CANTO XII

By José Pedro Xavier Pinheiro

Da descida era o passo tão fragoso

E tal por quem lá estava à guarda e atento,

Que se fazia à vista pavoroso.

Como a ruína, que daquém de Trento,

O Ádige feriu, por terremoto

Ou por faltar de chofre o fundamento;

Do viso ao val do monte, que foi roto,

Tão derrocada vê-se a penedia,

Que a descê-la o caminho é quase imoto.

A ribanceira assim nos parecia.

E à borda do penedo fracassado

De Creta o monstro infame se estendia,

Da falsa vaca torpemente nado.

Apenas viu-nos, se mordeu fremente,

Como quem pela raiva é devorado.

“Cuidas” — bradou-lhe o sábio incontinente —

“Ser de Atenas o príncipe, o que à morte

Lá sobre a terra te arrojou valente?

“Arreda, bruto! Que este é de outra sorte;

Da tua irmã não recebera ensino;

De vós outros vem ver a pena forte”.

Qual touro desprendido, quando o tino

Mortal golpe lhe rouba, que não pode

Correr, mas salta a vacilar mofino:

Assim o Minotauro. O Mestre acode

Dizendo-me: “Demanda presto a entrada

E desce, enquanto em vascas se sacode”. —

A quebrada descíamos formada

De pedras soltas; cada qual, movida,

Cedia, em sendo por meus pés calcada.

E eu cismava. Ele disse: — “Tens sorvida

A mente na ruína, que do horrendo

Monstro a ira defende já vencida.

“Deves saber que, de outra vez descendo

Até o extremo lá do baixo inferno,

Esta rocha não vi, como a estás vendo,

“Mas, pouco antes de vir se bem discerno,

Aquele que há tomado a grande presa,

A Dite, lá no círculo superno,

“Deste val tremeu tanto a profundeza,

Que sentisse pensei todo o universo

O amor, com que alguém diz ter certeza

“De que ao caos muita vez será converso.

Foi aqui, noutras partes, nesse instante,

Roto o velho penhasco em treva imerso.

“Mas olha o vale: o rio é não distante

De sangue, onde verás fervendo aquele,

Que violência exerceu no semelhante.

“Ó ira louca, ó ambição, que impele

Na curta vida nossa, ao inferno arrasta

E para sempre nos submerge nele!” —

Eis uma cava divisei mui vasta,

Que abrangia, arqueada, o plano inteiro,

Como dissera quem do mal me afasta.

No espaço, a que o penhasco é sobranceiro,

Centauros correm, setas agitando,

Como soíam no viver primeiro.

Descer nos vendo, pára o ardido bando.

Três de entre eles então nos demandaram,

Os arcos e arremessos preparando.

Os brados de um de longe nos soaram:

— “Vós, que desceis, dizei a pena vossa;

De lá falai, ou tiros se disparam!” —

Virgílio respondeu: — “Resposta nossa

Terá Quiron de perto, sem demora.

Sempre te dana a pressa que te apossa”. —

Tocou-me e disse: — “Quem nos fala agora

É Nesso, o que morreu por Dejanira;

Mas se vingou de quem fatal lhe fora.

“Esse do meio, que o seu peito mira,

Aio de Aquiles, é Quiron famoso;

Esse outro é Folo, sempre aceso em ira”. —

Aos mil em volta ao rio sanguinoso

As almas seteavam, que excediam,

Mais do que é dado, o líquido horroroso.

Àqueles monstros que ágeis se moviam,

Chegamo-nos. Quiron com seta ajeita

Os cabelos, que os lábios lhe encobriam.

Quando desta arte a larga boca afeita,

Disse à companha: — “Haveis já reparado

Que move aquele tudo, em que os pés deita?

“Nunca assim pés de morto hão caminhado”.

O Guia meu, que junto já lhe estava

Do peito, onde era um ser noutro enleado,

— “Vivo está, vem comigo” — lhe tornava —

“A visitar o val maldito, escuro

Para cumprir dever, que lho ordenava.

“Deixando de cantar o hosana puro

Alguém me há cometido o cargo novo.

Não é ladrão, nem eu esp’rito impuro:

Em nome do poder, por quem eu movo

Os passos meus em tão medonha estrada,

Envia algum, que escolhas no teu povo,

“Por nos mostrar a parte acomodada

Ao vau, e no seu dorso haver transporte

Quem não é sombra ao vôo aparelhada”.

Quiron volveu-se à destra e a Nesso forte

— “Torna atrás” — disse — “e serve-lhes de guia:

Que outro bando o caminho lhes não corte!” —

Já partimos na fida companhia,

As ondas costeando rubras, quentes,

Donde agudo estridor ao ar subia.

Té os cílios no sangue os padecentes

Eu vi. Disse o Centauro: — “São tiranos

Truculentos e em roubo preminentes.

“Chora-se aqui por feitos desumanos.

Alexandre aqui está, Dionísio antigo

Que gemer fez Sicília tantos anos.

“De negra coma, aqui sofre o castigo

Azzolino; e o que está, louro, ao seu lado

Obizzio d’Este, ao qual (verdade eu digo)

“Roubara a vida o pérfido enteado”. —

E o Vate, a quem voltei-me, assim dizia:

— “O segundo lugar me é reservado”. —

Pouco além parou Nesso: olhar queria

Uma turba, que, estando submergida,

Toda a cabeça para fora erguia,

Disse, indicando uma alma retraída:

“Perante Deus um coração ferira,

Que inda Londres venera estremecida”. —

A cabeça vi de outros, que subira

Do rio à superfície e o inteiro busto,

Suas feições no mundo eu distinguira:

Ia baixando o sangue até que a custo

Os pés cobria a quem passar quisesse:

O fosso ali vencemos já sem custo.

“Se desta parte o borbulhão parece

Do rio escassear, eu te asseguro”

— Disse Nesso — “que mais engrossa e desce

“Na parte oposta até juntar-se ao escuro

Pego em que, como hás visto, a tirania

As penas dá no seu tormento duro.

“A divina justiça lá crucia

Esse Átila, que açoite foi da terra,

Pirro e Sexto; e redobrar-se a agonia

“Dos dois Renatos, que tamanha guerra

Fizeram nas estradas, salteando,

— O Pazzo e o de Corneto”. — E a fala cerra.

Voltou depois do rio o vau passando.