende em pasmo respeitoso

O amável formosíssimo semblante,

E mais nele se ostenta poderoso,

O soberano autor do céu brilhante:

Pois quanto tem o Empiro de formoso,

Quanto a angélica luz de rutilante,

Quanto dos serafins o ardente incêndio,

De tudo aquele rosto era um compêndio.

Nas brancas mãos, que angélicas se estendem,

Um desmaiado azul nas veias tinto,

Faz parecer aos olhos, quando atendem,

Alabastros com fundos de jacinto.

Ambas com doce abraço ao seio prendem

Formosura maior, que aqui não pinto;

Porque para pincel me não bastara,

Quando Deus já criou, quanto criara.

Mas, se não se dedigna o verbo santo,

Por nosso amor, de um símbolo rasteiro,

Dentro parece do virgíneo manto,

Pascendo em brancos lídios um cordeiro.

Os olhos com suavíssimo quebranto

Lhe ocupa um doce sono lisonjeiro;

À roda os serafins, que o estrondo impedem,

Para o não despertar silêncio pedem.

Aos pés da mãe piedosa superada

Vê-se a antiga serpente insidiosa,

De que a fronte na culpa levantada

Quebra a planta virgínea gloriosa;

E, enroscando os mortais já quebrantada,

Ao eco só da Virgem poderosa,

No mais fundo do abismo se submerge,

E o feral antro do veneno asperge.

Ao ver beleza tanta, o pensamento,

Que a linda imagem surprendia absorto,

Ouve no centro d’alma um doce acento

Que o peito enchia de vital conforto.

E, como infunde às plantas novo alento

O matutino orvalho em fértil horto,

Tal dos doces influxos na abundância

Dentro d’alma eu senti nova constância.

“Catarina (me diz), verás ditosa

Outra vez do Brasil a terra amada;

Faze que a imagem minha gloriosa

Se restitua de vil mão roubada!”

E assim dizendo, nuvem luminosa,

Como véu, cobre a face desejada,

E faz que na memória firme exista

Entre amor e saudade a doce vista.

Assim conclui Catarina, enchendo

De duvidoso assombro a companhia.

Que imagem fosse aquela, iam dizendo,

Ou qual deles acaso a roubaria?

Se a Mãe de Deus, mistérios envolvendo,

Doutra cópia interior o entenderia,

Ou queria talvez que em santo trato

Se restitua n’alma o seu retrato?

Mas vela em tanto apareceu boiante

Que junto da Bahia o mar cortava,

Onde em bandeira, que lançou flamante,

O leão das Espanhas tremulava.

Vem à fala com salva fulminante,

E a franca nau, que à terra velejava.

Posto à capa o espanhol, cortês visita,

E o claro Diogo a visitá-lo incita.

E, depois que em festivo amigo abordo

O bom Gonzales o hóspede festeja,

Excitou-se nos dois claro recordo

De quem o hispano foi, quem Diogo seja;

Ambos nos braços, de comum acordo,

Um a outro mil ditas se deseja,

Reconhecendo o luso o nobre hispano,

Por um dos companheiros de Arelhano.

“Carlos o grande, o imperador famoso,

Grato por mim a saudar-te envia

(Disse a Diogo o hispano generoso,

Socorrido a outro tempo na Bahia).

Ouviu o invicto César, gracioso,

O teu obséquio à espanha monarquia,

E o serviço, que grande considera,

Por mim do seu agrado remunera.

E por que possa em caso equivalente

Retribuir-te aquela ação piedosa,

Salva aqui te ofereço a infausta gente,

Perdida nessa praia desditosa,

De cativeiro bárbaro e inclemente

Vivia na opressão laboriosa,

Até que destas armas protegida

Remiu na liberdade a infausta vida.”

Garcez então, da gente lusitana

O mais distinto que o discurso ouvia,

Confessa o benefício a força hispana,

E a história de seus casos principia:

“Depois que a gente abandonaste insana,

Com seu aviso, a lusa monarquia

Gente aqui mandou, naus poderosas,

Que as nações sujeitassem belicosas.

Foi Pereira Coutinho o destinado

A fazer da Bahia a grã-conquista,

Herói no índico império celebrado,

Em quem nova esperança o luso avista,

Tudo tinha o bom chefe preparado,

Formosas naus ajunta e gente alista

E à grã-população que meditava

De um sexo e doutro as gentes convidava.

E, sem demora as praias ocupando,

Foi dos Tupinambás, com teu recordo,

As potentes aldeias visitando,

Com amiga aliança em firme acordo.

Do sertão vasto em numeroso bando

Desciam, festejando o nosso abordo,

Os carijós, tapuias e outras gentes,

Por fama do teu nome obedientes.

Gupeva e Taparica celebrados

Entre os tupinambás, nação que habita

Os campos da Bahia dilatados,

Antes de outros Coutinho solicita;

E, por vê-los contigo emparentados,

Povoar o Recôncavo medita

Da gente, que o teu nome reconhece,

Onde de dia a dia o povo cresce.

Todo o fértil terreno utilizando,

Donde riqueza se oferece tanta,

Engenhos vai de açúcar fabricando,

Aldeias, casas, máquinas levanta.

E as drogas preciosas comutando,

A mandioca, arroz e a cana planta;

Nem dúvida que seja em tempo breve

A colônia melhor que Europa teve.

Escolha faz nas tabas numerosas

Dos que acha no trabalho mais ativos;

Mas guarda para empresas belicosas

Os que em ferócia reconhece altivos.

A todos com maneiras amorosas

Propõe da fé cristã claros motivos;

E, a condição notando em cada raça.

Uns doma com terror, outros com graça.

Sabe que em gente tal nada se colhe,

Depois de endurecer na idade adulta,

Onde na puerícia os mais escolhe,

Por dar-lhe em breve a educação mais culta.

Nem dos pais violento algum recolhe;

Mas do proveito, que de alguns resulta,

Induz a gente bárbara que o segue

Que a prole à educação gostosa entregue.

Em cuidadosa escola, o temor santo

Antes das artes a qualquer se ensina;

Dão-lhes lições de ler, contar, de canto,

E o catecismo da cristã doutrina;

Vendo-os o rude pai, concebe espanto,

E pelo filho a mãe à fé se inclina;

Nem de meio entre nós mais apto se usa

Que aquela gente bárbara reduza.

E estes serão, se a idéia não me engana,

Meios à grande empresa necessários,

Que em breve a gente rude fora humana,

Com escolas e régios seminários.

Foge, sem se domar, a gente insana,

Se em forças e poder nos vê contrários;

Mas, educada em tenra mocidade,

Dilataria o reino e a cristandade.

Mas no meio das belas esperanças,

Com que a nova colônia florescia,

Move a serpe infernal desconfianças

Entre os tupinambás e os da Bahia:

Foi a causa infeliz destas mudanças

Um interesse vil de gente impia,

Que os povos ofendendo em paz amigos,

Cobriram toda a terra de inimigos.

Gupeva foi dos seus abandonado;

Taparica foi mono; a lusa gente

Do gentio nos matos rebelado

Contínua perda nas lavouras sente.

Queimada a planta foi, perdido o gado,

E, cercado o arraial em contingente,

Viu Coutinho por bárbara violência

Perdido o seu tesouro e diligência

Na geral aflição do luso povo

A lugar se recorre mais tranquilo;

Buscamos nos Ilhéus um sítio novo

Contra a turba feroz, seguro asilo.

E já Coutinho se dispõe de novo,

Vendo manso o gentio, a reduzi-lo,

Fabricando colônia de mais dura,

Menos fecunda, sim, mas mais segura.

Mas os Tupinambás, melhor cuidando,

Com promessas os nossos convidavam,

Com mil amigas provas protestando

De conservar a paz que antes guardavam,

Creu o infeliz Coutinho, celebrando

Pactos que segurança a todos davam;

E, sem temor de mais, voltar queria

Ao Recôncavo antigo da Bahia.

E já no mar a frota se equipava,

E cada um de nós na empresa absorto,

Sem temor, ou receio, só cuidava

Em fazer ao Recôncavo transporto,

Navegamos o espaço que distava,

E, tendo à vista o desejado porto,

Com fúria o mar aos astros se levanta,

Em cerração do céu que à vista espanta.

O ar caliginoso e em névoa impuro

Tirou-nos toda a vista, e sem destino

Batemos cegos num penhasco duro,

Sem termos do lugar notícia ou tino.

Neste momento horrível, transe escuro,

Suplicando o favor do céu divino,

Vemos a nau, com hórridos fracassos,

Desfazer-se na penha em mil pedaços.

Ficamos, como o entendes, alagados,

Nadando em meio da procela horrenda;

Uns das ondas se afogam devorados,

Outros na praia em confusão tremenda.

E eis que os cruéis tupis encarniçados

Com frechas se empenharam na contenda,

Por levar-nos da areia semi-vivos

À sorte dos seus míseros cativos.

Muitos vimos dos bárbaros comidos,

Alguns dispostos ao funesto ocaso,

Aflitos todos nós e esmorecidos,

E esperando qualquer seu triste prazo;

Mas de ti sobretudo condoídos,

Triste Coutinho, que no acerbo caso,

Depois de triunfar da Ásia assombrada,

Perdeste infelizmente a vida amada.

Tu, que mil vezes no remoto oriente

Levantaste troféus de glória onustos,

A quem cedera o Malabar potente

Em armadas e exércitos robustos;

Tu, que foste o terror da índica gente,

Que da Lísia humilhaste aos reis augustos,

Lá estava entanto a tua sorte escrita

De vires a acabar nesta desdita.”

Mais prosseguir não pôde sufocado

O bom Garcez em amargoso pranto;

E condoeu-se Diogo, recordado

De ver-se em outro tempo em caso tanto;

E, havendo os naufragantes consolado:

“Não sou (diz) insensível, que sei quanto

Acerbo o caso é, cruel o artigo,

E a piedade aprendi no meu perigo.

Recebei, entretanto, valorosos

Corn magnânimo peito a adversidade;

Conseguireis por transes perigosos

Fazer-vos dignos da imortalidade.

Deixareis monumentos gloriosos

A uma longa e feliz posteridade;

E ganhando obtereis com tanta glória

Um nome eterno nos padrões da história.”

Disse o piedoso herói, reconhecendo

Ao hispano monarca pelo enviado

O distinto favor, e a mercê tendo

Achar memória no real agrado.

À nau depois os sócios recolhendo,

No Recôncavo entrava desejado,

Onde a vista formosa da Bahia

Com perspectiva amena aparecia.

A ver na estranha nau que gente aporte

Desde o interior sertão turba recresce,

E, bem que diferente em trajo e porte,

Catarina dos seus se reconhece.

Entre aplausos recebe a nação forte

O grão-Caramuru, como merece,

Mostrando pelo amor e reverência

No antigo afeto a nova obediência.

Carrega entanto o lenho desejado

A nau de Du-Plessis, que Diogo estuda

Que seja em toda a terra obsequiado,

Dando-lhe ao talho da madeira ajuda.

Um carijó, porém, nisto empregado,

Enquanto a carga em toda a nau se muda,

Uma imagem roubou formosa e bela,

Que a nau venera na interior capela.

Observou-a Diogo na cabana

Tratada dos Tupis com reverência,

Estimando-a por coisa mais que humana,

Que excedia dos seus a inteligência.

Surprendeu-se da imagem soberana

O lusitano herói; e à competência

Com eles venerando a Mãe Divina

Chama a vê-la a piedosa Catarina.

Pôs-lhe os olhos a dama, e transportada:

“Esta é (disse), é esta a grã-senhora

Que vi no doce sonho arrebatada,

Mais que o sol pura, mais gentil que a aurora!

Eis aqui! esta é a imagem veneranda,

Este era aquele roubo, entendo agora:

Oh minha grande sorte! Oh imensa dita!

Isto me quis dizer a Mãe bendita.”

Dizendo assim, com ânsia fervorosa,

Prostrada, abraça a imagem veneranda;

Beija, aperta-a, de gosto lacrimosa

Mil saudosos ais ao céu lhe manda.

“Aqui vos venho achar, Mãe piedosa,

No meio (disse) desta gente infanda!

Infanda como eu fui, se o vosso lume

Não me emendara o bárbaro costume.”

Olha entanto suspensa a gente bruta,

E os excessos que vê cuidando admira;

Nem concebe nas vozes que lhe escuta

Se prazer seja, se de dor suspira;

Mas, como a imagem celestial reputa,

Quanto à dama piedosa obrando vira

Qualquer à imitação fazer deseja,

E este a adora, outro a abraça, e aquele a beija.

O lusitano e franco religioso

Veneraram com fé prodígio tanto,

Lembrando-se do sonho portentoso

Com claro indício do presságio santo,

Enquanto o brutal povo numeroso

Tudo nota em um êxtase de espanto,

Até que a um templo em pompa veneranda

A pia multidão a imagem manda.

Por santa invocação foi aclamada

A senhora da Graça, e com fé pia

Foi desde aquele dia venerada

Singular Protetora da Bahia.

Igreja primitiva dedicada

Em meio às trevas dessa gente impia,

Memorável (se a fama é verdadeira)

Porque em todo o Brasil fora a primeira.

Neste festejo a plebe se entretinha,

E eis que uma salva se ouve estrepitosa

De grande armada, que estendendo vinha

Galhardetes e flâmulas lustrosa.

Tudo ao rumor da frota se encaminha,

Vendo a bandeira tremular famosa,

Que no brasão das quinas representa

A redenção que o céu na terra intenta.

Era Tomé de Sousa o comandante.

Que ali governador fora mandado

Com multidão de gentes abundante,

Para dar forma ao povo começado.

Num sítio com mil mangues verdejante,

Que o grão-Caramuru tinha habitado,

Da colônia, que às tabas se assemelha,

O nome nos ficou de Vila Velha.

Ali por principal constituído

Foi dos Tupinambás o claro Diogo

Das tabas do sertão reconhecido,

Como dragão do mar, filho do fogo.

Catarina, por sangue esclarecido,

Herda de seus avós o império logo,

Convocando à Bahia nesta idéia

Dos seus Tupinambás toda assembléia.

A taba de Gupeva, já habitada,

Onde hoje é Vila Velha, a turba corre;

Das outras tabas toda a gente armada

Com os seus principais a ouvir concorre.

Toda a cidade em corpo congregada

A grande casa concorreu da torre,

Paço de Catarina, que na empresa

Presidia aos Tupis, como princesa.

A seu lado Diogo, e Sousa armado,

À Câmara preside da Bahia;

O clero santo a Deus tendo invocado,

Ouviu-se dos clarins doce harmonia.

A tropa portuguesa ocupa um lado,

Todo o outro espaço o bárbaro cobria,

E, em meio a cada casta ali presente,

Brilha emplumado a principal potente.

De varões apostólicos um bando

Tem de inocentes o esquadrão disposto,

Que iam na santa fé disciplinando.

Todos assistem com modesto rosto,

O catecismo em cântico entoando,

No idioma brasílico composto

Do exército, que Inácio à igreja alista,

Para emprender a bárbara conquista.

Sentiu da pátria o público proveito

O monarca piíssimo que impera,

E estes varões famosos tinha eleito

A instruir o Brasil na fé sincera.

Eles toda a conquista houveram feito,

E o imenso gentio à fé viera,

Se cuidasse fervente o santo zelo,

Sem humano interesse em convertê-lo.

São desta espécie os operários santos,

Que com fadiga dura, intenção reta,

Padecem pela fé trabalhos tantos,

O Nóbrega famoso, o claro Anchieta.

Por meio de perigos e de espantos,

Sem temer do gentio a cruel seta,

Todo o vasto sertão têm penetrado,

E a fé com mil trabalhos propagado.

Muitos destes ali, velando pios,

Dentro às tocas das árvores ocultos,

Sofrem riscos, trabalhos, fomes, frios,

Sem recear os bárbaros insultos;

Penetram matos, atravessam rios,

Buscando nos terrenos mais incultos

Com imensa fadiga e pio ganho

Esse perdido, mísero rebanho.

Mais de um verás pela campanha vasta

Derramar pela fé ditoso sangue:

Quem morto às chamas o gentio arrasta,

Quem deixa a seta com o tiro exangue.

Vê-los-ás discorrer de casta em casta,

Onde o rude pagão nas trevas langue,

E ao céu lucrando as miseráveis almas,

Carregados subir de ínclitas palmas.

Com corte tanta no sublime Paço,

Que a grã-Casa da Torre se apelida,

Orando Catarina um breve espaço,

O trono ocupa e as atenções convida.

Tinha emplumada a fronte, e o forte braço,

Como insígnia de império conhecida,

Um marraque por cetro sustentava,

Que toda a turba com respeito olhava.

“Venturosos paisanos, que o céu ama,

(Disse a dama real), povo disperso,

Que ele ao rebanho seu piedoso chama,

Desde o antigo dilúvio em sombra imerso!

Hoje vos quer livrar da averna chama,

Vendo arrastar-vos do dragão perverso,

Esse Grão-Deus que de uma crua sublime

A pena satisfaz e a culpa oprime.

Da antiga Lusitânia o rei potente,

Acompanhando o sol no giro imenso,

Vai rodeando todo o globo ingente,

Desde o aurífero Tago ao China extenso.

Por ele a fé recebe todo o Oriente,

O mouro cede de pavor suspenso,

E Europa admira pelo mar profundo

Que o seu reino menor subjugue um mundo.

Deste grande monarca é tanto o império,

Que aonde a própria luz não se caminha,

Nos limites extremos do hemisfério,

O lusitano exército caminha.

A África e Ilhas, o Árabe Cimério,

Duas vezes passando a imensa linha,

Possui tantos povos, que a contá-los

São mais que os portugueses seus vassalos.

Este rei glorioso foi o eleito,

Por providência da eternal bondade,

A fazer do Brasil um povo aceito

E digno de a gozar na eternidade.

Pudera desta gente o forte peito,

Tendo na Ásia opulenta imensidade,

Estes nossos sertões trocar incultos

Por nações ricas e terrenos cultos.

Pudera com as forças, que aqui manda,

Com pouca utilidade, ou mais que fora,

Domar o roxo mar por toda banda,

E o reino todo possuir da aurora.

Mas a piedade faz, com que comanda,

Que, antepondo o Brasil a tudo agora,

Mostre aos homens que o impulso que o domina

É propagar no mundo a fé divina.

Generoso pensar! sagrada empresa!

Longe da vã política de Estado,

Que, se a milícia, se o comércio presa,

Não tem da Santa Fé menor cuidado.

Mas o que rege a vasta redondeza,

E a sorte dos impérios tem fixado,

La vira tempo enfim que o zelo pague,

E em ouro o Tago do Brasil se alague.

Um rei, se não me engana oculto instinto,

Quando o Quarto remir as duas quinas,

Depois do Sexto Afonso e Pedro extinto,

Abrira no sertão famosas minas.

Fará de ouro Lisboa D. João Quinto,

Altas disposições do céu divinas!

Pois no tremor e incêndio, que a ameaça,

Prepara este subsídio à grã-desgraça.

Tempo vira que a dama majestosa

Por soberana a Lísia reconheça,

Época ilustre, insigne e venturosa,

Em que tenha uma santa por cabeça.

Descera sobre o reino a paz formosa,

E com a paz fará que a gloria desça,

Atlantes tendo de seu régio Estado

Quatro sábios e um ínclito prelado.

E tu, monarca justo, do céu vindo,

Venha-te a palma sobre o empíreo tarda,

E pai da pátria, ao reino presidindo,

Com zelo a antiga fé nos nossos guarda!

Enche o grão-nome, as portas reprimindo

Do monstro Averno, que nos fundos arda;

Que deixe Portugal, que na fé medra,

E Cristo firma sobre a imóvel pedra.

Esta insigne progênie o céu promete,

Brasil agora rude, aos teus vindouros!

O colo humilde entanto ao rei submete,

E of’rece-lhe contente os teus tesouros.

E entre tantas nações, que ao jugo mete

À sombra Portugal dos verdes louros,

Sem provares da guerra o furor vário,

Chega ao trono a humilhar-te voluntário.

E, se princesa me chamais sublime

Dos vossos principais nascida herdeira,

Se ao grão-Caramuru, que o raio imprime,

Jurastes vassalagem verdadeira,

Ele da sujeição tudo hoje exime,

Cedendo ao trono luso a posse inteira,

E eu do monarca na real pessoa

Cedo todo o direito e entrego a c’roa.”

Dizendo assim, a dama generosa

Desce do trono e o esplêndido diadema

Entrega ao Sousa, e toma majestosa

Um baixo assento com modéstia extrema.

Pasma o Tupinambá, vendo a formosa,

Nobre Paraguassu, de claro estema,

Que, o seu régio marraque ao Sousa dando,

Despia a pompa do real comando.

Logo o Caramuru, na língua e estilo

Dos naturais falando ao chefe novo,

Posto tudo em silêncio para ouvi-lo,

O escudo da Bahia mostra ao povo:

A pomba de Noé, que ao noto asilo

Com ramo de oliveira vem de novo,

Dando a entender a paz, que à crua gente

Com a fé dispensava o rei clemente.

“Este é o título (disse) verdadeiro,

Com que ocupa o Brasil nesta anarquia:

O muito alto senhor D. João Terceiro,

A fim que em paz se tenha a turba impia,

Porque ao supremo ser e ente primeiro

Reconheça o sertão, sirva a Bahia;

E porque propagada a fé se veja

No novo império que conquista à igreja.”

Disse Diogo, e as quinas tremulando,

“Real, Real! com voz clama expressiva,

Por D. João monarca venerando,

Príncipe do Brasil, que fausto viva.”

Responde a turba os vivas replicando,

Com tão alto clamor que o ouvido priva,

É ao rumor dos canhões e das cornetas

Correspondem as bélicas trombetas.

Então, sentado sobre o sólio ingente,

Que já desocupara a dama bela,

Como governador da lusa gente,

Tomé de Sousa cortejado dela,

Toma posse legítima e patente

Da Bahia e sertão, e sem querê-la

Do habitante, que os campos desocupa,

Em nome dos seus reis a terra ocupa.

Depois ao povo e ilustre magistrado

Por leis do novo império manifesta

Que seja o nome santo venerado,

Que cesse nos sertões a guerra infesta;

Que o homicídio se veja castigado,

Que o antropófago atroz, que a lei detesta,

Que a embaixada evangélica, que envia,

Se ouça com paz, que se honre o que a anuncia.

Que o indígena seja ali empregado,

E que à sombra das leis tranquilo esteja;

Que viva em liberdade conservado,

Sem que oprimido dos colonos seja;

Que às expensas do rei seja educado

O neófito, que abraça a santa igreja,

E que na santa empresa ao missionário

Subministre subsídio o régio erário.

Por fim publica do monarca reto

Em favor de Diogo e Catarina

Um real honorífico decreto,

Que ao seu merecimento honras destina:

E em recompensa do leal afeto,

Com que a coroa a dama lhe consina,

Manda honrar na colônia lusitana

Diogo Álvares Correia, de Viana.